LEITURA - A cor mais azul das palavras
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de julho de 2018
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Poesia pode ser tudo, mas principalmente o amor. Em seu novo livro, "Pequeno Dicionário de Azuis", o poeta curitibano Fernando Koproski demonstra isso com todas as letras: "Todo poema é uma poema de amor".
Lançado pela editora 7 Letras, o volume reúne praticamente toda a poesia do autor produzida em 1995 e 2017. Reúne seus onze livros publicados e também versos inéditos. Traz uma fortuna crítica com artigos, resenhas e entrevistas, além de CD com experiências na confluência entre música e poesia.
"Pequeno Dicionário de Azuis" apresenta um panorama completo da produção de uma das principais vozes da poesia paranaense contemporânea. Uma poesia marcada por uma maneira peculiar de tratar as palavras como parte da vida em todas suas variáveis e consequências.
Nascido em 1973, Fernando Koproski, publicou seu primeiro livro em 1995. Ao longo dos anos lançou doze volumes de poesia e três romances. Organizou e traduziu duas antologias com a produção poética do compositor canadense Leonard Cohen (1934 2016): "A Mil Beijos de Profundidade" e "Atrás das Linhas Inimigas de Meu Amor". Também organizou e traduziu quatro antologias poéticas do escritor norte-americano Charles Bukowski (1920 1994) publicadas pela editora 7 Letras.
A seguir, Fernando Koproski fala sobre seu novo livro.
"Pequeno Dicionário de Azuis" compreende sua produção poética ao longo mais de duas décadas. Que leitura panorâmica você faz entre os poemas de seu primeiro livro e os versos mais recentes?
Acho que voltei para a simplicidade, ainda que hoje falando de outra forma. No início, a simplicidade era respirada com naturalidade. Depois comecei a sofisticar a lírica, desenvolvendo-a sobretudo no poema em prosa. A parte inicial do livro "Nunca Seremos Tão Felizes Como Agora", é exemplo dessa linguagem trabalhada com minúcias. Embora ainda goste desse formato, senti que ele me levou à exaustão, o que fez com que eu explodisse essa forma de linguagem no fim deste livro, arrebentando o poema em versos livres e sobretudo em canções. Essa expressão da poesia como canção acabou extrapolando e se desdobrando no livro seguinte, "Retrato do Artista Quando Primavera". De certa forma, os últimos poemas de "Pequeno Dicionário de Azuis", que são os poemas inéditos, ainda vestem as roupas da canção. Embora, a temática nesses poemas ainda mude, percebo que a canção é que me levou de volta ao início, me acolhendo com uma simplicidade familiar e que há muito eu sentia falta.
Seus escritos parecem ser pautados pela vida em suas grandes sensações humana. A poesia entra na vida ou a vida entra na poesia?
A vida entra na poesia o tempo todo, mesmo que o poema não queira. O tempo do poema é frágil, pode ser estilhaçado pela velocidade da realidade a qualquer momento, sem aviso prévio. Então, se é inútil lutar contra a intromissão da realidade, melhor mesmo é assimilá-la, abrir novas janelas de significação ou talvez já construir o poema com membranas permeáveis, e permitir as trocas que ocorrem, avidamente, e que só favorecem o crescimento da poesia.
O amor aparece como tema recorrente em sua poesia. Por que o amor?
Numa das entrevistas incluídas neste livro, o jornalista me fez esta mesma pergunta. Na época, em 2003, vejo que eu respondi com simplicidade: "porque todo poema é poema de amor". Hoje, apenas acrescentaria joyceanamente porque "o amor ama amar o amor".
Ao longo de sua produção é possível perceber uma linguagem em que a poesia caminha na direção da prosa. Esse é um caminho natural ou intencional?
Acho que ambos. Como eu bebia, nos meus anos de formação, muita poesia na forma de prosa (Joyce, Baudelaire dos "Pequenos Poemas em Prosa", Rimbaud de "Uma Temporada no Inferno", Virginia Wolf, entre outros), imagino que isso tenha sido um caminho natural. Esses grandes escritores citados, entre os fios narrativos, me mandavam muita mensagem subliminar com poesia pura... Por outro lado, também foi intencional essa procura pela prosa, pois dos poemas em prosa apresentados nos diversos livros de poesia que compõem o "Pequeno Dicionário de Azuis", fui aos poucos, livro a livro, ensaiando narrativas que serviram pra engrossar o sangue de minha escrita. Um dia parei de escrever poesia confessional e deixei que essas narrativas falassem por mim. O resultado é o romance "Crônica de um amor morto". Joyce dizia que todo escritor só tem um romance dentro de si. Então, este é, modestamente, o meu.
Serviço:
"Pequeno Dicionário de Azuis"
Autor Fernando Koproski
Editora 7 Letras
Páginas 660 (capa dura)
Quanto R$ 69

[left]Fragmento
A ÚLTIMA NOITE DO MUNDO
esta é a última noite do mudo
não há mais tempo para ser
superficial em amores profundos
tarde demais para se atirar
de ponta em corações rasos
esta é a última noite do mundo
só quero beber o vinho negro
de um milhão e meio
de rosas negras
das noites de teus cabelos
e mirar o mar de mármore
escoando em redemoinho
pelo seu umbigo
até que toda a tua pele
escorra e afogue comigo
esta é a última noite do mundo
o que ontem não era
o que nunca foi amor agora foi-se
deixando só o amor
como nossa última noite
(Poema que integra "Pequeno Dicionário de Azuis" de Fernando Koproski)[/left]


