LEITURA - A escravidão da beleza
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de janeiro de 2012
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Há um tipo de frustração que derruba um homem aos poucos. Primeiro machuca seu pé. Depois abala seu joelho. Por fim, quebra suas duas pernas.
Aquele tipo de frustração que surge quando tudo parece ajustado, devidamente encaixado e tranquilo. Justamente naquele ponto onde a juventude ficou para trás e a velhice aponta sua cabeça no horizonte.
Em ''Ao Anoitecer'', o escritor norte-americano Michael Cunningham coloca o dedo nessa ferida, a frustração da meia-idade. Lançado no final do ano pela editora Companhia das Letras, o romance também estabelece um paralelo entre a beleza presente do universo das artes e a beleza latente da juventude.
''Ao Anoitecer'' narra a história de Peter, um marchand de quarenta e poucos anos dono de uma galeria de arte em Nova York. Pai de uma filha, leva uma vida estável e tranquila ao lado da esposa. Seu ofício é vender obras de artistas geniais para colecionadores podres de ricos. O paraíso começa a ser abalado com a visita de Mizzy, o irmão caçula de sua esposa.
Mizzy é um jovem que não consegue se encaixar em quase nada. Viciado em drogas, vaga de cidade em cidade, de curso em curso, de paixão em paixão, de emprego em emprego. Possui a força e a beleza juvenil da liberdade em estado puro. Inteligente mas completamente perdido na vida.
O garoto representa exatamente o oposto do tio. E talvez, justamente por isso, Peter acaba se apaixonando por Mizzy. Primeiro por sua beleza física e plástica. Depois pelo encantamento de liberdade que ele exala. E o garoto faz de tudo para seduzir o tio e arrastá-lo para seu mundo desordenado e desgovernado.
Ao longo da narrativa, Peter desenvolve uma série de conexões entre a ideia de beleza nas artes plásticas e a realidade da beleza presente no corpo e na energia dos jovens. De um momento para outro, começa a transferir sua paixão pela arte para a paixão pela beleza juvenil. Chega a desenvolver a tese de que a força que a arte possui de maneira invisível, seria a mesma força transmitida pelo ímpeto juvenil. Claro que uma dose de libido favorece as conexões.
O grande achado de Michael Cunningham está em revelar que a beleza é também um grande instrumento de manipulação. Ela não é só o que aparenta ser, ela é o que consegue manipular para se manter como império e conquistar territórios. A beleza é uma escravidão sedutora. E a juventude, uma força impiedosa.
Essas sutis conexões dentro da estrutura narrativa podem ser encontradas em outro romance do escritor, ''As Horas'', sua obra mais conhecida adaptada para o cinema por Stephen Daldry em 2002. O universo familiar, dentro das mudanças comportamentais das últimas décadas, entra como novo paradigma das relações emocionais - elemento presente nos primeiro romances de Cunningham como ''Laços de Sangue'' (1997) e ''Uma Casa no Fim do Mundo'' (1994).
''Ao Anoitecer'' traz a lembrança de que tudo pode ser desestabilizado, desorganizado de um momento para outro. O caos aparece tanto para revelar as facetas secretas de cada pessoa, como para apontar uma alteração de rota. Ou mesmo uma retomada da rota perdida.
Numa das frases repetidas pelo personagem Peter, está a chave da alegoria do romance: ''Todos humanos. Batucando num tambor para fazer um urso dançar quando faríamos as estrelas chorar de pena''. Imerso nas águas do desejo, um homem não teria a capacidade de enxergar a verdade mais simples. E sem o desejo, nada seria erguido para que a verdade fosse revelada.
Sempre haverá um tipo de frustração que derruba o sujeito em pequenos golpes. Primeiro machuca seu pé. Depois abala seu joelho. Em seguida, quebra suas duas pernas. Por fim, faz com que o sujeito veja o mundo de baixo, colado ao chão.
E ali, próximo do chão, a beleza pode igualmente surgir.
Serviço:
- Ao Anoitecer
Autor - Michael Cunningham
Editora - Companhia das Letras
Tradução - José Rubens Siqueira
Páginas - 264
Quanto - R$ 43
Fragmento:
A beleza, a beleza que Peter deseja, é esta, então: um pacote humano de graça, perdição e esperanças acidentais. Mizzy deve ter esperança, deve ter, ele não brilharia desse jeito se estivesse verdadeiramente desesperado, e é claro que é jovem, quem neste mundo se desespera mais lindamente do que os jovens?, a coisa que os velhos tendem a esquecer. Cá está ele, Ethan, apelidado de Mistake, sem-vergonha e devasso, viciado, incapaz de querer qualquer coisa que ele acredite dever querer. Seria o momento de fazer um bronze dele, de tentar captar os nervos em carne viva dele, os estágios finais quase insuportáveis de seu fulgor juvenil, à medida que ele começa a dar os passos necessários para viver a pacificamente no mundo real.
Nesse meio-tempo, ele não precisa morrer.
(Fragmento de ''Ao Anoitecer'', de Michael Cunningham)


