LEITURA - A explosão do verbo
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de dezembro de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
''Todo Estado constituído é corrupto.'' Esta frase cunhada por Ralph Waldo Emerson cabe feito uma luva como epígrafe de ''Leviatã'', romance de Paul Auster relançado pela Editora Companhia das Letras. Obra mais nervosa do escritor norte-americano, faz dos escuros corredores da política psicológica um exercício existencial.
''Leviatã'' narra a história de Sachs, um promissor escritor que exerce com afinco sua profissão até o dia em que o acaso explode sua vida. A partir do impacto, percebe que fazer da vida uma história é mais intenso do que criar histórias da vida. Essa percepção o leva a trocar as palavras pela ação. Passa a viver como um personagem que escolheu para si mesmo.
Após uma inesperada queda do terceiro andar de um edifício, após cometer inesperadamente um crime, Sachs torna-se um terrorista excêntrico. Sua missão passa a ser explodir réplicas da Estátua da Liberdade espalhadas pelos Estados Unidos. Se o original da escultura se transformou num fetiche falacioso, as réplicas representam o fetiche do fetiche, a falácia da falácia, e merecem ser eliminadas.
O termo ''leviatã'', segundo a tradição bíblica, remete ao monstro que apavorava os mares do planeta. O filósofo Thomas Hobbes utilizou o termo para simbolizar o Estado opressor. Levitã é justamente o título do livro que Sachs escrevia quando o acaso lhe puxa o tapete, colocando em suas mãos um palito de fósforo e uma bomba numa noite escura. A superfície onde Sachs risca o fósforo torna-se um mistério, um labirinto.
Peter, personagem incorporado por Paul Auster no romance, é um velho e fiel amigo de Sachs, embora esteja de olho em sua mulher. Ele procura escrever um livro contando a real história de Sachs. O título da obra ''Leviatã'', nada mais é do que o livro criado por Paul Auster.
Em ''Leviatã'', Auster coloca na bandeja o acaso, a coincidência, o inesperado, servindo ao leitor o prato de um escritor num beco sem saída. Um testemunho quase autobiográfico levando em conta o questionamento de seu próprio trabalho como escritor: ''Estou sempre em guerra com aquilo que faço. É certamente um jeito estúpido de viver, fazendo coisa que ninguém precisa ou deseja - o mundo pode muito bem passar sem os livros que escrevo''.
Quando Sachs abandona a literatura para se tornar um terrorista solitário, tem consciência que ao explodir réplicas da Estátua da Liberdade, o símbolo máximo dos Estados Unidos, deixando no local mensagens em bilhetes, está dizendo muito mais do que poderia dizer num romance. Ou melhor, aquilo que tem a dizer chega ao público com maior impacto com um atentado do que com um livro.
Ao narrar a história de Sachs, Paul Auster está contando justamente a história de seu questionamento pessoal diante da escrita, do fazer literário. A impossibilidade da arte, da escritura, é um fantasma que coloca insônia em seus travesseiros. É como se substituísse todas as noites de seu travesseiro por tijolos.
Fragmento de Leviatã, de Paul Auster
Todo homem é livre para escolher sua aparência, mas no caso de Sachs achei que representava um gesto particularmente violento e agressivo, quase uma forma de auto-mutilação. O lado esquerdo do rosto e do crânio ficaram muito feridos em virtude da queda, e os médicos costuraram vários trechos ao redor da têmpora e da mandíbula. De barba e cabelos compridos, as cicatrizes desses ferimentos se mantinham ocultas. Uma vez que o cabelo se fora, as cicatrizes se tornaram visíveis, os afundamentos e os talhos se apresentavam nus, para que todos os vissem. A menos que eu o tenha entendido muito erradamente, creio ter sido por isso que ele mudou sua aparência. Queria expor suas feridas, anunciar ao mundo que essas cicatrizes eram aquilo que o definiam agora, que poder olhar para si mesmo no espelho toda manhã e lembrar o que lhe havia acontecido. As cicatrizes eram um amuleto contra o esquecimento, um sinal de que nada jamais seria perdido.
SERVIÇO:
-''Leviatã'' de Paul Auster, Editora Companhia das Letras tradução de Rubens Figueiredo, 320 páginas, R$ 36,00.


