Quando o sujeito se torna uma personalidade famosa, com aquele tipo de frondosa importância, vira estátua de praça. O eterno bronze da fama. Não interessa muito o que o sujeito fez em prol da humanidade, o que interessa é parecer ter feito alguma coisa. Pode ser criar leis inúteis, fundar partidos repartidos, salvar antas da obesidade, desencravar unhas de mico-leão-dourado, fundar ou afundar bancos, invadir ou implodir países, revolucionar a arte ou simplesmente criar farsas contagiantes. E as estátuas ficam lá, paradas ao longo dos anos, décadas e séculos. Resistindo a tudo, fatos ou interferes. Tudo, menos as fezes das pombas. Em seu novo romance, "Te Vendo um Cachorro", o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos veste a fantasia de uma pomba para colocar merda em todas estátuas espalhadas pelas praças de um país.
Lançada pela editora Companhia das Letras, a obra encerra a trilogia idealizada pelo autor sobre o México, iniciada com os volumes "Festa no Covil" (2012) e "Se Vivêssemos em um Lugar Normal" (2013). "Te Vendo um Cachorro" se revela o volume mais sarcástico da trilogia. Juan Pablo Villalobos segue seu estilo tragicômico carregado de ironias, mas com um pouco mais de ferocidade.
O personagem principal, e também narrador, é Teo, um velhinho de 78 anos que acaba de se mudar para um edifício decadente habitado apenas por solitários aposentados de idade avançada. Os habitantes do lugar passam os dias convencidos de que a velhice, e a aposentadoria, é um segundo jardim de infância. Uma oportunidade para voltar a não se preocupar com os embates da existência, um retorno às brincadeiras inconsequentes.
Os velhinhos passam os dias em duas atividades básica: discutir literatura num clube de leitura e esculpir bichinhos em massa de miolo de pão. Quando Teo muda para o prédio, todos os moradores acham que ele é um escritor em processo de criar um romance. E Teo faz de tudo para convencê-los do contrário, afinal trabalhou a vida toda numa barraquinha de tacos.
Dotado de um humor escuro, uma ironia ferina e um sarcasmo cascudo, Teo alfineta a história, a política, as artes e a memória do México sem pudores. Tentando equilibrar a quantidade de cerveja que bebe todos os dias sem desfalcar os rendimentos de sua aposentadoria, passa os dias matando as baratas que infestam seu apartamento. Para isso, vale tudo, de porradas utilizando os volumes reunidos de "Em Busca do Tempo Perdido" de Marcel Proust) à pancadas de Bíblia capa dura.
"Te Vendo um Cachorro" é aquele tipo de romance onde acontece tanta coisa, que o foco narrativo se revela multifocal, ou em alguns casos, desfocado. As ramificações se propagam e se propagam em situações e mais situações periféricas e hilárias que mascaram o foco principal. Um foco revelado apenas nas últimas páginas.
Cachorro, aquele animal vira-lata repleto de pulgas e personalidade própria, é o elemento que percorre toda a narrativa. Começa com um cachorro denunciando a infidelidade de um pai de família (o cão morre ao engolir a meia da amante do marido), se estende pelo comércio de carne de cachorro para o recheio de tacos em barraquinhas ambulantes, e chega ao sequestro de um cão de uma família burguesa.
O tom tragicômico do romance passeia pela memória e pela morte. Mas leva junto a história, o sexo, a política, as artes e as transformações culturais. O destaque recai sobre o campo das artes. A grande discussão, completamente irônica, está no processo de como a obra de alguns artistas é preterida em relação à obra de outros. O que leva um artista ser considerado gênio e outro amargar a sarjeta do fracasso sendo que ambos possuem uma mesma qualidade? Isso sem levar em conta a manipulação dos preceitos estéticos.
Juan Pablo Villalobos nasceu 1973, na cidade do México. Residiu no Brasil, na cidade de Campinas, por cinco anos e atualmente vive em Barcelona, Espanha. Em "Te Vendo um Cachorro" instaura uma divertida provocação: a teoria da arte e a teoria da estética, juntas, são capazes de coisas inacreditáveis. Algo como afugentar ligações de mocinhas de telemarketing, afugentar baratas de casa, espantar fanáticos religiosos, expulsar pulgas de vira-latas e muito mais. E, quem sabe, acalentar as pobres pombas que seguem o eterno destino de cagar nas estátuas de bronze.

Serviço:
"Te Vendo um Cachorro"
Autor – Juan Pablo Villalobos
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Sérgio Molina
Páginas – 246
Quanto – R$ 44,90

O açougueiro fez um corte do queixo até a barriga. O sangue escorreu pelo jornal sobre uma foto do presidente Ávila Camacho, com as mãos para o alto, como se estivesse sendo assaltado, mas na verdade devia estar sendo ovacionado. Minha mãe se agachou para esquadrinhar as vísceras do cachorro, como uma pitonisa etrusca sondando o futuro, e ela viu, literalmente, porque o futuro sempre é uma consequência fatídica do passado: uma meia de náilon, eterna, tinha se enroscado ao longo do intestino do cachorro. Era como a frase de Schonberg mas ao contrário, o que acabava tendo o mesmo sentido: minha mãe tinha encontrado sua explicação. Meu pai se defendeu dizendo que o cachorro tinha fuçado o lixo da Alameda. A casa dos meus pais ficava num cortiço do centro. - Essa eu não engulo - disse minha mãe. Eu dei risada e meu pai me deu um bofetão. Minha irmã deu risada e minha mãe lhe deu um beliscão. Nós dois abrimos o berreiro. Na hora do jantar, meu pai não aguentou mais: sem pretexto para sair, simplesmente foi embora e nunca mais voltou. O açougueiro levou o cadáver e prometeu dar-lhe sepultura. Minha irmã o seguiu e depois me disse que o viu negociar com o taqueiro da esquina. Também disse que eu não contasse para a mamãe, porque ela era muito apegada ao cachorro. Era a isso que ela se dedicava na vida, a se apegar aos cachorros. No dia seguinte minha mãe não preparou o jantar, de tão triste que estava. Tentando disfarçar, nos levou para comer tacos. Disse que era o início de uma nova vida. Minha irmã disse que, nesse caso, preferia pozole. Eu, enchiladas. Não conseguimos convencê-la a mudar o cardápio, os tacos eram mais baratos. Quando o taqueiro nos viu chegar à sua banca, balançou a cabeça como se fôssemos uns pervertidos. (Fragmento de "Te Vendo um Cachorro", de Juan Pablo Villalobos)
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