LEITURA - A divisão das letras
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de julho de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A leitura sempre foi um prazer solitário. E talvez, por isso, os leitores gostem de falar sobre os livros que lêem. Após o ato solitário, aparece a necessidade de socializar a experiência. Conversar sobre o livro lido seria uma forma de ''dividir a leitura''.
Pensando nisso, o escritor argentino naturalizado canadense Alberto Manguel resolveu criar um diário de leitura. Escolheu doze romances para reler ao longo de um ano. A idéia era ler um por mês, com tranquilidade, e fazer um diário da experiência.
Longe da idéia de diário íntimo, a intenção era dividir com outros leitores os prazeres gerados pelo ato da leitura. Mais que um diário, Manguel, tinha a intenção de escrever um livro sobre livros. O resultado recebeu o título de ''O Livro e os Dias'' e acaba de ser publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras.
Para os amantes dos livros, a obra é uma xícara de café numa manhã fria de inverno. E o mais interessante de ''O Livro e os Dias'' não está nos autores e nas obras escolhidas por Manguel, mas na maneira apaixonada que percorre suas páginas. Sua intenção está longe de teorias e bem próxima do prazer da leitura.
Entre os romances escolhidos estão ''Dom Quixote'', de Miguel de Cervantes; ''O Deserto dos Tártaros'', de Dino Buzzati; ''Memórias Póstumas de Brás Cubas'', de Machado de Assis; ''Kim'', de Rudyard Kliping; ''O Signo dos Quatro'', de Arthur Conan Doyle; ''A Invenção de Morel'', de Adolfo Bioy Casares e ''A Ilha do Dr. Moreau'', de H. G. Wells. Fica claro o caráter eclético das escolhas, grande parte pautadas por questões sentimentais.
Em seu diário literário, Alberto Manguel deixa claro que, durante o ato da leitura, realizamos conexões entre o texto e um amplo leque de coisas. Conexões com outros livros, com a vida, pensamentos íntimos, idéias, pessoas, fatos do cotidiano, lembranças, etc. Revela que da mesma maneira como o leitor percorre o caminho da leitura, a leitura percorre o caminho do leitor. Uma espécie de processo de mão dupla.
Assim, em ''Os Livros e os Dias'', ao mesmo tempo em que o autor comenta a experiência em ler tal obra, também fala sobre o contexto em que foi lida. Ou seja, o ato da leitura deixa de ser um ato isolado para fazer parte da vida cotidiana.
Ler um livro não seria apenas entrar em suas páginas e sair do mundo real. Seria levar nosso mundo particular para dentro do livro e, ao mesmo tempo, levar o mundo particular do livro para dentro de nós mesmos.
Em seu diário de leitura, Manguel insere suas ações e percepções do cotidiano, coisa que acontecem enquanto ele percorre as páginas dos romances. Uma chuva de inverno, uma notícia de jornal, uma conversa com a vizinha, uma viagem de trabalho, um novo gato pela casa, uma flor que abriu no jardim, uma conversa com amigos, um presente inesperado, um livro emprestado e muito coisas.
''O Livro e os Dias'' trata a leitura como parte da vida, sempre repleta de conexões, não um mundo distante, um planeta de outra galáxia. Algo que todo e qualquer leitor realiza sem perceber e dar o devido valor. Uma abordagem que oferece um belo toque: a experiência de uma leitura, na maioria das vezes, pode ser mais valorosa que a pura leitura em si.
Exemplo: uma pessoa pode ler o ''Dicionário de Lugares Imaginários'', outra obra de Alberto Manguel em parceria com Gianni Guadalupi, da maneira óbvia: como livro de referência, de consulta em momentos de necessidade. Ou pode vivenciar uma experiência de leitura mais rica, desprovida de necessidades lógicas.
A pessoa pode deixar o livro na cabeceira da cama e, a cada noite, antes de dormir, experimentar a leitura de um único verbete. Ato que de pode levar no máximo alguns minutos. Levando em conta que o sedutor ''Dicionário de Lugares Imaginários'' possui quase 400 verbetes, a possibilidade do leitor sonhar com um dos lugares não é pequeno. E, nesse processo, a experiência da leitura pode ser mais significativa que a própria obra.
Os escritores fazem livros e leitores conferem sentidos a eles. E levando-se em conta que um livro ''não existe'' até ser escrito e posteriormente lido, a leitura sempre passa por uma experiência particular. Qualquer que seja.
Uma leitura pautada pelo prazer não deve estar restrita apenas no ato de se abrir um livro, mas também no ato de fechá-lo. Seja qual for a obra.
Serviço:
- Os Livros e os Dias Um Ano de Leituras Prazerosas, de Alberto Manguel. Editora Companhia das Letras, tradução de José Geraldo Couto, 216 páginas, R$ 38,00.
''Dicionário de Lugares Imaginários'', de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, Editora Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares, 496 páginas, R$ 60,00.


