LEITURA - A claridade das sombras
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de maio de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Você pode rastelar o livro de ponta a ponta e não encontrará nenhuma demonstração de alegria. Elas estão do outro lado da montanha, escondidas para não serem incomodadas.
Também não encontrará uma única lágrima escorrendo de alguma face. As únicas visíveis são justamente aquelas que secam antes de surgirem no canto dos olhos.
Pode ser descrita como uma literatura que não procura exibir os dentes, podres ou sadios, da alegria. Muito menos alaga a terra de lágrimas. Apenas guarda tudo na bagagem do pensamento até o dia da grande explosão.
O livro chama-se ''Livro dos Homens'' e acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify. Trata-se da segunda obra publicado pelo escritor cearense Ronaldo Correia de Brito. Reúne 13 contos carregados de uma narrativa madura e substancial, pontuados por uma sucessão de silêncios que gritam estradas de significados.
Em seu primeiro livro, ''Faca'', Ronaldo Correia percorria histórias imersas pela aridez do sertão brasileiro. Ao mesmo tempo transcendia as condições geográficas e culturais para entrar no caráter universal dos conflitos interiores humanos. O peso das personagens femininos era evidente, mulheres fazendo do destino uma obsoleta arma de guerra. Uma literatura que surpreendia pelo seu refinamento estilístico.
Em ''Livro dos Homens'', o escritor mantém suas melhores características narrativas e apresenta novos elementos. Parte do universo do sertão para inserir elementos urbanos nas histórias. Faz isso como se realizasse uma ponte de mão dupla, onde campo e cidade dialogam pelas diferenças, pelas desigualdades. Sugere que os dramas podem ser diferentes, mas os sentimentos são praticamente os mesmos com maior grau de complexidade.
Se em ''Faca'' grande parte dos personagens estava imerso no sertão, e dele tiravam sua visão de mundo, em ''Livro dos Homens'' ocorre uma processo de deslocamento. A evidência dos dramas de trânsito. Surgem personagens de deixam os elementos urbanos para viverem a atmosfera do sertão. Como também surgem personagens que deixam os elementos do sertão para viverem a atmosfera urbana.
Nesse processo de mão dupla, não existe alegria nem tristezas em evidência. Ambas são engolidas, como um verme invisível que fatalmente devorará as entranhas sem pressa, de maneira silenciosa e cruel.
Nascido em 1950 na pequena cidade de Saboeiro, sertão dos Inhamuns no Ceará, Ronaldo Correia de Brito é um escritor pouco desconhecido. Médico residente em Recife, escreveu vários textos teatrais e roteiros de curta metragem, passou a ganhar maior visibilidade com a publicação de ''Facas'', em 2003, pela Cosac Naify.
Com uma narrativa atemporal, Ronaldo Correia trabalha com o universo arcaico do sertão no nordeste brasileiro de maneira contemporânea. Utiliza a tradição oral do sertanejo e, ao mesmo tempo, a estrutura dos contos modernos, onde o desenrolar do enredo é parte importante e determinante do conteúdo. O resultado impressiona pelo mergulho narrativo, exato e rico, que realiza em busca da atormentada claridade das almas que aspiram sombra. Histórias construídas e lapidadas com os dedos do solitário tempo.
Serviço:
- ''Livro dos Homens'' de Ronaldo Correia de Brito, 176 páginas, R$ 29,50.


