LEITURA - A construção da alegria líquida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

"Quero apertar em meus braços a beleza que ainda não veio ao mundo".
Essa frase de James Joyce (1882 1941) aparece nas páginas finais de "Um Retrato do Artista Quando Jovem", obra publicada originalmente em 1916. Classificado como romance de formação, retrata o processo de como um ser humano transforma-se em um artista.
Segundo a lenda, Joyce descobriu que poderia se tornar um artista escrevendo justamente sobre o processo de se transformar em um artista. O livro é fundamental para o entendimento da literatura do escritor irlandês considerado um dos escritores mais importantes do século 20.
Em "Um Retrato do Artista Quando Jovem" Joyce introduz em sua literatura o uso do monólogo interior, técnica narrativa que levaria ao extremo em livro seguinte, "Ulisses". Trata-se de uma linguagem narrativa onde é evidenciada a voz interior do personagem que circula dentro se seus pensamentos.
A editora Penguin acaba de lançar uma nova edição da obra, com tradução do curitibano Caetano W. Galindo. O tradutor dá prosseguimento ao trabalho de verter para a língua portuguesa o que chama de "kit-básico James Joyce". O projeto começou com a tradução do clássico "Ulisses", publicado pela Penguin em 2012. "Dublinenses", volume de contos que completa o "kit", deve ser lançado em 2017.
Os três títulos formam uma espécie de irmandade dentro da literatura do escritor nascido em 1882. As personagens de "Dublinenses" (1914) e de "Um Retrato de um Artista Quando Jovem" (1916) também estão presentes na obra prima "Ulisses", publicada originalmente em 1922. Stephen Dedalus, o herói de "Um Retrato do Artista Quando Jovem", por exemplo, é o mesmo anti-herói de "Ulisses". Na estrutura narrativa, "Dublinenses" e "Um Retrato...", servem de experiência para serem elevadas a um alto grau de elaboração no romance "Ulisses".
"Um Retrato do Artista Quando Jovem" traz a história de Stephen Dedalus vivendo entre a infância e a juventude na cidade de Dublin. Começa com as primeiras impressões da infância no universo doméstico. A relação com as pessoas próximas da família, cantigas infantis e percepções básicas como: "Quando se molha a cama, no começo fica quentinho; depois vai esfriando."
Nas primeiras páginas o romance pode transparecer a imagem de uma narrativa bobinha, próxima da tolice. Ao percorrer as páginas o leitor começa a perceber que Joyce faz o uso da linguagem de acordo com o processo mental da idade do personagem. Aos poucos a narrativa transforma, ficando mais elaborada, mais profunda, representando o caminho de amadurecimento do personagem.
Stephen Dedalus segue por ruas e escolas até entrar em um colégio interno jesuíta. Ao mesmo tempo em que tem uma educação através da literatura clássica, também é conduzido por uma educação católica, onde o pecado é um dos principais instrumentos de controle moral.
Mas como em todo adolescente, o desejo invade seu corpo. Quando passa a se abrigar no calor de prostitutas, a imagem do inferno invade sua mente. Através de epifanias (elemento muito utilizado por Joyce em seus escritos), Stephen Dedalus trava uma série transposições, entre conflito e comunhão, com o universo religioso, até atingir aquilo que realmente interessa: a estética.
Esse conflito é justamente aquele que colocará em suas mãos as ferramentas para seguir caminho como pensador livre, como artista, como esteta. Suas reflexões e aflições, sobre céu e inferno, criam um novo solo para colocar os pés no chão - fazer de sua vida aquilo que considera mais adequado para sua existência. Nesse caminho entram em jogo os princípios estéticos que Stephen Dedalus recebeu em sua educação e os princípios estéticos que desenvolveu pela própria cabeça.
Em "Um Retrato do Artista Quando Jovem", Joyce deixa claro que único caminho viável para a arte é a liberdade. E que aquele que se coloca no caminho da alegria líquida, no caminho de criação estética, necessariamente precisa se libertar de toda e qualquer amarra, peso, corda, âncora, doutrina e muros de contenção. A beleza só poderia ser gerara através da liberdade.
Joyce é o autor mais citado e pouco lido da literatura universal. Alguns o consideram um gênio, outros um autor difícil, erudito. Alguns o consideram o grande criador da literatura moderna, outros um escritor chato e inteligível. Independente das opiniões, a história da literatura ocidental contemporânea não seria a mesma sem as referências de linguagem da obra de Joyce.
Curiosamente "Um Retrato do Artista Quando Jovem" é o livro do autor mais editado no Brasil. Há edições, em diferentes e variadas traduções, disponíveis em livrarias e sebos, publicadas por editora como Civilização Brasileira, Alfaguara, Hedra, L&PM, Abril, Ediouro e Publifolha, entre outras.
Serviço:
"Um Retrato do Artista Quando Jovem"
Autor James Joyce
Editora - Penguin
Tradução e Notas Caetano W. Galindo
Prefácio Karl Ove Knausgard
Páginas 320
Quanto R$ 39,90



