Em uma teoria polêmica, o autor inglês defende que os humanos não começaram a desenvolver a agricultura para conseguir alimento, mas para tomar um trago
Em uma teoria polêmica, o autor inglês defende que os humanos não começaram a desenvolver a agricultura para conseguir alimento, mas para tomar um trago | Foto: Fotos: Reprodução



Quando o sujeito sai cansado do trabalho no final do dia, geralmente pensa em algo para aliviar a tensão. Pensa em tomar alguma coisa. Pensa em chegar em casa, sentar no sofá e abrir uma cerveja. Pensa em entrar no boteco mais próximo e tomar uma dose.

Tudo indica que esse pensamento está presente na cabeça dos homens há milhares de anos. Beber algo de teor alcoólico parece fazer parte da história da humanidade desde seus primórdios. Onde quer que os humanos tenham vivido, nas mais variadas culturas, épocas ou lugares, eles se juntavam para beber. O mundo na sobriedade nunca foi o bastante.

O longo caminho etílico da humanidade possui uma vasta história, peculiar e controvertida. Essa narrativa é apresentada em "Uma Breve História da Bebedeira", livro do inglês Mark Forsyth que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras. O objetivo do autor não está em apresentar uma biografia da bebida alcoólica, mas apresentar a relação que os homens tiveram com o álcool ao longo do tempo nas mais variadas culturas.

Logo nas primeiras páginas, Mark Forsyth apresenta uma teoria polêmica para representar o apreço do homem pela bebida desde a Idade da Pedra: os homens bebiam cerveja antes de inventarem a agricultura e bem antes de construírem os primeiros templos religiosos. Em outras palavras, os humanos não começaram a desenvolver a agricultura para conseguir alimento, mas para tomar um trago. O primeiro cultivo de cereais teria sido inicialmente destinado à produção de bebidas fermentadas.

Para exemplificar essa teoria, apresenta seis argumentos. Começa com o fato de a cerveja ser mais fácil de ser produzida do que o pão, que necessita necessariamente de fogo. E termina com argumento de que toda mudança de comportamento precisa de um impulso cultural. Para tomar uma, o caçador primitivo nômade precisava se fixar num único lugar e plantar. Para se alimentar ele poderia continuar andando de um lugar para outro atrás de comida. Como resultado, em nome da embriaguez, nasceu a civilização.

O humor é um dos ingredientes de "Uma Breve História da Bebedeira". Algumas leituras realizadas pelo autor, seja de fatos ou acontecimento, podem ser desprovidas de referências, mas são carregadas de um tipo de humor que o álcool pode proporcionar. Tiradas humoradas estão espalhadas por todo o livro. Um exemplo: "O vinho não gosta de líderes, a embriaguez tende à democracia."

A partir da pré-história da bebida, a narrativa percorre os bares da Suméria e as bebedeiras antigas do Egito, da Grécia e da China. Em seguida percorre a Roma antiga, os povos do Oriente Médio, os vikings, os mosteiros medievais, os astecas e os nativos da Austrália. Termina com papel da vodca na Revolução Russa e a Lei Seca nos Estados Unidos.

Mark Forsyth faz questão de demonstrar que a embriaguez é humanamente universal: "Quase toda cultura no mundo tem bebida alcoólica. Os poucos que não se animavam muito – como os povos da América do Norte e da Austrália – foram colonizados por outros bem entusiasmados. Em cada lugar e em cada época, a embriaguez é algo diferente. Uma celebração, um ritual, uma desculpa para bater nos outros, um modo de tomar decisões ou ratificar contratos e milhares de outras práticas peculiares. Quando os antigos persas tinham de tomar uma decisão política importante, debatiam o tema duas vezes: uma bêbados e outra sóbrios. Se chegassem à mesma conclusão em ambas, agiam".

Algumas culturas e religiões consideram que o sujeito deve encher a cara aqui na Terra, em vida. Outras consideram que o sujeito deve esperar para encher a cara no Céu, após a morte. Os islâmicos não podem beber em vida, mas quando chegarem ao Paraíso podem mergulhar em rios de vinho. Os vikings devem, aqui em carne e osso, beber todas as horas do dia em nome de Odin. Quando partirem para o outro mundo, não será possível beber nem um único gole de cerveja.

Do ponto de vista antropológico, os pesquisadores que estudam a embriaguez fazem distinção entre o que nomeiam de "culturas antiproibicionistas" e "culturas proibicionistas".

No primeiro caso, antiproibicionista, o consumo do álcool é tratado com tranquilidade. As pessoas bebem e se divertem, não despencam no chão nem trançam as pernas. No segundo caso, proibicionistas, o consumo do álcool é tratado com intranquilidade, há cautela e uma série de regas para o consumo. Mas, quando o consumo é permitido em ocasiões especiais, as pessoas enchem a cara, trançam as pernas e despencam no chão. Em outras palavras, beber é demasiadamente humano.

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A eterna ressaca eterna



Serviço:
"Uma Breve História da Bebedeira"
Autor – Mark Forsyth
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Lígia Azevedo
Páginas – 216
Quanto – 49,90

[left]Fragmento:

A embriaguez é uma junção de contradições porque diz sim a tudo. Às vezes é a instigadora da violência e às vezes a instigadora da paz. Ela nos faz cantar e dormir. Para os gregos, era um teste de autocontrole; para os nórdicos, a fonte de toda a poesia, tanto boa como ruim. É a alegria dos reis e sua queda. O consolo dos pobres a causa de sua pobreza. Para os governos, é causadora de tumultos e uma fonte de dinheiro. É uma prova de virilidade e um removedor de virilidade, um meio de seduzir e uma matrona feliz. A embriaguez é uma praga e uma assassina, um presente dos deuses. É a necessidade do monge e o sangue do messias. É uma maneira de ter uma experiência e é um deus.

Por isso sempre vai estar por aí. Recentemente a Nasa publicou um relatório interno admitindo que em pelo menos dois lançamentos de ônibus espaciais os astronautas estavam completamente bêbados. Não é de surpreender. As pessoas têm trabalhado bêbadas há milênios; e, para ser sincero, se eu estivesse prestes a ser lançado a uma velocidade inúmeras vezes maior que a do som para o vazio infinito, gostaria de tomar umazinha antes.

(Fragmento de "Uma Breve História da Bebedeira", de Mark Forsyth)[/left]

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