LEITURA - A face concreta de Paulo Menten
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de maio de 2018
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Ao falecer em 2011, o gravurista Paulo Menten deixou uma série de obras inéditas. Não apenas gravuras e desenhos, mas também escritos. Uma parte desses escritos está sendo resgatado em "Visiopoemas", livro que será lançado na próxima sexta-feira (4), durante a abertura da feira gráfica Dobra que acontece no Museu Histórico de Londrina nos dias 5 e 6.
A obra apresenta uma faceta pouco conhecida da produção do artista: a poesia concreta. São poemas visuais inéditos criados na década de 1950, época em que o artista morava em São Paulo. Referência na arte da gravura brasileira, Paulo Menten (1927 2011) aportou em Londrina em 1980, onde fixou residência e abriu seu ateliê participando da formação de inúmeros artistas londrinenses.
Lançado pelo Gravatório Edições, a edição de "Visiopoemas" transforma o livro em objeto estético. Conteúdo e forma se unem para criar uma atmosfera única para o leitor. Organizada pelo jornalista Felipe Melhado e pelo designer Pablo Blanco, a obra foi confeccionada totalmente de maneira artesanal utilizando materiais e soluções pouco usuais. Formado por plaquetes independentes, possui uma tiragem restrita de 120 exemplares.
A seguir, Felipe Melhado fala sobre como "Visiopoemas" foi desenvolvido.

Como você teve acesso aos escritos inéditos de Paulo Menten?
No ano passado, Paulo Menten completaria 90 anos de idade se estivesse vivo. Por causa dessa efeméride eu estava escrevendo um perfil de Menten. Nesse trabalho fui entrevistar um dos muitos amigos do Menten, o historiador Nelson Tomazi. Era ele quem estava com esses poemas, que o Menten chamou de "Visiopoemas". Alguns deles estavam datilografados, batidos na máquina de escrever, e outros desenhados com caneta. São poemas feitos na década de 1950, quando o concretismo estava aparecendo. O Menten, que morava em São Paulo na época, certamente viu isso de perto e resolveu experimentar seus próprios poemas concretos. Eu fiquei surpreso que um cara como ele, que é uma espécie de lenda da gravura em Londrina, tivesse também uma breve fase como poeta concreto, e achei que seria legal fazer uma edição bem trabalhada graficamente, apresentar isso para o público.
Que tipo de trabalho vocês realizaram a partir dos originais?
Vendo os originais, pensando sobre eles, eu e o Pablo Blanco achamos que seria legal fazer a publicação em tipografia, imprimir esses poemas com tipos móveis. Depois, também passamos a imaginar que tipo de interferência gráfica cada um deles poderia receber. A partir da forma dos poemas, e também dos seus sentidos, escolhemos então papéis diferentes para cada um deles, variamos as cores das tintas e fizemos também vários acabamentos distintos. Tudo manualmente, de forma artesanal, tentando dar mais potência aos originais escritos pelo Menten.

Enquanto objeto livro, "Visiopoemas" foi criado a partir de materiais pouco usuais. O que vocês tinham em mente?
A criação gráfica foi uma forma de potencializar os escritos visuais de Paulo Menten. Usamos um monte de recursos um pouco estranhos para produzir a coisa: glitter, insulfilm espelhado, uma serra tico-tico, etc. Realmente, não tínhamos a intenção de fazer um projeto gráfico neutro, que não interferisse nos originais. Pelo contrário: todas as nossas escolhas gráficas dialogam com os poemas. Algumas reforçam suas formas e sentidos, outras inclusive adicionam camadas novas de interpretação. É uma forma meio agressiva de editar que, na realidade, é quase uma recriação.

Que relação você estabelece entre o Paulo Menten gravurista e o Paulo Menten poeta?
Ele foi um criador bastante prolífico, fez muitos desenhos, pinturas, gravuras, e também escreveu muito durante toda a vida. Parte de sua produção em poesia tem um tom confessional, bem subjetivo, simbólico, e que em alguns momentos chega até a flertar com o surrealismo. Mas ele também tem muitos poemas com uma pegada mais visual. Ele criava alguns poemas curtos, com poucas palavras, que interagiam com seus desenhos. Uma coisa meio parecida com o que alguns caras da primeira geração de modernistas fizeram. Boa parte da poesia inédita do Menten está impregnada de um pensamento visual, assim como os "Visiopoemas". A gente sabe, também, que o concretismo foi um movimento que evidenciou justamente a visualidade da poesia, sua condição tipográfica, espacial. Na primeira Exposição Nacional de Arte Concreta, que aconteceu em 1957 em São Paulo, poemas de Décio Pignatari, dos irmãos Campos, de Ferreira Gullar, etc., foram expostos ao lado de pinturas de Volpi e de Alexandre Wollner, das gravuras da Lygia Pape e muitos outros. Enfim, havia um entendimento que aproximava a poesia das artes visuais. E o Paulo Menten viu isso de perto, em primeira mão, e com certeza isso foi importante para sua produção. Aliás, Menten era próximo de Volpi, no sentido de que suas obras têm semelhanças, mas também no sentido pessoal mesmo. Eles eram amigos, e o Volpi era um dos artistas visuais mais celebrados pelos poetas concretos naquele momento.

Serviço:
"Visiopoemas"
Autor Paulo Menten
Editora Grafatório Edições
Quanto R$ 50
O livro pode ser adquirido através do site www.grafatorio.com
Lançamento: sexta-feira (4), a partir das 19h, no Grafatório (Av. Paul Harris, 1575)


