Amor é um dos sentimentos mais complexos que ocupam o coração dos homens. Não tanto pela essência, que a princípio é límpida em simplicidade, mas pelos elementos que se agregam a ele como nebulosos fantasmas.
Entre os fantasmas, o ciúme é um dos mais escuros. Dissimulado, converte o amor em ódio da mesma maneira que um pássaro converte palha em ninho de serpente. Um fantasma que se esconde em fendas ocultas bordando tecidos nunca definidos, mas sempre torturantes.
Ciúme é componente básico em qualquer história de amor. A literatura está repleta desse sentimento que nunca se esgota. A fenda até pode ser a mesma, independente dos séculos, mas seus contornos são semelhantes às estações do ano.
Ciúme é o tema central do novo romance de Patrícia Melo, ''Valsa Negra'', lançado pela Companhia das Letras. Seguindo caminho inverso a seu romance anterior, ''Inferno'' (2000), ambientado na cultura e violência dos morros, a escritora paulista desloca sua atenção aos ricos e a cultura erudita.
''Valsa Negra'' traz a história de um conturbado relacionamento amoroso entre um prestigiado maestro e uma jovem violinista. O narrador é o próprio maestro, que apresenta toda sua sombria paranóia a partir da suspeita de traição da amada. Fatos, acontecimento e pensamento vão se acumulando em sua mente a ponto de perder a noção do real e do bom senso.
''Valsa Negra'' é um romance que descreve como o amor se transforma em ódio pelas mãos do ciúme, e como esse processo dizima tudo que encontra à sua volta, tudo que encontra pela frente. Com as obsessões amorosas, bem como as doenças do amor, tumultuando a água que abastece a cidade com fúria, delírio e sangue.
Patrícia Melo não entra em detalhes sobre como o amor se desenvolve pela sua própria natureza, de maneira obsessiva. Se atém apenas na percepção do narrador diante da possibilidade de ser traído. E a partir dessa possibilidade ergue um enorme edifício onde cada andar representa o ninho de um monstro a ser domesticado. Quando esses monstros passam a não caber mais em seus andares, berrando pelas janelas, a possibilidade de domesticação se extingue colocando os ideais de controle no lixo. A consequência, como todos sabem, é fatal. O prédio desaba fazendo um estrago em tudo que se encontra por perto.
Os caminhos percorridos e descritos pelo personagem-narrador de ''Valsa Negra'' assemelham-se a um suspense do processo de expansão da neurose do amor. Em outras palavras, tanto pode ser uma fonte de prazer e felicidade como uma poderosa usina de doenças e delírios destrutivos. Com cada um procurando se atar ao que deseja e se desfazer daquilo que não mais deseja.
É bom assinalar que em ''Valsa Negra'' nem tudo é sentimento em estado de terremoto. Patrícia Melo também faz uso de dois elementos externos para construir a história do romance, ambos com insistência. Um deles é o elemento da música erudita e o mundo que a circunda. Outro seria o judaísmo e suas implicações em contado com outras culturas. Uma estrutura escolhida pela autora para dar suporte real a sentimentos desprovidos de total realidade, a conversão do amor em doença.

Serviço:
- ''Valsa Negra'' de Patrícia Melo, Editora Companhia das Letras, 242 páginas, R$ 34,00.

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