Ele permaneceu mais de uma década sem publicar um único livro. Aos 85 anos de idade, Milan Kundera não possui problemas sérios de saúde, mas praticamente isolou-se do mundo e da literatura. Há décadas não concede entrevista e não participa de nenhum tipo de evento literário.
A grande surpresa é que seu novo livro após 13 anos de silêncio, "A Festa da Insignificância", que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras, é um romance que aborda a atualidade mais imediata, a angustia diante da falta de sentido do mundo contemporâneo. Um romance que preserva as características da literatura que o consagrou, a ficção conduzida através de elementos filosóficos. Um romance que faz uso da fragmentação, uma estrutura narrativa cada vez mais presente na ficção produzida nos dias de hoje.
"A Festa da Insignificância" traz cenas e reflexões que envolvem cinco amigos. Cada um diante de uma perspectiva diante da vida, mas todos sentindo algum tipo de angustia diante de uma existência desprovida de sentido dentro do mundo atual.
Diante da grande época do grande umbigo, a visão que Milan Kundera apresenta é a de louvor diante da insignificância: "A insignificância é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes corarem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la."
Famoso pela autoria de "A Insustentável Leveza do Ser", romance que virou epidemia na década de 1980, o escritor tcheco naturalizado francês coloca o dedo na ferida existencial de duas gerações dos habitantes da Europa. De um lado, aqueles que chegaram a acalentar alguma utopia social-política e deram com os burros na água. De outro, aqueles que nem chegaram a ter a possibilidade de acalentar alguma utopia e que padecem da angustia diante da caça de sentidos.
Dos cincos amigos retratados de maneira fragmentária, todos estão imersos nas banalidades da vida cotidiana. Entre eles há um que percebe que as mulheres de hoje não desejam mais ser admiradas pelos seios, bundas, ou outra parte do corpo tradicionalmente erótica: elas desejam ser admiradas por seus umbigos. Outro, após receber do médico o diagnóstico negativo de câncer, começa a ver sentido em dizer para as pessoas que está com os dias contados.
Outro colega, que atua como garçom, cria uma nacionalidade fictícia para não se comunicar na língua de seu país, criando um espetáculo particular onde o único público é ele próprio. Há também outro que passa o tempo contando anedotas jocosas sobre o totalitarismo russo de Josef Stalin para pessoas que não possuem a menor ideia do que foi o stalinismo.

ILUSÃO
Milan Kundera desenha um quadro fragmentário da ilusão da individualidade fruto da contemplação do próprio umbigo. Uma ilusão que abre caminho para o entendimento de que a política e a história são elementos hipnóticos de uma civilização esgotada.
A face mais cruel dessa abordagem aparece numa história inserida na narrativa de "A Festa da Insignificância" de maneira aparentemente gratuita. A imagem é simples: uma mulher deseja morrer. Quer apenas colocar um fim voluntário em sua existência. Para conseguir seu objetivo, ela precisa lutar para morrer. A ironia reside no fato de que, se no passado era necessário lutar para viver, no presente a imagem assume seu inverso: é necessário lutar para morrer.
Mas a grande máxima proposta por Kundera é quase subliminar: nos dias de hoje é impossível levar o mundo a sério.

SERVIÇO
"A Festa da Insignificância"
Autor – Milan Kundera
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Teresa B. Carvalho da Fonseca
Páginas – 136 (capa dura)
Quanto – R$ 36

Fragmento: – Se sentir ou não se sentir culpado. Acho que tudo depende disso. A vida é uma luta de todos contra todos. É sabido. Mas como essa luta acontece numa sociedade mais ou menos civilizada? As pessoas não podem se atirar umas sobre as outras sempre que se encontram. Em vez disso, tentam jogar no outro o constrangimento da culpabilidade. Ganhará aquele que conseguir tornar o outro culpado. Perderá aquele que reconhecer sua culpa. Você vai pela rua, mergulhado em pensamentos. Em sua direção vem uma moça, como se estivesse sozinha no mundo, sem olhar para a direita nem para a esquerda, indo direto em frente. Vocês se esbarram. Eis o momento da verdade. Quem vai insultar o outro, e quem vai se desculpar? É uma situação-modelo: na realidade, cada um dos dois é ao mesmo tempo o que sofreu o esbarrão e o que esbarrou. E, no entanto, há os que se consideram, imediatamente, espontaneamente, como os que esbarraram, portanto culpados. E há os outros, que se veem sempre, imediatamente, espontaneamente, como os que sofreram o esbarrão, portanto no direito de acusar o outro e de fazer com que este seja punido. Você, numa situação como essa, se desculparia ou acusaria? – Eu certamente pediria desculpas. – Ah, coitado, você também pertence ao exército dos desculpantes. Pensa que vai agradar o outro com suas desculpas. – Sem dúvida. – Você se engana. Quem se desculpa se declara culpado. E se você se declara culpado, encoraja o outro a continuar a te injuriando, te denunciando, publicamente, até sua morte. São as consequências fatais do primeiro pedido de desculpas. – É verdade. Não devemos pedir desculpas. E, no entanto, eu preferiria um mundo em que todas as pessoas se desculpassem, sem exceção, inutilmente, exageradamente, por nada, se desmanchassem em desculpas... (Fragmento de "A Festa da Insignificância", de Milan Kundera)
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