Um cachorro que assume o comando da vida de seu dono e torna-se dono da casa. Uma senhora que enterra o marido com uma televisão junto ao caixão para que o falecido assista novela. Um velho pescador que leva diariamente, na coleira, seu peixe para passear no lago. Um suicida que se joga do alto de um edifício e permanece flutuando durante dias e dias.
Situações como essas recheiam ''O Fio das Missangas'' o novo livro de contos do escritor moçambicano Mia Couto lançado pela editora Companhia das Letras. O autor mantém sua peculiar característica em abordar a existência humana a partir dos elementos da natureza e suas simbologias orgânicas.
O volume reúne 29 contos onde elementos do fantástico são utilizados como figurino para histórias germinadas em desencontros, desamores e labirintos da incompreensão. Uma parte considerável dos textos focaliza o universo feminino a partir de óticas íntimas, óticas particulares inseridas no imaginário onírico do povo africano.
A principal característica da literatura de Mia Couto está no tratamento conferido à linguagem. Em suas narrativas novas palavras são criadas a partir da junção de dois vocábulos, sentenças são intencionalmente invertidas, substantivos são transformados em verbos, verbos são transformados em substantivos e outras coisas mais. Sua intenção não é apenas ir além dos padrões normativos da língua portuguesa, mas, levar para a escrita, a riqueza e os infinitos recursos do uso oral da língua e ampliar o teor simbólico das culturas tribais. Uma espécie de dança do verbo.
Mia Couto realiza, na língua portuguesa praticada em Moçambique, algo muito parecido ao que autores brasileiros como Guimarães Rosa (na prosa) e Manoel de Barros (na poesia) realizaram na língua portuguesa utilizada no Brasil. A criação de uma linguagem que caminha para a amplificação.
''O Fio das Missangas'' é a prova evidente de que o Brasil é o único país empenhado em aplicar, no mercado editorial, a nova reforma ortográfica de unificação da língua portuguesa que entrou em vigor em janeiro de 2009. O livro, como outros livros de Mia Couto publicados anteriormente no Brasil, segue a ortográfica utilizada em Moçambique, muito semelhante àquela utilizada em Portugal com seus ''actos'' e ''factos''. O próprio título do livro ''missangas'' (''miçangas'' na ortografia em vigor), deixa claro a situação. Ou a provocação. Vale lembrar que a edição lançada pela editora Companhia das Letras possui o apoio da ''Direcção Geral do Livro e Bibliotecas do Ministério da Cultura de Portugal''. Ou seja, se depender dos lusitanos, a unificação ortográfica da língua portuguesa no mercado editorial levará séculos.
Filho de imigrantes portugueses, Mia Couto nasceu em Beira, Moçambique, em 1955. Biólogo que trabalha com estudos de impacto ambiental, estreou na literatura em 1983, com o livro de poemas ''Raiz de Orvalho''. Depois vieram os volumes de contos ''Vozes Anoitecidas'' (1986), ''Cada Homem é Uma Raça'' (1990), ''Estórias Abensonhadas'' (1994) e ''Contos do Nascer da Terra'' (1997). Em seguida passou a se dedicar a narrativas de maior fôlego, romances onde se destacam ''A Varanda do Frangipani'' (1996), ''O Último Voo Flamingo'' (2000), ''Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra'' (2003), ''O Outro Pé da Sereia'' (2006) e ''Venenos de Deus, Remédio do Diabo'' (2008) - todos publicados no Brasil.
Os contos de ''O Fio das Missangas'' estão repletos de pequenas surpresas e revelações. Surpresas que não estão no enredo propriamente dito, mas na maneira como as histórias são conduzidas pela narrativa, pela linguagem. Um breve exemplo: ''Toda vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada. Ninguém no plural. Ninguéns''.

SERVIÇO
- O Fio das Missangas
Autor - Mia Couto
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 152
Quanto - R$ 34

Fragmento:
Há mulheres que querem que o seu homem seja o sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele se foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém.
(Fragmento do conto 'A Despedideira' que integra 'O Fio das Missangas' de Mia Couto)

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