Em "Um Retrato do Artista Quando Jovem", James Joyce deixa claro que o único caminho para a arte é a liberdade
Em "Um Retrato do Artista Quando Jovem", James Joyce deixa claro que o único caminho para a arte é a liberdade | Foto: Fotos: Reprodução



"Quero apertar em meus braços a beleza que ainda não veio ao mundo".
Essa frase de James Joyce (1882 – 1941) aparece nas páginas finais de "Um Retrato do Artista Quando Jovem", obra publicada originalmente em 1916. Classificado como romance de formação, retrata o processo de como um ser humano transforma-se em um artista.
Segundo a lenda, Joyce descobriu que poderia se tornar um artista escrevendo justamente sobre o processo de se transformar em um artista. O livro é fundamental para o entendimento da literatura do escritor irlandês considerado um dos escritores mais importantes do século 20.
Em "Um Retrato do Artista Quando Jovem" Joyce introduz em sua literatura o uso do monólogo interior, técnica narrativa que levaria ao extremo em livro seguinte, "Ulisses". Trata-se de uma linguagem narrativa onde é evidenciada a voz interior do personagem que circula dentro se seus pensamentos.
A editora Penguin acaba de lançar uma nova edição da obra, com tradução do curitibano Caetano W. Galindo. O tradutor dá prosseguimento ao trabalho de verter para a língua portuguesa o que chama de "kit-básico James Joyce". O projeto começou com a tradução do clássico "Ulisses", publicado pela Penguin em 2012. "Dublinenses", volume de contos que completa o "kit", deve ser lançado em 2017.
Os três títulos formam uma espécie de irmandade dentro da literatura do escritor nascido em 1882. As personagens de "Dublinenses" (1914) e de "Um Retrato de um Artista Quando Jovem" (1916) também estão presentes na obra prima "Ulisses", publicada originalmente em 1922. Stephen Dedalus, o herói de "Um Retrato do Artista Quando Jovem", por exemplo, é o mesmo anti-herói de "Ulisses". Na estrutura narrativa, "Dublinenses" e "Um Retrato...", servem de experiência para serem elevadas a um alto grau de elaboração no romance "Ulisses".
"Um Retrato do Artista Quando Jovem" traz a história de Stephen Dedalus vivendo entre a infância e a juventude na cidade de Dublin. Começa com as primeiras impressões da infância no universo doméstico. A relação com as pessoas próximas da família, cantigas infantis e percepções básicas como: "Quando se molha a cama, no começo fica quentinho; depois vai esfriando."
Nas primeiras páginas o romance pode transparecer a imagem de uma narrativa bobinha, próxima da tolice. Ao percorrer as páginas o leitor começa a perceber que Joyce faz o uso da linguagem de acordo com o processo mental da idade do personagem. Aos poucos a narrativa transforma, ficando mais elaborada, mais profunda, representando o caminho de amadurecimento do personagem.
Stephen Dedalus segue por ruas e escolas até entrar em um colégio interno jesuíta. Ao mesmo tempo em que tem uma educação através da literatura clássica, também é conduzido por uma educação católica, onde o pecado é um dos principais instrumentos de controle moral.
Mas como em todo adolescente, o desejo invade seu corpo. Quando passa a se abrigar no calor de prostitutas, a imagem do inferno invade sua mente. Através de epifanias (elemento muito utilizado por Joyce em seus escritos), Stephen Dedalus trava uma série transposições, entre conflito e comunhão, com o universo religioso, até atingir aquilo que realmente interessa: a estética.
Esse conflito é justamente aquele que colocará em suas mãos as ferramentas para seguir caminho como pensador livre, como artista, como esteta. Suas reflexões e aflições, sobre céu e inferno, criam um novo solo para colocar os pés no chão - fazer de sua vida aquilo que considera mais adequado para sua existência. Nesse caminho entram em jogo os princípios estéticos que Stephen Dedalus recebeu em sua educação e os princípios estéticos que desenvolveu pela própria cabeça.
Em "Um Retrato do Artista Quando Jovem", Joyce deixa claro que único caminho viável para a arte é a liberdade. E que aquele que se coloca no caminho da alegria líquida, no caminho de criação estética, necessariamente precisa se libertar de toda e qualquer amarra, peso, corda, âncora, doutrina e muros de contenção. A beleza só poderia ser gerara através da liberdade.
Joyce é o autor mais citado e pouco lido da literatura universal. Alguns o consideram um gênio, outros um autor difícil, erudito. Alguns o consideram o grande criador da literatura moderna, outros um escritor chato e inteligível. Independente das opiniões, a história da literatura ocidental contemporânea não seria a mesma sem as referências de linguagem da obra de Joyce.
Curiosamente "Um Retrato do Artista Quando Jovem" é o livro do autor mais editado no Brasil. Há edições, em diferentes e variadas traduções, disponíveis em livrarias e sebos, publicadas por editora como Civilização Brasileira, Alfaguara, Hedra, L&PM, Abril, Ediouro e Publifolha, entre outras.

Serviço:
"Um Retrato do Artista Quando Jovem"
Autor – James Joyce
Editora - Penguin
Tradução e Notas – Caetano W. Galindo
Prefácio – Karl Ove Knausgard
Páginas – 320
Quanto – R$ 39,90

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A construção da alegria líquida
Aí ele se afastou da porta e Wells foi até Stephen e disse: – Diga, Dedalus, você beija a sua mãe antes de ir dormir? Stephen respondeu. – Beijo sim. Wells se virou para os outros colegas e disse: – Olha só, tem um sujeitinho aqui que diz que beija a mãe toda noite antes de ir dormir. Os outros colegas pararam a partida e se viraram, rindo. Stephen enrubesceu diante dos olhos deles e disse: – Não beijo não. Wells disse: – Olha só, tem um sujeitinho aqui que diz que não beija a mãe antes de ir dormir. Eles todos riram de novo. Stephen tentou rir com eles. Sentia o corpo inteiro quente e perdido ao mesmo tempo. Qual era a resposta certa para aquela pergunta? Ele tinha dado duas e Wells ainda estava rindo. Mas o Wells devia saber a resposta certa, já que ele era da terceira de gramática. Ele tentou pensar na mãe do Wells, mas não tinha coragem de erguer os olhos para o rosto dele. Ele não gostava da cara do Wells. Foi o Wells quem deu um encontrão nele para ele cair na vala do pátio no dia anterior só porque ele não quis trocar a caixinha de rapé pela castanha da sorte do Wells, vencedora de quarenta batalhas. Foi uma coisa muito feia; todos os alunos disseram que foi mesmo. E como estava fria e nojenta aquela água! Uma vez um colega viu uma ratazana pular naquele nojo. A gosma fria da vala cobriu-lhe o corpo todo; e, quando o sino tocou para a hora de estudar e as linhas foram saindo das salas de jogos, ele sentiu o ar gelado do corredor e da escadaria por dentro das roupas. Ainda tentava pensar em qual seria a resposta certa. O certo era beijar a mãe ou não beijar a mãe? O que um beijo significava? Você ergue o rosto desse jeito assim para dizer boa-noite e aí a mãe dele baixava o rosto. Era isso, um beijo. A mãe punha a boca na bochecha dele; a boca era macia e deixava a bochecha molhada; e fazia um barulhinho: beijo. Por que será que as pessoas faziam aquilo com o rosto? (Fragmento de "Um Retrato do Artista Quando Jovem", de James Joyce)
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