Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A extinção da privacidade
| Foto: Fotos: Divulgação
Jonathan Franzen toca em pontos críticos, como a revolução digital
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Jovens geralmente fazem coisas que velhos não fazem. Velhos geralmente fazem coisas que jovens não fazem. O idealismo parece algo próprio do coração da juventude, sua força começa a sofrer colapsos nos corações idosos. O idealismo começa a perder potência quando a gordura do coração passa a fazer mais sentido do que o tutano das ideias.
Em seu novo romance, "Pureza", o escritor norte-americano Jonathan Franzen revela como o idealismo possui uma data de validade. E desenha todo o processo em que esse idealismo começa a degringolar com o passar dos anos e das décadas.
A obra narra a história de dois jovens idealistas, o casal Tom e Anabel, que vivem em conflito eterno. Ele é um jornalista investigativo que aceita uma pomposa grana do sogro para fundar uma rede de jornalistas dispostos a expor a verdade oculta dos Estados Unidos. Ela é uma artista que se recusa a aceitar a riqueza do pai por considerar que tal fortuna representa dinheiro sujo, acumulado de maneira injusta e desonesta.
Como água e óleo, Tom e Anabel se separam e seguem caminhos distintos. Ela se isola numa cabana no meio do nada para criar a filha longe dos pecados do mundo, completamente escondida e sem dinheiro. Tom cria uma rentável rede de jornalistas investigativos para expor os segredos que a imprensa esconde.
No meio de tudo está Purity, a filha dos dois que não sabe da existência do pai, nem do avô milionário. Uma jovem que não tem todo idealismo radical dos pais, apenas segue uma vida pautada pela sinceridade. Seu grande ideal é pagar as contas básicas do cotidiano e encontrar o pai que não conhece. Para isso, começa a trabalhar como estagiária numa organização que se dedica a caçar informações restritas da internet.
O grande cabeça e guru dessa organização, um tipo de Wikileaks, é um ativista alemão chamado Andreas que possui uma base instalada na Colômbia. O sujeito arregimenta jovens hackers do mundo inteiro para encontrar informações restritas na internet e divulgá-las livremente para todos.
Em sua literatura, Jonathan Franzen trabalha com o conceito de "romance completo", uma narrativa que abarca tudo o que for possível. Não é sem motivo que seus livros são todos extensos e quilométricos como "As Correções", "Liberdade" e "Tremor", todos lançados no Brasil pela Companhia das Letras. Seus romances partem de tema central para traçar dezenas de outros temas transversais que dialogam entre si em busca de uma maior abrangência.
Nascido em 1959, Franzen é um dos autores mais cultuados em seu país na atualidade, tanto pela crítica especializada quanto pelos leitores em geral. Ferrenho defensor da literatura realista, faz questão de afirmar que escreve sobre como o mundo é, não sobre como o mundo deveria ser.
"Pureza" segue esse caminho, um retrato do agora com temas transversais e paralelos. Traça um painel da sociedade americana contemporânea e sua relação com a internet. Toca em vários pontos críticos. Um deles é aquele que propaga que a revolução digital foi (e ainda é) vendida como a grande salvação do mundo.
E vai além. Sugere que a vigilância exercida sobre as pessoas por parte dos regimes totalitários é semelhante àquela exercida, de maneira invisível, pelos gerenciadores de informação como o Google e o Facebook. As pessoas estariam abrindo mão da própria privacidade por uma conveniência de consumo de informação e expectativa de comunicação.
"Pureza" também é um romance sobre segredos, algo que as novas redes sociais estão colocando em extinção. Em nome da propagação de uma suposta verdade, tudo deve ser exposto, revelado, escancarado. A ironia do romance de Franzen está em colocar os personagens que possuem como idealismo a propagação de todo tipo de informação, a grande exposição da verdade, realizando um trabalho paralelo para sumir com as informações que os compromete. Nada mais do que a grande maluquice do mundo contemporâneo: a imagem da verdade interessa muito mais do que a própria verdade.
Em sua leitura, "Pureza" pode despertar momentos enfadonhos ao lado de momentos reveladores. Exige um pouco de paciência do leitor. Em nome do conceito de "romance completo", Jonathan Franzen estende a narrativa mais do que o próprio conteúdo aponta como necessário. Sua escolha é clara: utilizar as ferramentas das narrativas do século 19 para desenhar um retrato do século 21.

Serviço:
"Pureza"
Autor – Jonathan Franzen
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Jorio Dauster
Páginas – 616
Quanto – R$ 69,90 e R$ 41,90 (e-book)

Há o imperativo de manter segredos e o imperativo de divulgá-los. Como a pessoa sabe que é diferente das outras? Por manter algumas coisas só para si. Elas ficam guardadas dentro da gente porque, se não for assim, não há distinção entre interior e exterior. Os segredos são um modo de você saber até mesmo que possui um interior. Um exibicionista radical é alguém que abriu mão de sua identidade. Mas a identidade no vazio também não faz sentido. Cedo ou tarde, o que está dentro da gente precisa de uma testemunha. De outra forma, não passamos de uma vaca, de um gato, de uma pedra, de uma coisa qualquer no mundo, de algo indistinto. Para ter uma identidade, a gente precisa acreditar que existem igualmente outras identidades. Precisa está próximo de outras pessoas. E como se constrói essa proximidade? Compartilhando segredos. (Fragmento de "Pureza", de Jonathan Franzen)
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