LEITURA - A crueldade das revelações
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de outubro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Ao longo da existência, toda e qualquer pessoa vive algum tipo de revelação. Seja do tamanho de uma enorme pedra que despenca sobre a cabeça, seja do tamanho de um pequeno pedregulho que se instala dentro do sapato. Revelações que podem alterar radicalmente o curso da vida numa explosão ensurdecedora. Revelações que reforçam a idéia de que o curso da vida foi se alterando tão silenciosamente ao longo do tempo, que torna-se impossível retomar as rédeas do destino.
A literatura do escritor sergipano Antonio Carlos Viana está inundada dessas revelações. Os personagens de seus contos estão, invariavelmente, diante de alguma revelação. Diante de alguma transição entre a idéia de crueldade e a crueldade do real. Diante de alguma situação que revela aquilo que a vida demonstra ser: um poço.
Professor universitário nascido em Aracaju, Antonio Carlos Viana é um contista de produção pequena e restrita. Publicou três breves livros através de pequenas editoras, ao longo de três décadas. Em 1999, seus textos foram reunidos na antologia ''O Meio do Mundo e Outros Contos'', volume que tornou sua literatura acessível a um maior número de leitores. Surpreendeu por revelar um autor maduro, seguidor da melhor tradição do gênero na literatura brasileira.
''Aberto Está o Inferno'', seu novo livro que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, surpreende ainda mais. Reforçando suas principais características narrativas, Carlos Viana apresenta uma série de contos impecáveis, trafegando com desenvoltura entre elementos da cultura rústica do sertão brasileiro e a cultura urbana da modernidade.
Os contos de Viana são sucintos, estão centrados em pontos específicos de tempo e espaço. Com um foco objetivo, apresenta recortes de histórias que arrastam atrás de si um universo muito maior que o descrito. Os textos raramente ultrapassam cinco ou seis páginas e, mesmo assim, trazem uma intensidade multiplicadora.
Uma das grandes características de suas histórias está em retratar a perda da infância através da descoberta da sexualidade. Tudo num processo que, invariavelmente, envolve uma atmosfera de crueldade. Relatos que deixam claro que a vida, ou o instinto, não conhecem palavras como ''condolência'' e ''perdão''. Apenas seguem em frente, como uma erosão desenhada pela fúria das chuvas.
A impressão é que as personagens de ''Aberto Está o Inferno'' não ganham nada ao longo das experiências narradas, apenas perdem. Mas nunca terminam com nada, desprovidos de qualquer coisa. As experiências, carregadas de revelações, simplesmente retiram o excesso de roupa e ornamentos da existência. O que fica é a nudez de não saberem o que fazer diante do constrangimento da voracidade da vida.
As revelações seguem dois caminhos diferentes. Em um deles, aparecem no interior das personagens e invadem o ambiente próximo e familiar de maneira avassaladora. Em outro, surgem no ambiente externo e avançam em direção ao interior como pedra montanha abaixo.
Nesse duplo movimento, Viana trabalha com sutileza. Em relação à sexualidade, por exemplo, as personagens experimentam tanto o prazer como a dor. E isso não impede que tenham a mesma visão. A diferença é que algumas perseguirão o desejo pelo resto da vida, outras passarão a vida toda fugindo dele. O drama seria o mesmo.
Tanto em ''Aberto Está o Inferno'', como em ''O Meio do Mundo'', Viana apresenta, em cada conto, histórias de descobertas. E essas descobertas, grandes ou pequenas, ruidosas ou silenciosas, assumem o signo das revelações que alteram as existências. E todas as cores das possíveis ilusões caem por terra, como orvalho em pele árida.
Serviço:
- ''Aberto Está o Inferno'', de Antonio Carlos Viana. Editora Companhia das Letras, 156 páginas, R$ 32,00.
- ''O Meio do Mundo e Outros Contos'', de Antonio Carlos Viana. Editora Companhia das Letras, seleção e apresentação de Paulo Henriques Britto, 164 páginas, R$ 32,00.


