''A crítica é a forma moderna de autobiografia. A pessoa escreve sua vida quando crê escrever suas leituras. O crítico é aquele que encontra sua vida no interior dos textos que lê.''
Com essas palavras, o escritor argentino Ricardo Piglia revela que as escolhas que o leitor efetua no ato da leitura é uma espécie de diário sutil. Um diário escrito através dos livros que lê, através da maneira como interpreta a narrativa. As preferências e a maneira como interpreta o conteúdo dessas preferências, faz do leitor um confidente, o relator de sua própria vida.
Piglia, autor de obras instigantes como ''Cidade Ausente'', ''Nome Falso'', ''Respiração Artificial'' e ''Dinheiro Queimado'', tem conhecimento de causa. Sua literatura se manifesta na fronteira de dois gêneros aparentemente antagônicos: a ficção e o ensaio. ''Cidade Ausentes'' (Editora Iluminuras, 1995), por exemplo, é um romance onde ensaio e ficção se misturam a ponto de se confundirem, criando um redemoinho onde a idéia e a história eliminam suas arestas formando um corpo único.
Um dos nomes de destaque da literatura argentina contemporânea, Ricardo Piglia, nascido em 1940, pode ser descrito como um escritor-pensador. Não metódico ou acadêmico, mas aberto a todo tipo de liberdade de associações. Viagens que a mente é capaz de colocar em movimento com as rodas da razão lançada pelas esburacadas estradas do entendimento sobre o mundo.
A envolvente qualidade literária de Piglia pode ser conferida em ''Formas Breves'', livro lançado pela Companhia das Letras que reúne 11 pequenos ensaios. São textos frutos de conferências e artigos onde a memória pessoal do escritor ocupa lugar reservado, num processo híbrido entre o gênero ensaio e relatos autobiográficos.
Os temas, sempre literários, recaem sobre os autores argentinos cultuados por Piglia: Macedonio Fernández, Robert Arlt e Jorge Luis Borges. Dois textos merecem destaque, ''Os Sujeitos Trágicos'' e ''Teses Sobre o Conto''. No primeiro, o escritor discute sobre as idéias que a psicanálise bebeu no mar da literatura e os procedimentos que a literatura comeu no prato da psicanálise. No segundo, apresenta a tese de que o conto sempre narra duas histórias, uma evidente e outra oculta.
Em ''Os Sujeitos Trágicos'', traça um paralelo entre a literatura e a psicanálise, investiga a relação entre ambas como via de mão dupla. Embora não conclua de maneira completa seus argumentos, cria uma bela imagem do artista como o alucinado nadador do rio da consciência/inconsciência: ''A psicanálise e a literatura têm muito a ver com a natação. A psicanálise é em certo sentido uma arte da natação, uma arte de manter à tona no mar da linguagem pessoas que estão sempre fazendo força para a fundar. E um artista é aquele que nunca sabe se vai poder nadar: pode narrar antes, mas não sabe se vai poder nadar na próxima vez que entrar na linguagem.''
Em ''Teses Sobre o Conto'', formados por dois ensaios, Piglia penetra pelo universo das narrativas curtas para traçar um ''raio-x'' pessoal do conto, onde cada osso merece atenção. A idéia defendida é de que o conto sempre conta duas histórias, um visível e outra secreta. E a história secreta seria a grande chave da forma do gênero. Nada mais do que contar uma história que oculta uma outra história como se as duas fossem um único corpo.
O conto, pelo menos enquanto forma moderna, seria aquele construído para revelar aquilo que ele próprio oculta. O desconhecido, apresentado ao leitor apenas nas últimas linhas. E que toda leitura seria o exercício de uma experiência em busca de sentido. Um sentido enigmático que ergue uma ponte entre as palavras e a experiência da leitura.
Para Piglia, ''todas as histórias do mundo são tecidas com a trama de nossa própria vida''. Entrar em contato com uma narrativa seria a forma de entrar em contado com a própria vida, tanto por associações como por sensações. A memória, antiga ou recente, trabalharia no sentido de formar a ficção enquanto elemento palpável, próximo e íntimo.
Assim, aquilo que escolhemos ler, em qualquer grau de identificação, revela tanto a história ficcional narrada como nossa própria história real. Ler seria estar vivo diante de uma outra vida. E a crítica seria apenas uma das infinitas formas de leitura.


Serviço:
- Formas Breves, de Ricardo Piglia, Editora Companhia das Letras, tradução de José Marcos Mariani de Macedo, 120 páginas, R$ 27,00.

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