Existe um medo universal que cai sobre os homens em determinada fase da existência. Um sentimento inexplicável que se manifesta no medo de perder o lado bom da vida. Algo como a sensação de que levamos décadas e décadas para construir uma boa vida e, de repente, percebemos que tudo pode ser destruído num único instante, num único acontecimento.
Esse medo - o terror da ascensão da escuridão, o horror de que a meia-noite tome conta da existência - é o sentimento que toma conta do protagonista do novo livro do escritor canadense David Gilmour, "A Perfeita Ordem das Coisas", que acaba de ser lançado pela editora Jardim dos Livros (selo da Geração Editorial).
O narrador do romance é escritor de 60 e poucos anos (assumidamente alter ego de David Gilmour) que decide fazer um balanço de sua vida pressentindo a proximidade da morte. Para a empreitada, resolve revisitar todos os lugares onde vivenciou algum tipo de sofrimento. Voltar aos lugares de olhos bem abertos, voltados para o mundo exterior, para o ambiente onde foi abatido por alguma forma de sofrimento.
A iniciativa do sujeito é inspirada no escritor francês Marcel Proust (1871 – 1922) a partir da ideia de "ultra-tempo". O argumento é de que nosso corpo lembra mais facilmente dos fracassos do que dos sucessos: "Quando colocamos o corpo de volta nos mesmos lugares físicos onde ele fraquejou outrora, onde ele sofreu golpes contra seu coração e sua vaidade, às vezes nosso corpo esquece todas as coisas que aconteceram e só pensa que aqueles dias ruins de antigamente ainda estão ali."
Para realizar o balanço de sua existência, o narrador realiza uma série de viagens para lugares, cidades e países, onde o sofrimento deixou alguma marca em sua memória. Experiências sofridas da infância, da juventude, da família, dos amigos, do trabalho e, principalmente, das relações amorosas.
Pulando de revisita em revisita, o sujeito traça um mapa de sua vida, do processo de sua existência ao longo das décadas. Sua maior atenção aos fracassos revela que sua existência foi pautada por erros. Não erros inúteis, mas erros que fazem parte do processo que é tornar-se adulto. Depois, o processo de tornar-se velho. E, depois de tudo, do processo de tornar-se mais humano.
O narrador de "A Perfeita Ordem das Coisas" faz uma coleção de referências à literatura do escritor russo Liev Tolstói e à música dos The Beatles. Não só dos lugares físicos e geográficos estaria estruturada sua memória, mas também dos livros que leu e das músicas que ouviu em determinados lugares. Como se a lembrança não fosse um fato isolado, mas um leque de elementos associados aos cinco sentidos.
Em "A Perfeita Ordem das Coisas", David Gilmour não está interessado em se debruçar sobre a linguagem. Seu interesse está em narrar uma experiência de ver o mundo através de um relato vinculado à vida. O final do romance deixa claro essa aposta, onde a ascensão da escuridão, a meia-noite da existência, encontra seu ponto de elucidação quando os homens precisam se preparar para a morte. E se preparar em morrer bem, colocando em ordem os assuntos emocionais e psíquicos.

BEST SELLER
David Gilmour (não confundir com outro David Gilmour, o guitarrista da banda Pink Floyd) nasceu em Toronto, Canadá, em 1949. Crítico de cinema e apresentador de televisão, ficou mundialmente conhecido após a publicação de "O Clube do Filme", lançado no Brasil em 2009 pela editora Intrínseca. A obra, publicada em 25 idiomas e que se tornou best seller em vários países, narra a experiência de Gilmour em tentar educar o filho, que fugiu da escola, através do cinema.
Com 15 anos de idade, o garoto, após vários problemas e conflitos com a escola, opta por abandonar os estudos. Para resolver o drama, o pai resolve aceitar a complicada decisão do filho. Mas com uma condição ousada: o garoto deve assistir e comentar três filmes indicados pelo pai. Sem nenhum método pré-determinado, o garoto começa a ver os filmes e fazer comentários cada vez mais elaborados sobre o conteúdo dos filmes. A experiência assume a forma de um estudo básico sobre o ser humano.

SERVIÇO
"A Perfeita Ordem das Coisas"
Autor – David Gilmour
Editora – Jardim dos Livros
Tradução – Cecília Prada
Páginas – 168
Quanto – R$ 29,90 e R$ 9,90 (e-book)

Então, eu estava mais grisalho, mais gordo, e testemunhava, sem ficar cada vez mais perturbado, a morte de um caso de amor. Outro caso de amor. O amor, como aprendi, é uma criatura viva, e quando está morrendo os sinais que dá são inaudíveis, como um animal fraco demais para se importar com quem o alimenta. Molly e eu conversávamos com extrema precaução, como falam as pessoas que perderam a naturalidade uma com a outra, uma espécie de protolíngua que de alguma forma ambas esqueceram. É claro que sempre haverá quem dê um jeito de passar batom em um cadáver, fazê-lo levantar e dançar, mesmo que de forma grotesca. Casar, comprar um cavalo, ter um bebê, alguns casais costumam fazer essas coisas. Mas há a quarta opção, menos comprometedora: tirar férias juntos. E foi isso que fizemos. (...) Uma manhã, Molly e eu estávamos tomando café no bar do hotel. Eu estava levando colheradas de iogurte no mel à boca com a maior urgência. - Não quero ofendê-lo – disse Molly com um sorriso forçado -, mas você está fazendo um barulhão com isso. Aquilo que, para os que não reconheceram, é o som de uma mulher que não nos quer mais. Lembrou-me subitamente o som de alguém batendo um martelo na mesa. (Fragmento de "A Perfeita Ordem das Coisas", de David Gilmour)
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