O tempo não seria aquilo que acontece na realidade. O tempo, ao contrário, seria o que acontece dentro da cabeça de cada pessoa, uma percepção individual e intransferível do próprio tempo. Assim, acreditar que as pessoas vivem num único tempo, a clássica noção de passado-presente, não passa de um tremendo equívoco.
Essa é a essência da idéia apresentada pelo escritor norte-americano William Faulkner (1897 - 1962) no romance ''O Som e a Fúria'', lançado pela editora Cosac & Naify. Obra mais radical e complexa do autor, ela transforma o tempo num personagem sombrio e exímio construtor de labirintos.
Diz a lenda que após ter seu terceiro romance recusado por diversas editoras, Faulkner caiu em depressão. Isolou-se em casa e começou escrever um novo livro desprezando a necessidade de publicação. Não tinha nenhum plano para a obra, acreditava que a história seria desenvolvida com o próprio desenrolar da narrativa. Desse processo nasceu, em 1929, ''O Som e a Fúria''.
O romance narra o processo de decadência e extinção de uma tradicional família da região sul dos Estados Unidos numa época em que as feridas deixadas pela escravidão eram gritantes. A família é formada pelo casal Jason (o pai que passa os dias enchendo a cara) e Caroline (a mãe que vive doente reclamando da vida), e pelos filhos Maury, Quentin, Candace e Jason.
A obra é dividida em quatro blocos, cada um deles apresentado sob o ponto de vista de um narrador diferente. A estrutura sugere tratar-se de quatro visões do mesmo um acontecimento, onde cada narrador insere informações complementares construindo lentamente uma teia.
O primeiro bloco é narrado por Maury (ou Benjy), um deficiente mental que só se expressa através do choro. O texto apresenta a visão de um garoto de três anos no corpo de um homem de 33 anos, um registro da memória emocional. Capaz de desnortear o leitor, a narrativa oferece fragmentos de acontecimento sem nenhuma espécie de coerência ou interpretação.
O segundo bloco é narrado Quentin, o único filho da família a conseguir entrar na universidade. Retrata os pensamentos de Quentin durante seu último dia de vida, pouco antes de cometer suicídio atirando-se num rio. Fazendo uso da técnica chamada ''fluxo de consciência'', Faulkner retrata o nó mental de personagem de maneira delirante.
O terceiro bloco é narrado por Jason, o filho que assume autoritariamente o controle da família após a morte do pai, do irmão e da fuga da irmã. Sua maior dedicação está em perseguir a sobrinha que segue os mesmos passos da liberdade sexual da mãe. Os negros também estão sob sua mira.
O quarto bloco é apresentado por uma narrador externo, retratando o ápice da desintegração da família. A atenção repousa sobre figura de Dazier, uma negra que trabalhou a vida toda como cozinheira da família. Talvez a única personagem com real compreensão de toda a tragédia.
''O Som e a Fúria'' é um belo exemplo de como a linguagem pode ser revigorada como um afiado instrumento na arte de narrar histórias. A linguagem trabalhada por Faulkner parte de uma aparente desordem para chegar a uma aparente ordem. Mas a coisa não é tão simples. Isso porque a ordem, no final, se revela muito mais desordenada e desesperadora que a própria desordem inicial.

Serviço:
- O Som e a Fúria, de William Faulkner, Cosac & Naify Edições, tradução de Paulo Henriques Britto, 336 páginas, capa dura, R$ 53,00.

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