LEITURA - A frieza da bala
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de junho de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Quando um romance termina, todos seus personagens morrem com o ponto final. Essa é a regra das palavras, não do pensamento. Alguns leitores, mesmo depois do ponto final, possuem o hábito de imaginar um novo desenrolar da história para os personagens. O final de um romance real seria o início de um outro imaginado.
Alguns escritores também possuem o mesmo procedimento. Quando uma história ou um personagem pulsa no interior das páginas de um livro, existe a tentação de estender sua existência. Então nasce a idéia de criar uma continuação da história.
Esse é o caminho percorrido pela escritora paulista Patrícia Melo em seu novo romance, ''Mundo Perdido'', lançado pela Editora Companhia das Letras. No livro, Máiquel, protagonista de ''O Matador'' obra da autora publicado em 1995 reaparece como personagem principal numa continuação da história.
Em ''O Matador'', Máiquel é um justiceiro que assume o papel de eliminar à bala as ''sujeiras podres e pobres'' da periferia de São Paulo. Com o tempo torna-se uma espécie de matador profissional que chega a ser agraciado, pelos ''ricos limpos e saudáveis'', com o título de ''homem do ano''.
Em ''Mundo Perdido'', Máiquel reaparece após permanecer dez anos escondido, evitando complicações com a polícia. Agindo com todas as precauções de um fugitivo, volta a São Paulo para acompanhar o enterro sua tia. Nesse retorno, decide reencontrar sua filha que não vê há dez anos. A criança foi raptada por sua esposa Érica, que desapareceu no mundo na companhia de um pastor evangélico.
Resumindo, o romance de Patrícia Melo narra uma perseguição pontuada pela velocidade da morte. Máiquel é o tipo de figura que não tem nada a perder do mesmo modo com não tem nada a ganhar. Segue matando todos que se interpõem em seu caminho, em sua caçada em busca de vingança. E a linguagem da narrativa é trabalhada no mesmo ritmo.
Para conduzir a perseguição empreendida pelo protagonista de ''Mundo Perdido'', a autora coloca o personagem percorrendo o Brasil pela estrada da chamada ''realidade crua'', ou dos ''subterrâneos da sobrevivência''. Na busca da filha, percorre situações que envolvem corruptos de todos os tipos, pastores indecentes, contrabandistas, narcotraficantes, invasões de terras, igrejas inescrupulosas, advogados imorais, prostituição infantil, perseguição policial, a miséria das periferias urbanas, estelionatários, ladrões de carga, desmatamento ilegal, etc. Em outras palavras, percorre toda a lista de clichês possíveis que recheiam as páginas dos jornais.
Essa montanha de clichês do ambiente social brasileiro é utilizada apenas como cenário para a perseguição e vingança de Máiquel. Ele percorre tudo sem sofrer nenhum tipo de alteração em sua personalidade. Para contrapor essa frieza, Patrícia Melo insere na história a figura de Tigre, um cão vira lata de três patas.
Após ser atropelado, Tigre passa a receber o tipo de cuidado e atenção de Máiquel. Algo que ele não é capaz de dispensar a um ser humano. Chega imaginar que o cachorro é um homem disfarçado de cão. Algo como um maluco que, no meio uma aventura lisérgica, pensou que era um cão. Sem conseguir retornar na viagem, assumiu definitivamente a forma canina. Algo que pode ser encarado como um espelho na parede.
Serviço:
- Livro ''Mundo Perdido'' de Patrícia Melo. Editora Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 36,00.


