Assaltantes mandando bala em quem aparecer pela frente, atentados terroristas pelas esquinas, jovens queimando dentistas vivas, guerras sangrentas e atrocidades civis, estupros por todo canto, torturadores se divertindo pelos porões, crianças violentamente espancadas pelas mães, brigas assassinas entre torcidas de futebol, etc., etc.
A violência entre os seres humanos nos dias de hoje é enorme e assustadora. Basta abrir os jornais, ou ligar a televisão, para perceber que vivemos uma época marcada pela crueldade. Vivemos uma das épocas mais violentas da história, certo? Errado.
Completamente errado. Pelo menos para o psicólogo e canadense Steven Pinker. Para ele, vivemos numa das épocas mais pacíficas da história da humanidade. Apesar de toda descrença do senso comum, sua tese é que a violência entre os seres humanos diminuiu sensivelmente ao longo dos séculos, e que hoje experimentamos uma paz nunca experimentada pela espécie antes.
Seus argumentos estão em "Os Anjos Bons da Nossa Natureza", obra que acaba de ser lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras. Trata-se de um catatau de mais de mil páginas que pode espantar muitos leitores, mas capaz de revelações surpreendentes. E capaz de inflar de oxigênio o pulmão do otimismo.
A obra é resultado de uma pesquisa de quase uma década. Através de um levantamento de centenas de pesquisas científicas, Steven Pinker demonstra, racionalmente, que a violência bruta teve uma enorme diminuição em relação ao passado. Claro que alguns períodos foram mais sangrentos e outros menos, mas, mesmo assim, a bestialidade invariavelmente caminhou para sua crescente redução.
Num primeiro momento o autor apresenta a história da violência. Fatos, práticas e números capazes de provocar nó no estômago. Coisas que nenhuma pessoa em sã consciência seria capaz de conceber como real, mas está registrado na história da humanidade. Começa com a guerra pela sobrevivência na pré-história, percorre milênios de sangue, dores, mais sangue, mais dores, passa pelo processo de civilização até chegar à ideia de direitos humanos.
Num segundo momento apresenta a psicologia da violência. Das descobertas da neurociência aos demônios que atormentam a mente humana há milênios. Os processos que constroem os instrumentos da predação, da dominação, da vingança, do sadismo e da ideologia. Nada mais do que alicerces de uma infinita gama de atrocidades colocadas em prática em nome de justificativa determinada.
A partir de uma abordagem multidisciplinar, Steven Pinker trabalha com duas variáveis, as forças endógenas (internas) e forças exógenas (externas). Nas forças externas, por exemplo, até a prática do comércio entra no jogo: comunidades de comerciantes, diante de qualquer desavença, não podem sair degolando o cliente, pois fatalmente perderão a quem trocar ou vender. Nas forças internas, por exemplo, a noção de empatia e autocontrole fazem parte do jogo: o princípio de levar o outro em consideração (colocar-se no lugar do outro) se apresenta como a grande conquista, algo como contar até três (ou até dez) antes de enfiar uma faca no peito do próximo.
Nascido na cidade de Montreal em 1954 e professor da Universidade de Harvard, Steven Pinker é considerado um dos mais influentes cientistas de difusão científica da atualidade. Autor de "Como a Mente Funciona" (1998), "Tábula Rasa" (2004) e "Do Que É Feito o Pensamento" (2008), todos lançados pela Companhia das Letras, seus livros, dotados de clareza e didatismo, são escritos para leitores comuns.
O argumento de "Os Anjos Bons da Nossa Natureza" é de que o homem caminha em evolução no sentido de redução da violência e da crueldade. E essa evolução já teria sido encampada em relação a outros seres, não mais apenas em relação às mulheres, crianças, homossexuais, negros, minorias étnicas e outras minorias. Os recentes movimentos de respeito aos animais e da proteção da fauna seriam sinais da redução da violência num sentido mais abrangente.
Steven Pinker é um cientista clássico. Não coloca a religião em sua leitura dos caminhos da violência humana. E faz questão de dizer que não se pode afirmar que a violência seria incapaz de retomar seu império do passado. Isso não se pode dizer. Mas é possível deixar claro que está nas mãos dos humanos de hoje o futuro. A evolução pode seguir seu caminho, ou retroceder. A escolha sempre se faz no presente. Hoje e agora.
As emoções são contagiosas. Sempre serão. A violência também é contagiosa. Sempre será.

Serviço:
"Os Anjos Bons da Nossa Natureza"
Autor – Steven Pinker
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Bernardo Joffily e Laura Teixeira Motta
Páginas – 1.088
Quanto – R$ 74,50


Fragmento:
Quando nos apercebemos do declínio da violência, passamos a ver o mundo de modo diferente. O passado nos parece menos inocente; o presente, menos sinistro. Começamos a apreciar as pequenas dádivas da coexistência que para nossos ancestrais pareciam utópicas. A mudança não é em direção ao conformismo: desfrutamos a paz que encontramos hoje porque as pessoas das gerações passadas se horrorizaram com a violência em sua época e se empenharam em reduzi-la; por isso, devemos trabalhar para reduzir a violência que resta em nosso tempo. De fato, é a constatação do declínio da violência o melhor testemunho que tais esforços valeram a pena. A desumanidade do homem há muito tempo é alvo de moralização. Com o conhecimento que alguma coisa a reduziu, também podemos tratá-la como uma questão de causa e efeito. Em vez de perguntar "Por que existe guerra?", poderíamos indagar "Por que existe a paz?". Nossa obsessão poderia ser não só por aquilo que andamos fazendo de errado, mas também por que aquilo que estamos fazendo certo. Porque estamos fazendo algo certo, e seria bom saber exatamente o quê.
(Fragmento de "Os Anjos Bons da Nossa Natureza" de Steven Pinker)

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