LEITURA - A configuração dos lúcidos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Os pais tendem a jogar seus caminhões de aspirações nas costas de seus filhos. Como se os filhos fossem uma extensão lógica de suas vidas, os pais os elegem como construções de suas vontades particulares. A projeção de velhos desejos frustrados e a proteção exacerbada na cúpula de vidro.
Martin Dean é um desses típicos pais que se empenha o máximo para que seu filho seja uma construção moldada por suas mãos. Uma requintada obra, o ser humano ideal para os dias atuais. Mas não um ser humano ajustado ao mundo, pelo contrário, uma pessoa com a boca inchada de saliva para cuspir na coleção de hipocrisia da humanidade. Muito mais que um filho, um verdadeiro projeto filosófico.
Martin Dean é personagem de ''Uma Fração do Todo'', livro do escritor australiano Steve Toltz que acaba de ser lançado pela editora Record. Nomeado de 'romance de ideias', ou 'romance filosófico', trata-se de uma obra com a clara intenção de quebrar vitrines e derrubar monumentos. Tudo através de um desfile de ironias, humor negro, cinismo e ceticismo.
''Uma Fração do Todo'' narra a história da família Dean - os irmãos Martin e Terry, e Jasper, filho de Martin. Terry é um jovem delinquente que se transforma no criminoso mais procurado da Austrália por assassinar atletas corruptos que recebem propinas para alterar os resultados dos jogos.
Martin tinha tudo para seguir os passos do irmão mais velho, mas optou pelos livros e pelo conhecimento filosófico e pela ironia do mundo. Ao precisar criar sozinho, após o suicídio da mãe, seu pequeno Jasper, elege como sua obra no mundo esculpir o filho para ser um crítico ferino da humanidade. Edificar uma criança sem qualquer tipo de ilusão, seja social ou psicológica.
Jasper tinha tudo para se rebelar contra o pai, justificando todo seu aprendizado. Mas não, opta em viver o amor e o ódio numa relação inovadora e ariscada. Na narrativa, é ele o personagem que oferece a maluca abrangência do labirinto de histórias dentro de histórias.
Num primeiro momento, o autor apresenta três visões de um mesmo procedimento: a necessidade de manter a cabeça acima do rebanho, acima da multidão sem rosto. Seja para enxergar a existência com maior clareza, seja para empreender escolhas mais diferenciadas, individuais e arriscadas. Num segundo momento, o real sentido se revela: a necessidade de não seguir o rebanho, seguir ideias próprias, pensamentos que não se ajustam às mascaras das massas.
Um dos destaques de ''Uma Fração do Todo'' está na capacidade de Steve Toltz criar constantes reviravoltas no enredo. Quando a história começa ganhar alguma normalidade e previsibilidade, imediatamente a narrativa dá um salto e segue na direção contrária. Rumos imprevisíveis que se encaixam sem grandes arestas.
''Uma Fração do Todo'' se aproxima do picaresco. Mas a constante presença de leituras críticas e lógicas ao lado de leituras delirantes, segue uma direção além da clássica figura do pícaro. Steve Toltz é uma máquina de ótimas tiradas e ironias cavalares, situações onde não é o caso de definir o certo e o errado, o que é bem e o que é mal, mas a lucidez de uma leitura ácida do ser humano contemporâneo preso num beco sem saída.
Todo tipo de contradição está presente nos personagens de ''Uma Fração do Todo''. Aquele tipo de contradição existente na gestação do pensamento até que ele consiga ficar em pé com suas próprias pernas, não com a ajuda daquele que o criou. Uma revelação literária que vem ganhando espaço nos países onde o livro tem sido publicado. Trata-se do primeiro romance de Steve Toltz (nascido em 1972, em Sydney) que, antes de se dedicar à literatura, percorreu o mundo trabalhando em empregos de baixa remuneração. Como primeira obra, surpreendente.
SERVIÇO
Uma Fração do Todo
Autor - Steve Toltz
Editora - Record
Tradução - Janaína Marcoantonio
Páginas - 658
Quanto - R$ 65,90
Ouça Jasper. O orgulho é a primeira coisa que você tem que abandonar na vida. Serve apenas para fazê-lo se sentir bem consigo mesmo. É como vestir um terno em um espantalho e levá-lo ao teatro e fingir que é alguém importante. O primeiro passo para a libertação pessoal é se livrar do amor-próprio. Eu entendo por que é útil para alguns. Quando as pessoas não têm nada, ainda podem ter seu orgulho. É por isso que deram aos pobres o mito da nobreza, porque as despensas estão vazias. Está me ouvindo? Isso é importante Jasper. Eu não quero que você tenha nada de nobreza, orgulho ou amor-próprio. São ferramentas que só vão ajudá-lo a banhar sua cabeça em bronze.
(Fragmento de Uma Fração do Todo, de Steve Toltz)


