O papel do canalha sempre serviu como uma luva para a eterna legião masculina. As atitudes mais vis e infames sempre estiveram vinculadas aos homens. O papel de vítima estava reservado às mulheres.
A escritora carioca Martha Mendonça resolveu dar uma reviravolta nesses papéis e expor situações em que as mulheres são tão canalhas quanto os homens. Resultado está em ‘‘Canalha, Substantivo Feminino’’, livro que acaba de ser lançado pela editora Record e deve deixar as militantes feministas de cara amarrada.
A obra reúne seis contos protagonizados por diferentes mulheres com uma particularidade comum: fazer de tudo para que o outro se dane. A autora resume as características desse tipo feminino com as seguintes palavras: ‘‘A canalha não é a mulher que se vinga do homem porque ele a fez sofrer. Ela não é a ex-mulher que aliena os filhos dos pais e nem a ex-namorada que arranha o carro do cara quando leva um pé-na-bunda. A canalha age por prazer, por necessidade de manipular e se dar bem.’’
São as histórias de Larissa, Cristina, Ângela, Diana, Ingrid e Mariana. Cada uma utilizando as armas disponíveis para sentir prazer com a desgraça alheia. Larissa, por exemplo, é uma jovem estagiária que faz de tudo para que seu chefe se separe da esposa para ficar com ela. Quando finalmente o sujeito chuta para o alto mulher e filhos, Larissa simplesmente muda de emprego e desaparece.
Ângela é uma promotora de eventos balzaquiana que se torna amante do primeiro namoradinho da filha. Enquanto a garota está na escola, ela está no sofá com o menino. Tudo para levantar sua astronômica auto-estima. Quando a casa cai e a filha desaparece, sua conclusão é simples: ‘‘Se arrependimento matasse, eu viveria para sempre’’.
Mariana é uma arquiteta que não sossega enquanto não consegue roubar o marido de uma antiga amiga do colégio. Na realidade não está interessada no marido da outra, mas numa vingança que deve ser degustada entre pedras de gelo.
Tem ainda a loira que faz de tudo, tudo mesmo, para se transformar na gostosa da televisão. Aquela que, enquanto faz um pacto de se casar virgem com o noivo, distribui favores sexuais para toda a cidade. Também tem aquela que mata o marido aos poucos trocando seus remédios.
As mulheres de ‘‘Canalha, Substantivo Feminino’’ são frias e malvadas. Não sentem nenhum tipo de culpa. Não conhecem a palavra remorso. Não sentem nenhum fiapo de arrependimento. Sentem prazer em utilizar o outro como escada. Para atingirem seus objetivos, utilizam uma boa dose de inteligência maldosa e a grande arma da sedução sexual.
Mulheres que são tão canalhas quantos os canalhas masculinos tradicionais. A idéia é muito mais bem humorada do que provocadora: a igualdade entre os sexos chegou até na canalhice.
São personagens colhidas por Martha Mendonça na avenida do senso comum: ‘‘A maior canalha é aquela que sabe se fazer de vítima. Mulheres passionais, transparentes, até podem ser canalhas. Mas o perigo maior está nas quietinhas, que se fazem de impotentes e conseguem que todos ao redor vivam em função delas. São aquelas que melhor manipulam todo mundo e chegam mais rápido aos seus objetivos.’’
‘‘Canalha, Substantivo Feminino’’ é aquele tipo de obra onde a ideia é mais interessante do que o resultado literário. E sem culpa.

SERVIÇO

- Canalha, Substantivo Feminino
- Autor - Martha Mendonça
- Editora - Record
- Páginas - 144
- Quanto - R$ 29,90

Quando se trata de fingir orgasmo, toda mulher é uma Fernanda Montenegro. Por que eu fingia sempre? Muito simples. Para acabar logo. Experimente dizer a um homem: ‘‘Olha, eu não estou a fim hoje, nunca vou chegar lá, mas você pode me usar, desde que seja rapidinho, tá bom? É que eu quero fazer as unhas, ler minha revista, dormir... Mas vai fundo, fique a vontade, só não passa de dez minutos, ok?’’ Imagine se eles iriam concordar! Nunca. Para eles isso é quase como brochar. Os homens querem que a gente goze. Dizem que é porque têm prazer com o nosso prazer, mas, convenhamos, é mentira. Cada gemido feminino engrandece o mundo interior de cada macho.
(Fragmento do conto ‘‘Cristina, 48 anos, Dentista’’ que integra ‘‘Canalha, Substantivo Feminino’’, de Martha Mendonça)

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