LEITURA - A dança dos guarda-chuvas
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de março de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Existe um ditado popular que afirma que cada pessoa possui um lugar específico no mundo. Um lugar propício para alguma noção de felicidade. Um lugar que precisa ser procurado, almejado. Uma esperança que se transforma em chão para sustentar os pés.
Mas o ditado esconde algo. Esconde que, apesar de todas as pessoas possuírem um lugar no mundo, elas nem sempre o encontram. Podem buscá-lo com unhas e dentes sem conseguir atingi-lo. Como se o destino colocasse todos seus instrumentos para que o lugar não seja alcançado, ou pelo menos o lugar idealizado, ou imaginado.
Esse elemento oculto nas sombras do senso comum passeia por ''Luz em Agosto'', romance do escritor norte-americano William Faulkner (1897 - 1962) lançado pela Editora Cosac Naify. Passeia como se estivesse cruzando uma estrada com olhos e ouvidos ligados. Como carregasse nas costas o passado mais pesado que os músculos são capazes de suportar.
Publicado originalmente em 1932, ''Luz em Agosto'' é mais um bom exemplo dos motivos que levam Faulkner a figurar como um dos maiores prosadores da literatura norte-americana de todos os tempos. A complexidade de sua narrativa, sempre pautada por uma noção de tempo fora do comum, é um elemento marcante em sua escritura.
Em ''Luz em Agosto'' - assim como em outras obras, entre elas ''O Som e a Fúria'' e ''Palmeiras Selvalgens'' - Faulkner criou uma escrita onde linearidade é subvertida de várias maneiras. A princípio, a narrativa apresenta a história de três personagens independentes, Lena, Christimas e Hightower. Para abordar a existência de cada um, é impelido a apresentar também a história de outros vários personagens que fizeram, ou fazem, parte de algum elemento de suas vidas.
Como se os personagens tivessem a forma de guarda-chuvas vagando pelo vento num dia de chuva forte. Em cada situação que dois ou mais guarda-chuvas se chocam, o encontro deixa marcas no tecido tencionado. Arranhões, furos, rasgos. Faulkner faz dos sinais provocados pelos encontros seu ponto de apoio estrutural do romance.
Lena é uma moça que, enganada pelo namorado, vagueia pelas estradas tentando encontrar o pai da criança que carrega na barriga. Christimas é um homem que, por não ser um branco puro nem igualmente um negro puro, busca sua identidade de maneira atormentada. Hightower é um pastor que, traído pela esposa e rejeitado pela igreja e pela comunidade, isola-se do mundo.
Como se pode notar, trata-se de figuras tentando encontrar um lugar. Um lugar próprio onde tenham a possibilidade de algum tipo de calmaria. Mas a vida não dará trégua e levará cada um ao limite de suas forças. Apesar de independentes, a existência dos três se tocará em algum ponto durante a dança dos guarda-chuvas no interior da tempestade. Intolerância racial, fanatismo religioso e preconceito moral colocam mais lenha na fúria do vento.
Para compor essa trama intrincada, William Faulkner faz uso de vários instrumentos da linguagem. Elimina os limites entre passado e presente, insere pensamentos e delírio das personagens no interior de suas fala, rompe com as marcações entre primeira e terceira pessoa, traça perfis psicológicos, cria várias intensidades de fluxos narrativos, desenvolve pontuação própria e outros recursos. Faz tudo isso com tamanho domínio da narrativa que aos olhos do leitor tudo se revela com clareza, sem enrosco ou sujeiras.
Grande parte dos acontecimentos de ''Luz em Agosto'' é apresentada a partir de diferentes pontos de vistas. Cada personagem focaliza de maneira própria o entendimento e leitura das coisas. Essas visões conferem ao romance uma riqueza de forte impacto. Revelam que quando um fato, ou sentimento, é isolado para a objetividade de entendimento, ele deixa de fazer sentido. Dessa maneira, a escritura de Faulkner consegue abarcar, ao mesmo tempo, uma dimensão individual, regional e universal.
''Luz em Agosto'' é uma viagem onde o leitor estará devidamente instalado na primeira classe. Acomodado naquilo que a literatura tem de melhor a oferecer. Uma viagem que culminará na percepção da fragilidade presente nos guarda-chuvas dentro da tempestade. A sensação de que nem todas as pessoas conseguem encontrar seu próprio lugar no mundo. E, quem sabe, procurar seja o lugar.
A memória acredita antes de o conhecimento lembrar. Acredita um tempo maior do que recorda, um tempo maior até do que o conhecimento imagina. Conhece lembra acredita em um corredor num grande longo frio despojado ressonante edifício de tijolos vermelhos escuros enegrecidos pela fuligem de mais chaminés do que a sua própria, plantado num terreno atulhado de cinza espalhada sem grama rodeado de construções industriais fumacentas e cercado por uma cerca de aço e arame de três metros como uma penitenciária ou um zoológico, onde em vagas erráticas aleatórias, com chilreios infantis pardalinos, órfãos em idêntica e uniforme sarja azul dentro e fora da recordação mas no conhecimento constantes como as paredes soturnas, as janelas soturnas onde na chuva a fuligem das chaminés adjacentes de um ano riscava como lágrimas negras.
Por que você passa as tardes de sábado trabalhando na fábrica enquanto outros homens estão se divertindo na cidade?
Não sei, disse Byron. Acho que a minha vida é essa mesmo.
E eu acho que minha vida é essa mesmo, também, disse o outro. Mas agora eu sei por quê, Byron pensa. É porque um sujeito tem mais medo do problema que poderá vir a ter do que do problema que já tem. Ele se agarrará ao problema a que está acostumado em vez de arriscar-se a uma mudança. Sim. Um homem falará sobre como gostaria de escapar dos vivos. Mas são os mortos que lhe causam dano. É dos mortos que jazem quietos num lugar e não tentam agarrá-lo que ele não pode escapar.
(Fragmentos de Luz em Agosto, de William Faulkner)
Serviço:
- Livro ''Luz em Agosto'', de William Faulkner, Editora Cosac Naify, tradução de Celso Mauro Paciornik, 448 páginas, capa dura, R$ 69,00.


