Máscaras e véus. Disfarces e maquiagens. Vestimentas e dissimulações. Existem infinitas maneiras do ser humano aparentar aquilo que não é. As aparências não estão apenas na superfície, também estão abaixo da pele, entre músculos e ossos.
Ninguém é o que aparenta ser. Essa é a ideia proposta pela escritora cearense Tércia Montenegro no romance "Turismo Para Cegos", que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras. E as aparências, uma hora ou outra, são desnudadas botão por botão, tecido por tecido.
A obra narra a história de Laila, uma jovem aluna de artes plásticas, e de seu namorado Pierre, um tímido funcionário público. Logo no início do namoro Laila é abatida por uma doença que provoca a perda da visão. Dividindo um apartamento, o casal vive os novos desafios da cegueira de Laila.
O enredo, coincidentemente, é semelhante ao de "Sangue no Olho", romance da escritora chilena Lina Meruane lançado meses atrás pela editora Cosac Naify. Os dois livros se baseiam numa mulher enfrentando uma inesperada cegueira ao lado do namorado.
Em ambas as obras há uma perversidade latente que, em "Turismo Para Cegos" assume a forma de crueldade. Quando Laila é abatida pela cegueira, abandona a condição de vítima, de boa moça coitadinha, para se tornar uma mulher malévola disposta a fazer de tudo para atormentar o mundo à sua volta.
Principalmente a vida do Pierre. O bom e dedicado moço recebe tudo com resignação. Faz de tudo para adocicar a vida da amada. Chega a realizar uma séria de viagens com Laila para apresentar lugares turísticos espalhados pelo Brasil. Tudo sem resultado.
Instável, contraditória, raivosa e imprevisível, Laila se revela uma deficiente visual capaz de posturas totalmente politicamente incorretas. Não coloca a culpa em sua condição de cega, mas nas coisas à sua volta, especialmente nas pessoas mais próximas, aquelas que demonstram cuidados e afetos. Pedras, farpas e patadas ganham contornos requintados e minuciosos como numa obra de arte contemporânea.
Nascida em Fortaleza, em 1973, Tércia Montenegro é autora de quatro livros de contos e dois de crônicas. Seu último volume de contos, "O Tempo em Estado Sólido" (Grua, 2012), foi um dos finalistas dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom. Professora de Letras da Universidade Federal do Ceará, "Turismo Para Cegos" é seu romance de estreia.
A narradora do romance é a funcionária de um pet shop que vende um cão-guia para Laila com o objetivo de auxiliar em sua caminhadas pelas ruas. O cachorro recebe ironicamente o nome de Pierre, o mesmo nome do namorado. Na verdade, a narradora vigia o casal pelas ruas como voyeur, curiosa pela história dos estranhos namorados.
A narrativa desenvolvida por Tércia Montenegro não se baseia em fatos, mas em detalhes psicológicos das personagens. A grande surpresa da obra está em suas páginas finais, quando inesperadamente, diante dos olhos do leitor, as máscaras e os véus caem. Os disfarces e as maquiagens despencam. As vestimentas e dissimulações escorrem pelo ralo.
A revelação daquilo que existe por trás das aparências desvela segredos inconfessáveis. Essa revelação final confere ao romance um novo sentido. Uma vida secreta surge em cada personagem, uma vida oculta e inconfessável aparece no momento em que todos começam a utilizar as mesmas regras para o jogo das aparências.
E se ninguém é o que aparenta, aquilo que aproxima as pessoas é justamente aquilo que elas não aparentam. O ímã dos segredos.

Serviço:
"Turismo Para Cegos"
Autor – Tércia Montenegro
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 224
Quanto – R$ 34,90

Se os amantes pudessem recordar as ideias que tiveram um do outro nos primeiros contatos, provavelmente ficariam espantados com o desprezo inicial, até mesmo o nojo, uma recusa prévia por alguém que adiante se fará indispensável. O processo da conquista torna a maioria das pessoas incoerente – e se houvesse uma gaveta, um local para condensar o abstrato, Laila teria depositado ali as maldições que dedicara a Pierre, e seus conselhos escorregadios, que ela (mil vezes estúpida!) só havia percebido em sua real dimensão horas mais tarde. Ele, por sua vez, teria guardado na caixa as lágrimas que não liberou diante de Laila. Começava a se ver como um tipo de herói, na disposição de salvar uma cega ou ao menos transformar-lhe a vida, embora no fundo (numa dimensão embrionária de pensamento) soubesse que estava disposto àquilo por uma vantagem: Laila, sem enxergar, não poderia julgá-lo por sua feiura. ("Turismo Para Cegos", de Tércia Montenegro)
mockup