A libido é uma espécie de animal em constante estado de alerta. Um animal selvagem que não consegue dormir em paz, sempre impelido a correr através de planícies, escalar montanhas, atravessar oceanos e cortar ventos. Uma criatura condenada a viver sem repouso.
Em seu novo romance ''Acenos e Afagos'', o escritor gaúcho João Gilberto Noll coloca esse ''animal selvagem'' vagando, sem pecado nem culpa, pelas sombras dos pensamentos mais imediatos. A força de um instinto não domesticado inundado de suor, secreções e excrementos.
''Acenos e Afagos'', lançado pela editora Record, traz a narrativa de homem sem nome que tem toda sua atenção concentrada na manifestação da libido. Casado e pai de um adolescente, vive percorrendo becos, corredores, salas escuras, saunas e porões onde pode encontrar sexo furtivo com outros homens. A caça do prazer imediato, rápido, exclusivamente físico. Em seu íntimo acalenta um amor por um amigo da infância, nomeado apenas como ''engenheiro''. Uma antiga paixão acalentada ao longo dos anos e que nunca conheceu a consumação carnal.
O encontro com o amado acontece apenas após a morte. O engenheiro viola sua sepultura, restaurando a vida. Ressuscitado, o narrador passa a viver um amor estável e fiel ao lado de sua paixão numa pequena casinha de periferia do interior do país. Assume o papel de ''dona do lar'', cuidando da casa enquanto o ''marido'' passa o dia todo no trabalho. Com o tempo, uma mutação começa a ocorrer: lentamente seu corpo vai deixando a forma masculina para se transmutar num corpo de mulher.
Enquanto romance, ''Aceno e Afagos'' segue uma das principais características da literatura de João Gilberto Noll. A narrativa é uma vertigem na mente do personagem narrado. O real assume a imagem de algo sempre impalpável, onde dificilmente os sentimentos podem se converter em realidade. Tudo escapa pelo vão dos dedos, a volatilidade é uma teia sem fim.
Nascido em 1946, em Porto Alegre, João Gilberto Noll é um nome decisivo na literatura brasileira contemporânea. Já recebeu os mais representativos prêmios nacionais, incluindo cinco Jabutis. Não pertence aquele grupo de escritores que coloca a linguagem como suporte da história narrada. Pertence ao grupo que coloca a história narrada como suporte da linguagem. Segue a vertente mais contemporânea da prática literária, onde a linguagem ocupa de maneira radical o lugar de destaque.
A temática homoerótica, presente em ''Acenos e Afagos'', tornou-se um elemento recorrente na obra do escritor. A partir da novela ''Berkeley em Bellagio'' (Editora Objetiva, 2002), essa temática passou ser uma presença praticamente constante em seus escritos. O sexo passou a ser apresentado como um estágio antecedente do amor. Passou a tratar libido como uma frequência narrativa e, principalmente, a narrativa como um fluxo libidinal.
Além de colocar nas livrarias o novo romance de Noll, a Editora Record está relançando outras quatro obras do autor publicadas originalmente na década de 60: ''O Cego e a Bailarina'' (1980), ''A Fúria do Corpo'' (1981), ''Bandoleiros'' (1985) e ''Rastros do Verão'' (1986). Também está colocando nas livrarias uma nova edição de ''A Céu Aberto'' (1996), um dos mais instigantes romance do escritor, onde a linguagem assume o papel de personagem principal.
Em sua obra há um personagem narrador recorrente que troca de roupa, nome e idade de um texto para outro. Sempre em trânsito, entrando e saindo de espaços fechados, andando sem destino, deixando que o acaso escolha o trajeto. A ausência territorial, a pulverização da idéia de centro, o desagregamento do tempo tornam-se elementos básicos do universo narrativo.
É visivelmente em ''Acenos e Afagos'' a presença de um elemento praticamente discreto nos livros anteriores de Noll: a percepção de que a libido só pode ser definitivamente aplacada com a morte. Em outras palavras, tanto a tranquilidade do corpo, como a paz da imaginação erótica, torna-se possível apenas sob sete palmos de terra. O próprio narrador do romance precisa morrer, de preferência duas vezes, para ter acesso a essa percepção.
A associação de ''Acenos e Afagos'' à literatura do escritor francês Jean Genet (1910-1986) pode ser imediata, tanto no enfoque como na poética. Mas fica claro que, apesar da repetição temática, a narrativa de Noll segue caminho particular. Habita um território nebuloso, a fronteira entre o inconsciente e a realidade. O lugar onde os pontos cardeais do sexo se perdem e se confundem nas sombras. Displicente para com o real e atencioso para com a linguagem.

Fragmento de ‘Acenos e Afagos’ de João Gilberto Noll
Em certos instantes me mostrava tão feminina agora, que me apaixonava, sim, pelo homem que fui. Em mim coabitava os dois amantes. No entanto não alimentava anseios mórbidos por épocas finadas. Ao contrário, me agarrava ao amor daquele homem que tinha me dado outra vida, a melhor talvez, aquela que produzia em mim um oceano de vozes para um só coração. Ao caminhar me sentia uma mulher meio recuada como tantas do interior, mulher que não olhava para homem algum, fazendo-se invisível para todos os machos, com exceção do marido, claro. Às vezes sentia que me brotavam seios e eu nem olhava para conferir. Eram sensações vagas, fluidas. Ao mesmo tempo, eu me preparava a cada dia mais para o virtuosismo de penetrar um homem até o mais fundo de suas vísceras anais.


SERVIÇO
- Acenos e Afagos
Autor - João Gilberto Noll
Editora - Record
Páginas - 208
Quanto - R$ 32

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