LEITURA - A conspiração dos dados
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Como um incêndio que começa com uma fagulha. Basta uma pequena quantidade de material inflamável e o fogo se multiplica. Como numa queda de peças de dominó, um incêndio impulsiona outro. As fagulhas voando como pássaros enlouquecidos, as chamas mastigando toda forma mais próxima com seus dentes quentes.
''O Grande Jogo de Billy Phelan'', romance do norte-americano William Kennedy, carrega fagulhas voando através das páginas. Quando o primeiro incêndio surge, o fogo se espalha como vírus, contaminando tudo à sua volta. O cheiro de pele queimada e alma chamuscada tomam conta do calor da narrativa.
Lançado pela editora Cosac Naify, ''O Grande Jogo de Billy Phelan'' é um dos romances de William Kennedy que integram o chamado ''ciclo de Albany'', histórias que possuem como palco o submundo da Albany, capital do estado de Nova York. Todas ambientadas no período da Depressão, na época da Lei Seca, os personagens dessas histórias trafegam entre bêbados e vagabundos , entre gangsteres e políticos de ficha negra.
''O Grande Jogo de Billy Phelan'' narra a história de Billy, um sujeito que tem o lema ''se virar'' como princípio existencial. Jogador obstinado, coloca o jogo no mesmo patamar que as necessidades mais vitais como comer, beber e respirar. Seja jogo de cartas, sinuca, boliche, turfe, dados ou dardos. Todo tipo de jogatina é uma aposta a ser realizada com arte na direção da vitória. Ou, quem sabe, na direção da derrota. Tanto faz. Sua principal conduta é pagar o que deve. Algo como herói entre a sordidez e a metafísica.
A sorte de Billy começa a mudar quando recebe a incumbência de atuar como informante na investigação de um sequestro. A vítima, no caso, é seu amigo de infância Charlie, primogênito de uma família de políticos que controla toda a jogatina ilegal da cidade. O problema de Billy, que circula com desenvoltura pelo submundo, é sua total independência diante do submundo. Hesitando entre ser dedo-duro e se submeter às regras do poder criminoso, passa a ser impedido de circular pela cidade. Todos os bares se fecham na sua cara. Todos os garçons se recusam a lhe servir uma dose. Todas as rodas de jogo proíbem sua entrada.
Billy Phelan é um dos personagens mais sedutores criados por William Kennedy. Imerso em ambientes pouco recomendados, rodeado por bêbados e malandros, detém uma ética pessoal completamente particular diante do mundo onde circula. Descendente de irlandeses católicos, entende a discriminação como pedra, rocha, fato intransponível. Na infância viu o pai sair de casa para comprar cerveja e nunca mais voltar. Uma das únicas lacunas em sua vida que se expressa em alguns momentos.
A história do pai de Billy, Francis Phelan, é narrada por William Kennedy em seu romance mais conhecido, ''Ironweed''. O livro foi publicado no Brasil em 1981 pela editora Francisco Alves com título ''Vernônia'' e hoje pode ser encontrado em sebos. Foi transformado em filme, em 1987, por Hector Babenco com Jack Nicholson no papel principal. A Cosac Naify promete lançar uma nova edição de ''Ironweed'' em maio e, no segundo semestre, ''Velhos Esqueletos'' com mais um relato da peculiar família Phelan.
Em ''Ironweed'' (nome de uma flor tóxica da família do girassol que na América do Sul recebe designação de vernônia), são revelados os detalhes que fizeram Francis, o pai de Billy, abandonar a família e se tornar um bêbado inveterado e mendigo de rua. Tudo possui relação com a morte de seu filho recém nascido que caiu de seus braços num momento de breve descuido. Um trágico segredo guardado ao longo de décadas. Mais do que isso, é um dos primeiros romances exemplares sobre a vida dos andarilhos de rua que sobrevivem entre o alcoolismo e as sopas solidárias.
E Billy se inclinou, encaçapou todas as bolas da mesa, armou um novo triângulo, matou todas e, depois de armar de novo o jogo, matou uma boa parte delas. Errou uma bola difícil. Harvey conseguiu matar oito e depois foi novamente a vez de Billy, que acabou com a partida, cem contra doze de Harvey, que, mesmo com a vantagem de quarenta pontos, só chegou a 52. Billy guardou o taco na taqueira, sentindo que tinha cumprido o seu dever. Os imbecis têm necessidade de humilhação, e é obrigação de gente como Billy responder à sua demanda. Os imbecis precisam ser pisoteados por causa de seu amor pela ignorância, e também porque esperam demais da vida. Um imbecil nunca percebe que um sujeito como Billy tinha passado seis horas por dia nas mesas de bilhar de toda a Albany, anos a fio, para aprender a se livrar da sua própria ignorância.
(Fragmento de O Grande Jogo de Billy Phelan de William Kennedy)
SERVIÇO
Autor - William Kennedy
Editora - Cosac Naify
Tradução - Sergio Flaksman
Quanto - R$ 55 (344 pág. capa dura)


