LEITURA - A brutalidade do destino
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de julho de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Jack é um ator diferente da maioria dos artistas. Seja no teatro ou no cinema, se recusa interpretar personagens que se parecem com ele, personagens que possuem características próximas de sua psique.
Na verdade Jack é incapaz de representar a si mesmo. Pois, se fizesse isso, seria como revelar para a platéia aquilo que ele realmente é, uma intimidade que deve permanecer oculta.
Walter é um sujeito que cumpriu todas as obrigações da vida de maneira correta. Assessor de político influente, é um advogado capaz de resolver qualquer conflito, convencer qualquer pessoa sobre a postura mais sensata.
Na verdade Walter realiza as ações mais corretas na tentativa de reparar um erro do passado. Um erro que, associado ao preconceito, custou a vida de homem.
Walter e Jack são os personagens principais de ''O Rei Morreu'', romance do escritor norte-americano Jim Lewis lançado pela Editora Companhia das Letras. Embora sejam pai e filho, cada um vive em seu próprio tempo, em seu próprio espaço. Pai e filho seguem a vida guardando uma tragédia dentro da mente. Independentes, cada um cuida de sua tragédia particular gerada pelos princípios do amor.
Quando está disposto a abandonar a profissão de ator, Jack recebe a proposta de atuar num filme onde deve representar seu próprio papel no mundo. O enredo retrata, subjetivamente, as questões mais profundas de sua existência. Enquanto reflete sobre a proposta, empreende uma viagem em direção ao passado na tentativa de reparar os danos que o perseguem.
Em ''O Rei Morreu'' o destino de pai e filho são semelhantes. Na vida de ambos, uma hora ou outra a brutalidade das ações colocam tudo de ponta cabeça. Situações onde o amor é capaz de gerar as piores consequências e a separação assinala o fruto da tragédia. O destino de Jack é desenhado com imagem e semelhança ao destino de Walter. Não se trata do filho seguir os passos do pai, mas justamente por desconhecer os passos do pai, o filho vive situações recorrentes.
Em ''O Rei Morreu'' Lewis utiliza vários recursos narrativos para compor o romance. Atirando na direção de várias linguagens de direções, faz muito mais um exercício de condução narrativa do que uma obra unificada. Coloca em ação uma das características que se tornou usual na literatura norte-americana contemporânea, a utilização de histórias paralelas para narrar a história principal.
Quando precisa apresentar um momento determinante da trajetória de um personagem principal, insere a história de um personagem secundário para traçar uma moldura. Para retratar, por exemplo, Walter vagando pelas ruas em prantos após pegar a esposa na cama com outro homem, narra a história de um transeunte que presencia as lágrimas de Walter e percebe sua dor.
''O Rei Morreu'' é o terceiro romance escrito por Jim Lewis. Nascido em 1963 e professor da Universidade de Columbia, sua escrita se revela como uma literatura ainda em formação, onde soluções são testadas e experimentadas sem um conceit o unificador.
Embora ''O Rei Morreu'' carregue em suas páginas dilemas trágicos entre a razão e a loucura, o autor realiza a opção por algumas doses de otimismo. Não no sentido gratuito, mas no sentido de mostrar que a vida segue em frente independente do julgamento das ações. Um lugar onde a criação e a destruição tomam café na mesma xícara.
Serviço:
- Livro ''O Rei Morreu'', de Jim Lewis. Editora Companhia das Letras, tradução de Luiz Antonio Oliveira de Araújo, 336 páginas, R$ 45,00.


