LEITURA - A estrada da montanha
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de fevereiro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Uma pequena mochila. Um mapa dobrado no bolso. Poucas roupas, pouca grana e muito entusiasmo. A energia de uma idéia e a vontade do tamanho de um caminhão montanha abaixo. A disposição de viver cada situação em total deslumbramento.
Essa pode ser a descrição da bagagem que a literatura de Jack Kerouac (1922 - 1969) carrega nas costas. Toda sua despojada beleza pode ser encontrada em ''Os Vagabundos Iluminados'', romance do escritor norte-americano lançado pela Editora L&PM. Trata-se da obra mais simpática e otimista de Kerouac.
É um livro em que Kerouac deixa de lado seus princípios cristãos para mergulhar nos princípios budistas. É uma declaração de amor aos chamados ''zen-lunáticos'' pessoas que buscam algum sentido maior na vida e levam uma existência desencanada longe dos padrões sociais. São tanto andarilhos anônimos que cortam os Estados Unidos pedindo carona, como pessoas cultas e bem informadas que vivem com o mínimo de dinheiro possível priorizando o tempo disponível para viver de maneira plena, longe dos apelos canibais da sociedade de consumo.
Um dos pilares da ''literatura beat'' desencadeada na década de 50, Jack Kerouac introduziu em seus livros a sonoridades e ritmos da fala coloquial. Totalmente oralizada, seus escritos trazem uma fluidez alternada pelos momentos narrados. Numa época em que Ernest Hemingway (1898 - 1961) era cultuado por ter banido o uso de adjetivos na prosa, Kerouac fez justamente o contrário. Em seus textos a adjetivação tornou-se uma espécie de norma usada e abusada.
O romance é narrado por um aspirante a escritor chamado Ray Smith. Trata-se de um jovem que deseja se jogar de cabeça na plenitude da vida e encontra outro jovem, Japhy Rider, que coloca esse desejo em prática. A amizade entre os dois torna-se um aprendizado contagiante que envolve o estudo da literatura chinesa, escalada de montanhas, festas malucas, viagens de carona e muito mais.
Como em ''On The Road'', obra mais conhecida de Kerouac, ''Os Vagabundos Iluminados'' (The Dharma Bums) é carregado de elementos autobiográficos. Ray Smith, por exemplo, representa o próprio Jack. Japhy Rider representa o poeta Gary Snyder, seu grande amigo. Inclusive a experiência que teve trabalhando como guarda-florestal, é ápice da história.
Desde as primeiras páginas do romance, o protagonista Ray Smith deixa claro que deseja passar um tempo sozinho no alto de uma montanha, tendo como companhia apenas a natureza. Isolado, espera entrar fundo em si mesmo, enxergar a essência da vida e, se possível, conversar com Deus. Quando finalmente consegue concretizar tal desejo, a narrativa atinge o silêncio e não se trata do ''silêncio zen''. Deixa transparecer que permanecer sozinho numa montanha durante meses pode ser uma tremenda chatice. O grande prazer estaria na busca da satisfação do desejo. Depois de satisfeito, perderia totalmente o sentido.
Na realidade, quando Kerouac permaneceu dois meses sozinho numa montanha trabalhando como guarda-florestal de combate a incêndios ele ''não deu de cara com Deus, Deus foi de cara consigo mesmo e não gostou do que viu''. Em outras palavras, o silêncio faz com que a simpatia de ''Os Vagabundos Iluminados'' não se perca e amargue a história.
Esse dado é revelado em ''Jack Kerouac - O Rei dos Beatniks'' uma pequena biografia escrita por Antonio Bivar lançado semanas atrás pela Editora Brasiliense. O volume marca o ressurreição da coleção Encanto Radical, que fez sucesso entre os jovens na década 80. A obra oferece, de maneira sucinta, um painel da vida e obra do escritor de maneira simples e direta.
Vale lembrar que uma reedição de ''On The Road - Pé Na Estrada'' foi lançada no ano passado com a tradução revisada. Se colocado ao lado de ''Os Vagabundos Iluminados'', é possível dizer que o primeiro realiza uma viagem externa, o segundo uma viagem interna. E não importa muito o lugar onde chegam. A viagem é o sentido.
''Certa tarde eu estava apenas olhando para os galhos mais altos daquelas árvores imensamente altas quando comecei a reparar que os galhinhos mais altos e suas folhas eram dançarinos líricos felizes, contentes por está lá em cima, e que toda aquela experiência estrondosa da árvore inteira se balançando embaixo deles fazia com que cada passo, cada movimento, fosse uma dança necessária e gigantesca e comunal e misteriosa, de modo que só ficavam lá em cima no vazio, dançando o significado da árvore. Percebi como as árvores quase pareciam humanas pela maneira como se curvavam e então se erguiam e então balançavam de um lado para o outro. Era uma visão maluca na minha mente, porém linda.''
(Fragmento de ''Os Vagabundos Iluminados'' de Jack Kerouac)
* Serviço:
- Os Vagabundos Iluminados, de Jack Kerouac, Editora L&PM, tradução de Ana Ban, 256 páginas, R$ 17,00.
- On The Road, de Jack Kerouac, Editora L&PM, tradução, introdução e posfácio de Eduardo Bueno, 384 páginas, R$ 19,50.
- Jack Kerouac - O Rei dos Beatniks, de Antonio Bivar, Editora Brasiliense, coleção Encanto Radical, 124 páginas, R$ 17,00.


