A arte contemporânea é um vendaval que arrasta tudo num caos sem limites. Ela pode ser tudo e não fazer nenhum sentido. Também pode ser nada e fazer todo sentido do mundo.
Nesse caos em que tudo é liberdade, o escritor norte-americano Kevin Wilson encontrou uma maneira irônica e bem-humorada de colocar a arte contemporânea dentro da literatura. Seu romance "Caninos em Família", lançado pela editora Companhia das Letras, percorre o vendaval da arte contemporânea narrando a trajetória de uma família de artistas pirados e radicais.
O jovem casal Caleb e Camille Caninnus, no final da década de 70, percorre os Estados Unidos realizando as performances mais loucas e bizarras possíveis. Vivem para a arte e em nome da arte. Não a arte convencional, aquela que pode ser pendurada na parede, mas a arte que se propõe a questionar tudo e transformar em caos a pacata vida em sociedade. Uma arte que consiste em criar uma situação a fim de provocar uma resposta emocional extrema em quem está por perto.
Registrando suas performances em fotos e vídeos, ganham projeção nacional, amados pelos acadêmicos e adorados pelos críticos. A radical postura que assumem diante da arte faz da arte que criam algo revolucionário, extremamente inovador. Ou, segundo algumas opiniões, uma arte que não passa de embuste, picaretagem.
Quando nasce a primeira filha, Annie, o casal enfrenta o dilema de final de carreira por acreditarem que filhos acabam com a arte. Para inverter essa ideia, decidem incorporarem a filha nas performances. Logo aparece o segundo filho, Buster. Assim, desde muito pequenos, Annie e Buster passam a fazer parte das doidas performances em família onde o estranho é sempre melhor do que o belo.
Ao crescerem, Annie e Buster se sentem cada vez mais constrangidos em participar da arte dos pais. Invariavelmente são colocados em situações de risco e ridículas. Precisam rezar para saírem salvos. São performances conceituais sem pé nem cabeça, onde os pais se divertem e os filhos agonizam. Quando atingem a maioridade os dois saem da casa. Abandonam definitivamente as maluquices dos pais. Annie se torna atriz de cinema, Buster escritor.
Após uma década longe da família, os irmãos entram numa profunda crise e resolvem passar uma temporada ao lado dos pais. O que seria uma reaproximação se transforma em caos, tudo volta ao ponto de partida. Caleb e Camille Caninnus um belo dia desaparecem. A polícia acredita que foram mortos e cortados em pedacinhos por um serial killer. Os filhos acreditam que se trata de mais uma terrível performance colocada em prática pelos pais.
Assim, Annie e Buster partem para uma longa jornada para descobrir se os pais estão realmente mortos ou tudo não passa de uma obra de arte. Nesse processo, os irmãos passam por um embate emocional em três perspectivas: a vida dos pais, suas próprias vidas e a vida em família.
Em "Caninos em Família", Kevin Wilson contrapõe arte e sentimento. De um lado surge a afirmação de que o ato não é arte, mas a reação ao ato é que é arte. De outro a constatação de que a arte acaba com os filhos.
"Caninos em Família" possui um enredo original e singular. Engraçado, irônico e ao mesmo tempo trágico, segue caminho próprio dentro da atual literatura norte-americana. Os fortes vínculos entre arte e vida são apresentados a partir de diferentes ângulos. De um lado a construção, de outro a destruição. De um lado a liberdade da arte, de outro a liberdade do indivíduo. Tudo no meio do vendaval.

SERVIÇO:
"Caninos em Família"
Autor – Kevin Wilson
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Alexandre Hubner
Páginas – 340
Quanto – R$ 54 e R$ 38 (e-book)

"Dê uma olhada nisto", disse Caleb depois que as coisas se acalmaram. Buster estava sentado no sofá, com o pai de um lado e a mãe do outro, comendo seu terceiro chocolate. Seus pais puseram em sua mão uma matéria do New York Times intitulada "Botando fogo na casa". A foto que ilustrava a reportagem era um close de um homem parado em frente a uma casa, com um fósforo aceso na mão. Ao que parecia, o sujeito, um artista performático, pretendia pôr fogo em sua casa, com tudo o que havia dentro: um comentário sobre o materialismo e a crueldade da natureza. A casa, com todas as recordações que ela continha, seria reduzida a cinzas, tudo em nome da arte. "A gente vai pôr fogo aqui em casa também?", indagou Buster. "Não", gritou seu pai. "Pelo amor de Deus. Onde já se viu, roubar a ideia de outro artista? Ainda mais uma ideia tão ruim." "Buster", começou sua mãe, "esse sujeito está tentando criar um espetáculo, mas vai fazer um troço completamente sem graça, como qualquer obra de arte tradicional. Ele conta pra todo mundo antes. Chama as pessoas para irem ver a casa dele ser destruída por um incêndio. Está dizendo o que as pessoas devem pensar sobre a coisa antes que ela aconteça." "Isso não é arte", continuou Caleb. "É uma exposição de arte. A arte já está feita." (Fragmento de "Caninos em Família" de Kevin Wilson)
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