Momentos decisivos. Mudanças determinantes. Situações inesperadas. Basta juntar tudo isso para fazer um pequeno abalo na vida das pessoas. Não o tipo de abalo que é imediatamente visível, mas aquele que só pode ser vislumbrado com o rangido das engrenagens do tempo.
Esse tipo de abalo está presente na maioria dos contos de ''História do Pé e Outras Fantasias'', primeiro livro publicado pelo escritor francês J. M. G. Le Clézio após ser agraciado com prêmio Nobel de Literatura em 2008. Lançado pela editora Cosac Naify, a obra traz nove contos de temáticas diversas que convergem para um ponto comum: a solidão diante do abalo de momentos, mudanças e situações.
Esqueça a solidão chorando abraçada ao travesseiro, enxugando lágrimas em lenços de papel perfumado. A direção é outra. O foco está na solidão que cerca os momentos em que as pessoas precisam agir sozinhas o mundo. Sobreviver aos abalos contando apenas com o próprio impulso.
O conto que dá título ao livro, ''História do Pé'', narra a trajetória de uma jovem que desde a infância considera feios os próprios pés. Sua maneira de ver o mundo é influenciada, de maneira subjetiva, pela forma dos pés. Quando se apaixona por um rapaz que possui os pés que ela nunca tinha imaginado, pés esculpidos com beleza para permanecerem sempre no chão, ocorre o abalo. Pés que proclamam que a esperança é um engodo e que não devemos esperar alguma coisa do mundo. Nada. E que o mundo não existe para satisfazer nossos desejos.
Le Clézio propõe uma história de como pessoas completamente diferentes se apaixonam e vivem entre o amor e o distanciamento. E sobre as consequências que caem sobre o ponto mais fraco, o amante que deseja proximidade total, formar uma unidade com o outro. Grávida e abandonada pelo namorado, cabe à jovem fazer as pazes com os próprios pés, sua base de sustentação no mundo.
''A Árvore de Yama'' é outro belo conto presente no volume. Narra a história de uma garota órfã criada numa instituição de freiras europeias. Uma menina africana de um país imerso numa guerra civil, uma guerra que destrói tudo o que encontra pela frente.
Seu destino é vagar em busca do lugar onde nasceu, onde existe uma enorme árvore sobre a qual sua avó materna contava surpreendentes histórias. Quando encontra a árvore, passa a viver escondida num buraco do tronco. Do lado de fora do buraco, a violência da guerra e os animais selvagens colocam fogo no mundo. Do lado de dentro, recolhida numa espécie de segundo útero, retorna às origens de sua mãe e avó. Útero, coração e cultura formam um único abrigo.
Dos contos que integram ''História do Pé e Outras Fantasias'', sete são protagonizados por figuras femininas resistentes. Outra característica está no pano de fundo que o autor insere em cada narrativa. Todas se passam em algum lugar onde o imperialismo francês cravou sua bandeira. Passado e presente se misturam entre laços culturais, correntes migratórias, miscigenação, desterritoriazação, violências étnicas e esperanças futuras. O antigo e o contemporâneo carregam as mesmas consequências coloniais.
Nascido em 1940, autor de mais de 40 livros, Jean-Marie Gustave Le Clézio coloca o ser humano em primeiro plano e as condições que ele está inserido em segundo. As duas coisas se misturam com tamanha sutileza que os limites desaparecem. Os planos se convertem num único plano, o todo, a realidade.
Invariavelmente as personagens de ''História do Pé'' acalentam a possibilidade de mudarem a situação em que estão inseridas. Não sabem exatamente como fazer isso, mas acalentam a esperança de que, apenas por viverem aquilo que vivem, estão mudando as coisas.
Personagens imersas em algum tipo de solidão. A solidão das experiências não compartilhadas, a solidão do peso que não pode ser dividido. A solidão de sentir aquilo que só cabe numa única pessoa. A solidão de ver a violência de o mundo dilacerar corpo e alma e nada poder fazer. A solidão de acreditar em algo que faz sentido apenas para você mesmo. E, por fim, a solidão de não saber o que fazer da própria solidão.
Mudanças inesperadas. Situações decisivas. Momentos determinantes. Basta juntar tudo isso para fazer um pequeno abalo com o tempo em sua fúria centrípeta.

Serviço:
- ''História do Pé e Outras Fantasias''
Autor - J. M. G. Le Clézio
Editora - Cosac Naify
Tradução - Leonardo Fróes
Páginas - 288
Quanto - R$ 59,90

FRAGMENTO:
Agora Ujine está de pé na beira do precipício. Afasta os braços do corpo mas não muito, como asas que apenas se levantam. Ela já tem pela frente a luz da aurora, que lhe entra até o fundo dos olhos, que a abraça no apelo irresistível. Aí vou eu, pensa ela, é agora e já. Sente, a rodeá-la, um olhar insistente, olhar sem olhos que a penetra e transpassa, e no céu plano ela vê um rosto se esboçando, rosto sem traços, pálido e liso como a lua que nasce. O apelo, a voz, e para unir-se ao infinito, ser livre, voar, sem memória, sem sofrimento, suspensa entre o céu e a terra, entre duas vidas, até o sonho.
Ela está na borda do terraço. Os dedos dos pés se agarram com força no cimento, sob cada falange ela sente o granulado áspero e frio, um tato corroído pelos ventos e chuvas que passam pelo topo do imóvel desde sua construção. No espírito, na cabeça de Ujine já está o grande salto para o estacionamento lá embaixo, seu corpo se abre desmembrado, o sangue já lhe empapa o pescoço e estende sobre os olhos uma membrana escarlate, o sangue que se reparte em filetes ao escorrer entre as rodas dos carros. Forma-se um todo que produz um ruído, não ruído, aliás, antes uma tênue clausura que envolve o céu, o mar, o terminal e até a s plantações de Eulália.
Seus pés se negam. Afastaram-se os dedos, que são tão fortes que não desenraizam. Que não desgrudam da borda de cimento. Que levam sua energia até o centro do corpo de Ujine, transformam suas pernas em postes de ferro, enrijecem-lhe a coluna vertebral e jogam para trás a cabeça! Seus pés não ouvem o canto das sereias! Estão vivos e não querem morrer.

(Fragmento do conto ''História do Pé'' que integra o livro de J. M. G. Le Clézio)

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