Uma mulher com uma lesão cerebral que decide viver não a cura, mas os sintomas da doença.
Um homem revoltado que decide fazer com que a justiça não seja mais sempre adiada, mas seja um estado presente.
Uma mulher que decide decifrar uma música que só existe dentro de sua cabeça, e fazer desse enigma uma viagem pela memória afetiva.
Um homem que faz a opção ética de permanecer limpo num mundo onde todo tipo de sujeira pode ser relativizado.
Esse homem e essa mulher são personagens presentes nos dois últimos textos teatrais escritos pelo dramaturgo londrinense Maurício Arruda Mendonça e o diretor paranaense Paulo de Moraes para o Armazém Companhia de Teatro.
Os dois trabalhos, "A Marca da Água" e "O Dia em Que Sam Morreu", ganharam o formato de livros lançados pelo Armazém e editora Kan. As publicações fazem parte do projeto da Companhia em documentar a dramaturgia criada dentro do processo de trabalho do grupo.
Os textos ganharam prêmios nacionais e internacionais. "A Marca da Água" recebeu o Shell 2012, na categoria melhor autor, e o Fringe Award 2013 no Festival de Edimburgo (Escócia). "O Dia em Que Sam Morreu" recebeu o Fringe Award 2014 no Festival de Edimburgo, o Prix Coup de Coeur 2014 no Festival de Avignon (França) e o Cesgranrio de Teatro 2014, na categoria melhor texto nacional.
O espetáculo "O Dia em Que Sam Morreu" integra a programação do Filo 2015. A peça foi escolhida para abrir o Festival Internacional de Londrina que acontece na sexta-feira, no Teatro Marista.
O texto realiza uma reflexão sobre como as escolhas éticas definem o destino das pessoas e de uma sociedade. E como, nos dias de hoje, a flexibilidade moral se tornou uma conduta justificável a favor de interesses particulares. Trata-se de uma das dramaturgias mais impactantes criadas pela parceria de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, profundamente mergulhada em questões atuais e realistas.
Traz o embate de seis personagens no interior de um hospital. Médicos e pacientes precisam encarar a realidade maquiada quando um homem invade o local com um revólver nas mãos. Um homem que busca limpar as sujeiras do mundo, que deseja expor as mentiras e fazer as mudanças na unha. No fundo está apenas expondo como as alterações de valores acontecem quando a farsa se instala entre valores coletivos e valores individuais.
"A Marca da Água" é formada por uma dramaturgia mais poética. Traz a história de uma mulher que, diante de uma enfermidade fatal, não escolhe o processo de cura. Opta em viver os sintomas da doença e caminhar de cabeça erguida na direção do fim. Nesse processo, mergulha no universo da memória para entender as configurações do destino.
Tanto "A Marca da Água" quanto "O Dia em Que Sam Morreu" aprofundam uma das principais características da dramaturgia contemporânea: a fragmentação e a sobreposição de tempos. A não-linearidade é trabalhada para que o leitor, ou o espectador, sinta a narrativa como uma sucessão de revelações.

Serviço:

"A Marca da Água"
Autor – Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes
Editora – Kan
Páginas – 104
Quanto – R$ 30

"O Dia em Que Sam Morreu"
Autor – Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes
Editora – Kan
Páginas – 136
Quanto – R$ 35

Laura – Os sintomas voltaram. Minha cabeça dói o dia todo, eu me atrapalho com o tempo, minha memória tá falhando... E dia desses eu comecei a ouvir uma música insistente dentro da cabeça. Domênico – Você voltou pro médico? Laura – Não, eu não quero saber de médico. Domênico – Você passou por três cirurgias, Laura. Dos 10 aos 18 anos te abriram a cabeça três vezes. Você tem que se tratar. Laura – Não, eu quero o sintoma, eu não quero a cura. Domênico – Vem cá, o seu marido sabe disso? Laura – Psiu!!! Não se mete nisso. Domênico – Você não contou nada disso ao Jonas? Laura – Psiu!!! Ele não sabe de cirurgia nenhum, não tem que saber. Eu decidi simplesmente... Olha... Se meu cérebro vai ser inundado e minha consciência vai se afogar, ainda tem essa música que flutua no meu cérebro, esses sons, essa melodia... Que sou eu... Se eu conseguir registrar o que tá na minha cabeça... Então tudo vai ficar bem... Domênico – Não, não vai ficar tudo bem. Laura – Talvez no meu lugar você visse as coisas da mesma maneira. Domênico, o cérebro é uma coisa maravilhosa. Todo mundo devia ter um... (De "A Marca da Água", de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes)
Arthur – Você está sendo egoísta. Samantha – Egoísta?! Arthur – Não tá pensando em mim, em sua família, nas pessoas que precisam de você. Você só fez o bem toda a sua vida, porra! Samantha – Eu respeito a lei! Arthur – A lei não é a justiça! Samantha – Ser injusto por amor também é injustiça, Arthur. Arthur – Por favor Sam. Às vezes é preciso que a gente tenha uma flexibilidade moral. Samantha – Flexibilidade moral?! E o que os seus colegas vão pensar?! O que o Benjamin vai pensar?! Arthur – O Benjamin?! A moral do Benjamin não é flexível, é diluída em formol. Foi ele que operou o Vargas, nosso cirurgião-chefe. Obstrução coronária grave. O próprio Vargas escolheu o Benjamin pra cirurgia. Tava tudo indo bem, só que aí ele cometeu um erro infantil - engraçado né? – e comprometeu o pulso do Vargas, ou seja, ele perdeu a precisão dos movimentos em uma das mãos, não pode mais fazer cirurgia, vai ser aposentado. E adivinha quem vai ser nomeado pro cargo? Samantha – Benjamin... Arthur – Bingo! Samantha – E você não comunicou o crime? Arthur – Não Sam. O jogo é jogado. Se você sai, entra outro em seu lugar. Samantha – E a boba aqui acredita que a vida deva ser séria o suficiente para existir um castigo. (Fragmento de "O Dia em Que Sam Morreu", de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes)
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