Deixando de lado a clássica ansiedade da juventude, o escritor paranaense Wilson Bueno publicou seu primeiro livro, ''Bolero's Bar'', quando estava prestes a completar 40 anos de idade. Talvez por isso sua literatura tenha nascido madura, sem espaço para exercícios musculares dos verbos.
Ao longo de duas décadas de produção, criou dentro da literatura brasileira uma obra que muitos consideram inclassificável. Trafegando entre a poesia, o conto, a fábula e a novela, construiu uma narrativa com estilo próprio. Uma narrativa onde a linguagem é tratada com um pássaro que, além transformar o vôo em dança, precisa converter o canto em música.
Nascido em Jaguapitã, em 1949, e radicado em Curitiba, Wilson Bueno é autor de obras como ''Mar Paraguayo'' (1992), ''Cristal'' (1995), ''Pequeno Tratado de Brinquedos'' (1996) ''Meu Tio Roseno, a Cavalo'' (2000) e ''Amar-te a Ti Nem Sei se Com Carícias) Acima de'' (2005). Uma das características de sua literatura está em percorrer línguas fronteiriças - o português, o espanhol e o guarani - de algumas regiões do Brasil e criar uma escrita formal a partir da informalidade oral.
Wilson Bueno volta agora às livrarias com a reedição de seu primeiro livro, ''Bolero's Bar'', publicado originalmente em 1986. Lançado pela Travessa dos Editores, a edição vem acompanhada de um livro inédito, ''Diário Vagau'', que reúne textos publicados, originalmente, ao longo dos anos, em jornais e revistas. A seguir, a entrevista que Wilson Bueno concedeu à Folha2 em que fala sobre as duas obras.

O que sente um escritor quando vê seu primeiro livro reeditado 20 anos depois?
Um livro é, sem erro, uma viagem no tempo. Instantâneos transfigurados pelo rolar dos dias... Duas décadas, você há de convir, é coisa bastante para um livro, para qualquer livro. Ter em mãos, ainda outra vez, a obra de estréia, é uma sensação deveras impressionante. Só que, no caso, a reedição de ''Bolero's Bar'', pela Travessa dos Editores, vem agregada de um outro livro, praticamente inédito, que é ''Diário Vagau''. Então eu vivo dois tipos de sentimento. Aquele de quem experimenta a emoção de ver reeditado o seu livro de estréia, e, junto com ele, o gozo, sempre epifânico para um escritor, que é o de um novo título na praça. A caixa que contém ambos os livros, tenho-a, pra mim, como uma coisa consagradora. A reinvenção gráfica do designer, e também escritor, Paulo Sandrini, põe a Travessa dos Editores entre o que há de melhor hoje, mesmo se colocarmos no páreo as mais exigentes editoras nacionais.

Os textos de ''Bolero's Bar'' são atemporais, possuem frescor após duas décadas. Você tinha isso em mente quando criou o livro?
Olha, eu sempre tive horror às estréias precoces. Graças aos céus e até, eu diria, a um exacerbado rigor que chegou muitas vezes às raias da auto-censura, acabei estreando tardiamente, com quase 40 anos. Talvez daí a perenidade que você denuncia nesses textos duramente gestados entre o final da década de 70 até meados dos 80. Me refiro aqui, em exclusivo, aos textos de ''Bolero's Bar'', já que os de ''Diário Vagau'' são bem mais recentes e eu diria até, pretensiosamente, que frutos já consistentes de uma perseguida maturidade. Sentia, sim, desde a primeira edição do livro, que eu criara alguma coisa destinada a permanecer. Eu seria um ''modesto'' muito mentiroso se lhe dissesse o contrário. E a prova esta aí, nesta reedição que é o objeto de nossa conversa.

Na nota de abertura você fala que os textos dos dois livros fazem parte de um mesmo processo. A idéia era de um único livro que posteriormente foi dividido em dois. Como isso aconteceu?
De início, Fábio Campana que, aliás, consegue unir o escritor e o editor de uma forma absolutamente incomum, ao considerar ''Bolero's'' um clássico contemporâneo, me sugeriu que retrabalhasse o livro e o acrescesse de novos textos. Havia nessa sugestão, entusiasticamente apoiada por Jamil Snege, e até por este desenhada e definida, o desejo de reconstruir, me parece, em bases consistentes, uma estréia literária que mereceu, felizmente, da grande crítica nacional, uma recepção que não hesito em classificar como ardorosa, e isto, anote-se, para um livro editado na província e por uma pequena editora como a valente Criar, de Roberto Gomes.

Pode-se afirmar que os textos de ambos os livros partem de um mesmo ponto mas seguem caminhos diferentes. ''Bolero's Bar'' segue na direção da prosa poética e ''Diário Vagau'' caminha para a crônica?
Penso que nem uma coisa nem outra. Prefiro ficar com o saudoso escritor João Antônio, que ao privilegiar-me a estréia provinciana com duas páginas de domingo em ''O Estado de São Paulo'', colocou o livro, exageradamente, como um acontecimento pouco usual nas letras brasílicas. O autor de ''Malagueta, Perus e Bacanaço'' via ali, principalmente o aporte de um ''não-gênero'', nomeando, de forma definitiva, os textos como ''autonomias''. A rigor, o que são? Você há de convir que não são crônicas, não são contos, não são poemas...

Em ''Bolero's Bar'' já está presente o cuidado com a linguagem que atingiria maiores proporções em suas obras posteriores. Esse cuidado apurado com a linguagem narrativa é o projeto de sua literatura?
Não concebo literatura sem apuro de linguagem. Funambulismos podem dar num bom filme de ação; singularidades na vida todo mundo têm; histórias da Vovó Mafalda ou da horta da tia Engrácia são fáceis de reproduzir, e muito cômodo... Agora, tenho para mim, que literatura é feitiçaria, invenção, bruxedo borgeano, e sem uma tensão extrema, radical e acossada com a linguagem, em meu entender inexiste a ''ars litteraria''.

Fragmento do texto ‘‘As Armas do Coração’’, que integra ‘‘Bolero’s Bar’’, de Wilson Bueno
  Esta é a história de uma solidão que, morando nos fundos da casa, resolveu um dia investigar as ruas e os bares, os homens em trânsito, e topou com outra solidão – como num burlesco encontro de patifes que discutissem entre si quem capaz de maior patifaria. No caso, não estava em jogo nenhum caráter, e o que se viu foram dois entes absolutamente sozinhos se perguntando como era possível.
  A solidão que parecia mais velha carregava o inominável horror até mesmo ao vento, que, sem querer, vinha a ela num desejo calmo n só Deus sabe com que insistente ternura. Eriçava-se, porco-espinho, uma solidão acabada, caduca e reticente.
  A outra certamente nascia para este mundo povoado de obstáculos e de agruras, pois ainda acreditava piamente em companhia e andava pelas ruas leve, muito leve, quase uma nuvem. Tivesse olhos, nariz e boca alguém diria que era uma criança em abandono. Esqueciam-se continuamente de que esta pequena solidão constituía apenas uma inocência.
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Serviço:
- Livros ''Bolero's Bar'' e ''Diário Vagau'' de Wilson Bueno. Travessa dos Editores, 144 páginas cada livro, caixa com os dois títulos, R$ 35,00.

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