LEITURA - A febre da floresta
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de abril de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O escritor amazonense Milton Hatoum possui uma trajetória rara na literatura brasileira. Nascido em Manaus em 1952, publicou seu primeiro romance, ''Relato de um Certo Oriente'' em 1989. O livro recebeu o prêmio Jabuti de melhor livro daquele ano. Seu segundo romance, ''Dois Irmãos'' apareceu apenas 11 anos depois, em 2000, e novamente recebeu o Jabuti. O terceiro, ''Cinzas do Norte'', lançado em 2005, também ganhou o Jabuti, além de outros prêmios literários como o Portugal Telecom.
Independente de prêmios, Milton Hatoum é um dos escritores mais significativos que surgiram na literatura brasileira da última década. Professor universitário, fez da região amazônica o pano de fundo de suas histórias sempre marcadas por conflitos e impasses familiares.
Em ''Órfãos do Eldorado'', seu quarto romance lançado recentemente pela editora Companhia das Letras, Hatoum segue colocando a família como centro dos furacões íntimos. A obra apresenta uma história de amor e decadência permeada pelo manto mitológico característico da população amazônica.
''Órfãos do Eldorado'' é narrado por um velho chamado Arminto. Considerado louco pela população de uma pequena cidade às margens do rio Amazonas, ele conta sua história para um turista de aguarda a hora de embarcar num barco com destino a Manaus. Misturando relatos reais e relatos mitológicos, constrói um mundo onde a realidade torna-se mitológica e a mitologia torna-se real.
Filho de um rico empresário do fim do ciclo da borracha, Arminto perdeu a mãe ainda pequeno. Criado por uma índia adolescente, passou a desenvolver uma relação conflituosa e problemática com o pai. Uma relação onde a repulsa ocupa o lugar da compreensão. Com a inesperada morte do pai, passa a viver empenhado em torrar a herança da maneira mais rápida possível.
Nesse período conhece Dinaura, uma jovem índia que vive num orfanato sob comando de Irmãs Carmelitas. A garota torna-se a obsessão de sua existência. Uma paixão avassaladora que coloca em risco a própria noção de lógica e realidade. Uma loucura que atinge o ápice no dia em que Dinaura desaparece do orfanato. A população do lugar afirma que a menina foi enfeitiçada e raptada por um fantástico habitante das profundezas dos rios. Desesperado pelo desaparecimento da amada, Arminto passa a vagar a procura de Dinaura. Em cada índia adolescente raptada, ou comprada, para uso sexual dos homens da região, tenta reencontrar a amada. Assim, passa toda sua vida procurando Dinaura. Ao mesmo tempo, vai descobrindo a verdadeira história de sua própria família, onde a cega busca pela riqueza do pai e do avô destruiu a humanidade à sua volta.
Uma névoa cobre toda a narrativa de ''Órfãos do Eldorado''. Não apenas pela presença de elementos mitológicos, mas também pela visão enevoada do narrador, Arminto. Paradoxalmente é justamente essa névoa que oferece visibilidade à idéia de realidade presente no romance.
Milton Hatuom narra uma história onde o real não está nos acontecimentos, nos fatos ou nas coisas. Apresenta uma história onde o real está na maneira como um homem olha os fatos, as coisas e os acontecimentos. Que está no modo em que esse homem dá forma ao que não é exato nem palpável. Da mesma maneira que está no modo como pulveriza a forma do que se apresenta exato e palpável. Uma nebulosa via de mão dupla onde só a febre é capaz de oferecer lucidez.
SERVIÇO
- ''Órfãos do Eldorado''
Autor - Milton Hatoum
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 110
Quanto - R$ 29
Florita foi atrás de mim e começou a traduzir o que a mulher falava em língua indígena; traduzia umas frases e ficava em silêncio, desconfiada. Duvidava das palavras que traduzia. Ou da voz. Dizia que tinha se afastado do marido porque ele vivia caçando e andando por aí, deixando-a sozinha na Aldeia. Até o dia em que foi atraída por um ser encantado. Agora ia morar com o amante, lá no fundo das águas. Queria viver num mundo melhor, sem tanto sofrimento, desgraça. Falava sem olhar os carregadores da rampa do Mercado, os pescadores e as meninas do colégio do Carmo. Lembro que elas choravam e saíam correndo, e só muito tempo depois eu entendi por quê.
De repente a tapuia parou de falar e entrou na água. Os curiosos ficaram parados, num encantamento. E todos viram como ela nadava com calma, na direção da ilha das Ciganas. O corpo foi sumindo no rio iluminado, aí alguém gritou: A doida vai se afogar. Os barqueiros navegaram até a ilha, mas não encontraram a mulher. Desapareceu. Nunca mais voltou.
Fragmento de Órfãos do Eldorado de Milton Hatoum


