O escritor mineiro Luiz Ruffato, em 2010, recebeu pelo correio a correspondência de um sujeito chamado Dório Finetto. No pacote, além de uma carta explicando suas intenções, havia o manuscrito de um livro.
Consistia numa série de histórias que o remetente ouviu ao longo de sua vida em suas viagens como funcionário do Banco Mundial pelos quatros cantos do mundo. Em cada lugar que se hospedava, alguém lhe contava a própria história em tom de confissão.
Ao longo das décadas, Dório registrou essas narrativas e, no final da vida, gostaria que Ruffato as transformasse em um romance. Não desejava nenhuma coautoria do livro, nem que o escritor preservasse a fidelidade das informações. Gostaria que ele fizesse o que bem entendesse com as histórias, seu grande objetivo era apenas passá-las adiante.
O resultado desse processo é "Flores Artificiais", novo romance de Luiz Ruffato lançado pela editora Companhia das Letras. O livro é formado por uma série de relatos independentes, na voz de diferentes pessoas em diversos países do mundo nas mais variadas situações.
Pouco importa se a figura de Dório Finetto é real ou foi criado pelo escritor para dar forma ao conceito do romance. Trata-se de um recurso bastante utilizado em literatura, a tentativa de tirar das costas do escritor a autoria da ficção atribuindo-a uma outra voz, uma voz real, não ficcional. Uma estratégia de estrutura narrativa.
O próprio Ruffato já lançou mão desse recurso em outros dois livros. Em "De Mim já Nem se Lembra" (2007) compilou cartas da década de 1970 entre seus familiares. Em "Estive em Lisboa e me Lembrei de Você" (2009) apresenta a degravação de fitas gravadas do depoimento de um imigrante brasileiro em Portugal.
Em cada relato uma cena se repete. A solitária figura de Dório sentado em algum canto, bar, banco, hotel ou restaurante. Pode ser em Minas Gerais, Beirute, Uruguai, Havana, Timor Leste, Buenos Aires ou Hamburgo. Logo surge outra figura igualmente solitária que se dispõe a conversar com Dória, contar sua vida, revelar seus segredos. O encontro de duas pessoas desconhecidas que travam contato por algumas horas e nunca mais se encontrarão na vida. A confidência a um estranho passa a ser mais determinante do que a feita a um amigo.
As pessoas com quem Dório conversa (na verdade ouve) querem, de alguma maneira, um ouvido que não emita opinião, que não faça julgamento. Essa é a lógica de narrar a própria história para um desconhecido.
Entre as figuras presentes nos relatos, há pessoas solitárias que arrastam a história de suas vidas como se arrastassem vagões invisíveis carregados com toneladas de marcas que determinaram o destino. Pessoas comuns que guardam um arsenal de desilusões dentro de suas existências cotidianas. Pessoas que, em determinado momento, perderam algo que não pode ser reconquistado, ou que achavam que possuíam até o sol se esconder atrás das nuvens.
Em "Flores Artificiais", Luiz Ruffato encampa uma das características da literatura europeia contemporânea, a de colocar países, povos e culturas se misturando no grande mapa de circulação humana do planeta. As personagens vivem longe de suas raízes, longe de suas origens, de maneira deliberada. Seja para fugir de algo, ou encontrar algo que não possuem ideia.
O grande sentido não está mais nas grandes histórias monumentais, apoteóticas e incomparáveis, mas na história que reside em qualquer pessoa.

SERVIÇO
"Flores Artificiais"
Autor – Luiz Ruffato
Editora – Companhia as Letras
Páginas – 152
Quanto – R$ 34 e R$ 24 (e-book)

De pé, no hall do hotel, acompanhava o noticiário de televisão, que mostrava imagens do Rio da Prata invadindo ruas e casa de bairros da periferia de Buenos Aires, frustrado por não poder percorrer as calçadas arborizadas com seus cafés elegantes, como havia planejado para meu último dia na cidade, quando ela falou, É a Sudestada. Eu não a havia percebido antes, sentada atrás de mim. Sorri, e me desculpei, em castelhano, Estava impedindo a sua visão? Simpática, respondeu, Não, não, e com um sotaque francês, que a deixava mais charmosa em seus erres carregados e acentos tônicos finais, continuou, Estava dizendo que a chuva é o que os argentinos chamam de Sudestada. A escuridão engolia a manhã e lá fora a água caía do céu em chibatadas. Sorri de novo, e só então a observei sob a luz esmaecida; magra, mas não muito, cabelos pretos, olhos castanho-esverdeado. O senhor não quer sentar?, a tempestade ainda demora. É a Tormenta de Santa Rosa... Com prazer, respondi arrastando a cadeira e fazendo sinal para o garçom. (Fragmento de "Flores Artificiais", de Luiz Ruffato)
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