O ciúme é uma paixão.
Não é um sentimento que nasce a partir da paixão. O ciúme é uma paixão em si.
Os homens podem se apaixonar pelo ciúme, pela sensação que ele é capaz de gerar. Quase uma droga. Quase um vício. Algo banhado por uma adrenalina incontrolável e irresistível.
O ciúme seduz.
A literatura é vasta nesta sedução. "A Origem do Mundo", romance do escritor chileno Jorge Edwards que a editora Cosac Naify acaba de lançar, mergulha nessa paixão com propriedade e particularidades.
A obra narra a história de Patricio e Silvia, um casal chileno ex-militantes de esquerda que residem exilados em Paris. Ele, médico, tem setenta e poucos anos. Ela, vinte anos mais nova. Casados há mais de três décadas, formam um par exemplar.
Tudo começa ficar nebuloso quando o casal, durante uma visita a um museu, se depara com o célebre quadro de Gustave Courbet (1819 – 1877) intitulado "A Origem do Mundo" - onde o pintor francês retrata um lânguido órgão sexual feminino. Ao reparar na obra, Patricio começa a pensar, em tom de brincadeira, que o corpo da modelo do quadro é o mesmo da esposa.
Alguns dias depois, Felipe, o melhor amigo de Patrício, comete suicídio. Revirando as gavetas do amigo após o sepultamento, encontra uma fotografia que reproduz o quadro de Courbet. E o corpo da modelo igualmente se parece com o de Silvia. Então a paranoia abre suas garras.
Num ataque de ciúmes, o sujeito começa a acreditar que a esposa foi amante de seu melhor amigo. Perturbado com a ideia, dá inicio a uma desenfreada investigação para saber se a mulher realmente o traiu ou não. Como um maluco delirante, indaga conhecidos e desconhecidos procurando saber se alguém sabe algo sobre o assunto. Sempre recebendo respostas negativas. E quanto mais ouve que tal coisa nunca existiu mais acredita que realmente existiu. O fantasma da traição e o deus do ciúme tornam-se oxigênio vital do sujeito.
Qualquer semelhança de "A Origem do Mundo", escrito em 1996, com o romance "Dom Casmurro" de Machado de Assis (1839 – 1908) não se trata de mera coincidência. Patricio e Silvia podem ser considerados uma releitura de Bentinho e Capitu, personagens criados pelo escritor brasileiro. Fã declarado, Jorge Edwards já afirmou centenas de vezes que considera Machado de Assis "o maior escritor latino-americano".
Jorge Edwards nasceu em Santiago do Chile em 1931. Formado em direito, seguiu a carreira diplomática e arrumou confusão quando foi embaixador em Cuba nomeado por Salvador Allende em 1973. Chegou a ser expulso do país por Fidel Castro pelas críticas que fazia ao sistema político cubano. Exilado político na Europa após o golpe militar de Augusto Pinochet, retomou a carreira diplomática em 1990 com a instalação do regime democrático no Chile. Autor de 23 livros e agraciado com o prêmio Cervantes, aos 82 anos de idade ainda atua como embaixador do Chile em Paris.
Sua proximidade com a literatura brasileira não se restringe a sua admiração pela obra de Machado de Assis. Amigo íntimo de Rubem Braga, passou boas temporadas na cidade do Rio de Janeiro durante a década de 60. Traduziu para o espanhol obras não só de Rubem Braga, mas também de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, Paulo Mendes Campos e Murilo Mendes.
Mas não apenas de ciúmes e traição é constituído "A Origem do Mundo". Assim como Patrício e Silvia são exilados políticos chilenos vivendo na Europa, a maioria dos outros personagens do romance também são. A grande maioria intelectuais ex-comunistas desiludidos com os caminhos políticos da Rússia e de Cuba e comovidos com a sintomática queda do muro de Berlim. Todos vivendo sob a sombra do fracasso de uma utopia, com um buraco na existência por terem apostados todas as fichas numa sociedade sem a individualidade da intimidade. Esse é o pano de fundo narrativo desenhado pelo autor.
"A Origem do Mundo" é narrado por Patricio com um tom entre o trágico e o cômico. A grande revelação acontece no último capítulo, o único narrado por Silvia. A esposa, diante da ideia fixa do marido de sua traição, resolvem entrar no jogo. Cria uma confidência ficcional para que o marido supere a tempestade. Ela percebe que ele precisa de algum elemento novo para resgatar um sentimento que a velhice não oferece mais - o tesão das fortes sensações. A fragilidade masculina é escancarada próxima do ridículo.
Jorge Edwards realiza uma leitura contemporânea de Bentinho e Capitu na pele de Patricio e Silvia. Uma nova leitura não apenas do ciúme enquanto paixão, mas também do beco sem saída da velhice. Um tempo corporal onde a potência do desejo deixa de ser física para se tornar mental, quase memorialística. Um estado onde a potência torna-se possível apenas através da ficção pessoal. Se o ciúme é uma paixão, a potência é o fracasso de uma paixão.

Serviço:
"A Origem do Mundo"
Autor – Jorge Edwards
Editora – Cosac Naify
Tradução – José Rubens Siqueira
Páginas – 160
Quanto – R$ 29,90

Tudo começou na segunda ou terça-feira da semana passada, na frente do quadro. Começou como uma ocorrência repentina, como uma pergunta. Não passou de uma brincadeira, mas depois da última segunda-feira, depois de encontrarem o cadáver, essa brincadeira, da qual não tinha me esquecido, veio a adquirir matizes mais inquietantes, menos leves. Matizes mais escuros, digamos assim. - Sabe de uma coisa? – perguntei a Silvia em voz baixa, depois de ter olhado o quadro de Courbet por alguns minutos. - O quê? - Parece muito com você. Você está louco! – Silvia exclamou, ruborizada como uma colegial, mais irritada do que eu poderia ter previsto, e olhou para os lados, porque sempre, e sobretudo nessa época do ano, em pleno verão, havia turistas espanhóis. - Mas é a mesma barriguinha – expliquei, envergonhado, rindo, apesar de tudo, e pensando que os espanhóis não entendiam o chilenismo – a as mesmas coxas grossas, bem torneadas e até os mesmos pelos, a mesma... - Velho sem-vergonha! – Silvia exclamou, ainda irritada. – Fique quieto! – E empreendeu a retirada pelo centro da sala, rumo à porta de saída. (Fragmento de "A Origem do Mundo" de Jorge Edwards)
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