Nascido em 1960, Nuno Ramos é um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira
Nascido em 1960, Nuno Ramos é um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira | Foto: Seth Solo/ Divulgação



No palco, um velho ator em colapso. Uma encenação que revela o colapso da própria encenação. Uma apresentação onde realidade e representação se confundem para refletir sobre a ideia do mundo como um grande teatro.
Em seu novo livro, "Adeus, Cavalo", o escritor e artista plástico paulista Nuno Ramos elege a encenação, com sua coleção de reverberações, como a grande narrativa do homem contemporâneo.
Lançado pela editora Iluminuras, "Adeus, Cavalo" pode ser considerado novela, romance, dramaturgia, entrevista, roteiro, prosa poética, etc. Ou nada disso. Ou tudo misturado como experimentação. Para compor sua narrativa Nuno Ramos faz uso de várias formas literárias que se misturam e se confundem em múltiplas vozes.
O autor transforma em ficção três artistas reais: o ator carioca Procópio Ferreira (1898 - 1979), o poeta italiano Giuseppe Ungaretti (1888 - 1970) e o músico carioca Nelson Cavaquinho (1911 - 1986). A ponte entre eles é conectada pelo narrador, uma voz que investiga a arte do ator: "A técnica do ator é a da memória feita cavalo – no sentido galope do termo, quando o animal reconhece o caminho de casa depois de um longo passeio. É a técnica da fuga transferida à glote, à narina, às partes externas do grande fole. A soma das vozes fugindo em distorções da garganta, matizes agudos e graves, trejeitos sutis, pigarros. No entanto, olhando para trás, reparando bem, é possível perceber os pequenos sinais que deixou enquanto fugia. Suas pegadas."
Nascido em 1960, Nuno Ramos é um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira. Entrou na literatura em 1993, com a publicação do livro "Cujo". Autor de oito títulos, foi por duas vezes vencedor do prêmio literário Portugal-Telecom (atual prêmio Oceanos). Em 2009 com "Ó", e em 2011 com "Junco".
A editora Iluminuras iniciou recentemente o projeto da republicação de sua obra. O primeiro título a ser reeditado é "O Pão do Corvo", publicado originalmente em 2001. O volume reúne 18 contos e narrativas curtas que exploram o lado velado de fatos e acontecimentos. Com uma estrutura narrativa não experimental, o autor procura apontar o dedo não especificamente para fatos e acontecimentos, mas para as sombras que eles criam.

Serviço:
"Adeus, Cavalo"
Autor – Nuno Ramos
Editora – Iluminuras
Páginas – 80
Quanto – R$ 38

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A contaminação da arte
| Foto: Reprodução



"O Pão do Corvo"
Autor – Nuno Ramos
Editora – Iluminuras
Páginas – 88
Quanto – R$ 38

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A contaminação da arte
| Foto: Reprodução
Fragmento 1 Vou estar misturado aos peixes, sarcófagos, aos esôfagos dos batráquios e minha mente, famosa mente, e minha língua, famosa língua, meus gestos célebres, executados sobre a fórmica coloridas das padarias e dos botecos, valerá tanto quanto esse barro e o que há dentro dele. Ainda haverá rabada e galinha ciscando pela casa, e latas de cerveja e crianças bêbadas de sono e de maus-tratos. Montanhas de minério serão levados nos porões de barcos bojudos até o coração da China e, em troca de algumas moedas, ao toque de alarmes, pistões, relógios e motores, azeitados com graxa escura, crianças chinesas transformarão essas montanhas em sólidas vigas de aço, mas eu, eu – como pude esquecer? – não vou estar ali para ver, como estou aqui e vejo, agora vejo, vejo perfeitamente vocês diante de mim. (Fragmento de "Adeus, Cavalo", de Nuno Ramos)
Fragmento 2 Desde que a estrada chegou eu cuido deles. Só preciso de uma pá, um pouco de cal, um balde e a bicicleta. Nem preciso pedalar muito. Penduro o balde com o fundo cheio de cal na alça do guidão. Toda manhã tem um cachorro novo. Pelo menos um. Eu olho bem para ele. Às vezes vêm uns pedaços de asfalto junto, pedregulhos de piche grudados no pelo. Procuro me lembrar de como ele era. Anoto o tamanho, o desenho das manchas, o lugar onde o carro pegou e a data. Se alguém vier me perguntar estou pronto. Depois cubro com a terra do meu quintal. Preciso desenterrar os mais antigos para os novos. Queria saber o nome deles. Quando conheço o dono eu pergunto. (Fragmento conto "Eu Cuido Deles" que integra o livro "O Pão do Corvo", de Nuno Ramos)
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