Tudo indica que a surpresa literária brasileira de 2012 recai sobre "Nihonjin", romance de estreia do maringaense Oscar Nakasato que ganhou em outubro o Prêmio Jabuti de melhor romance. Numa concorrência acirrada, o ilustre iniciante superou obras de autores consagrados da literatura brasileira.
A trajetória de "Nihonjin" é curiosa. Nakasato realizou o mesmo périplo de centenas de autores em começo de carreira. Enviou os originais do livro para todas as grandes editoras do país, e recebeu um redondo não de todas elas. Todas recusaram a publicação da obra. Após sucessivas recusas, inscreveu o romance no prêmio Benvirá e faturou o primeiro lugar e a publicação do livro pela editora Saraiva.
A ideia do livro nasceu quando Oscar Nakasato trabalhava em sua tese de doutorado sobre o perfil de personagens nipônicos na literatura brasileira. Constatou que eram praticamente inexistentes personagens descendentes de japoneses nas obras literárias de romancistas nacionais. A partir dessa constatação, decidiu criar um romance onde os personagens principais fossem imigrantes japoneses e seus descendentes.
"Nihonjin" é uma obra que se propõe a contar uma história sem complexidade, sem experimentações de linguagem. Um romance simples, de comunicação direta pautada pela clareza. Ao apresentar três gerações de uma família, Nakasato se baseia no processo da história da imigração japonesa no Brasil para revelar o caráter sentimental desse processo e os conflitos instalados nos indivíduos e nas famílias.
Não pode ser considerado um retrato amplo e completo, mas um recorte do processo de imigração. Mesmo assim algo que ainda não havia sido feito dentro da literatura brasileira, apenas nos acadêmicos estudos de história e sociologia. O recorte apresenta três gerações (pais, filhos e netos) em três abordagens principais.
A primeira seria a chegada dos japoneses no Brasil com o sonho de ganhar muito dinheiro e voltar ao Japão. Mas a realidade que se encontram é outra. Trabalho duro, pouco dinheiro e uma cultura completamente diferente. E em poucos anos desmorona a ideia de retornarem ao país de origem.
A segunda abordagem seria a contradição vivida pelos filhos dos imigrantes que, mesmo nascidos em solo brasileiro, precisam viver como japoneses por imposição moral dos pais. Por mais que se sintam brasileiros, sem o mínimo interesse de viver no Japão de seus pais, precisam viver de acordo com a cultura japonesa. A miscigenação de culturas é vedada. A miscigenação de raças impossível.
A terceira abordagem retrata o enterro da ideia do Japão como Império cultuado pela primeira geração de imigrantes. Com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial movimentos nacionalistas de inclinações terroristas surgem em solo brasileiro. A colônia passa a viver uma guerra interna com japoneses assassinando japoneses a partir do credo de que a derrota na guerra é uma mentira criada pelo exército norte-americano.
O romance de Oscar Nakasato vislumbra ainda outro recorte: a volta dos descendentes ao Japão num caminho inverso de seus avós: o sonho de ir para o Japão, trabalhar alguns anos de voltar para o Brasil com os bolsos abarrotados de dinheiro. Mas o autor não aprofunda essa abordagem, apenas a apresenta como representação da ironia do movimento circular de imigração.
Nascido na zona rural de Maringá, neto de imigrantes japoneses, Oscar Nakasato conhecia o tema que decidiu trabalhar através de uma ótica interna. Com 20 anos de magistério, professor de Literatura na Universidade Tecnológica do Paraná, campus de Apucarana, cidade onde reside, conseguiu atribuir um caráter emocional ao tema. O que faz de "Nihonjin" o pontapé inicial para que o tema se faça presente na ficção nacional do mesmo modo como a imigração italiana se fez presente em inúmeros romances e telenovelas de grande público.

Serviço:
"Nihonjin"
Autor – Oscar Nakusato
Editora – Benvirá/Saraiva
Páginas – 175
Quanto – R$ 19,90


Fragmento: - Para okachan, respeito significa ficar quieta mesmo quando não concorda com alguma coisa. Shizue ficou um instante calada, buscando palavras para dizer o que pensava. Tinha ideia na cabeça, ora, e foi o que disse. Não era estúpida como queria fazer crer o filho, sobre cada fato pensava alguma coisa e, à noite, antes de dormir, dizia ao marido isso e aquilo, descrevia o que acontecera durante o dia e comentava. Ao filho disse: que morava no Brasil, mas não era brasileira, não podia virar gaijin só porque vivia em terra estrangeira, portanto não podia se sentar à mesa junto aos homens durante as refeições como faziam as esposas brasileiras, não podia dizer não se otochan lhe pedira algo, não podia se queixar das decisões do marido. Calou-se novamente, procurando alguma razão nos princípios do filho, e então disse que havia muito gaijin em que podia confiar, que gostava de ver seu Paulo e dona Tereza andando na rua de mãos dadas, mas não se sentia à vontade para fazer o mesmo com otochan, e que não via uma disputa para saber quem tinha razão. (Fragmento de "Nihonjin" de Oscar Nakusato)
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