LEITURA - A brisa que o mar respira
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Em algum momento é necessário abandonar a adolescência e entrar no mundo adulto. Da mesma maneira, em algum momento é preciso deixar a terra natal e entrar numa grande cidade. Essas duas transições marcam a existência da personagem narradora de "Tsugumi", romance da escritora japonesa Banana Yoshimoto.
No Brasil alguém com nome de Banana seria motivo de chacota, mas no Japão é motivo de orgulho. Foi a própria escritora que escolheu o nome. Nascida Mahoko Yoshimoto em Tóquio, em 1964, adotou o pseudônimo Banana pela devoção que possui pelas flores de bananeira (popularmente conhecidas como "coração de bananeira").
Banana Yoshimoto, ao lado de Haruki Murakami, é um dos nomes mais populares da literatura japonesa contemporânea. "Tsugumi", lançado pela editora Estação Liberdade, é sua segunda obra publicada no país. A primeira, "Kitchen", foi publicada em 1995 pela editora Nova Fronteira e pode ser encontrada atualmente apenas em sebos.
Uma das características da literatura de Banana Yoshimoto está na presença cada vez maior de elementos ocidentais no cotidiano da população japonesa das últimas décadas. A milenar tradição oriental passa a existir misturada com a pós-modernidade ocidental. O próprio nome da personagem narradora, Maria, já é um indício dessa mistura. Em "Kitchen", por exemplo, há uma personagem que odeia ingredientes da culinária japonesa. Há também um pai de família que muda de sexo após ficar viúvo: sua crença é de que, para cuidar do filho, precisa ser mulher. Nas histórias da escritora há uma forte predominância de personagens femininos, principalmente jovens.
"Tsugumi" é um relato intimista de Maria, uma jovem que sempre viveu numa pequena cidade litorânea situada na península de Izu. Residindo na pousada onde a família trabalha, possui como companhia duas primas da mesma idade, Tsugumi e Yoko. Sua vida se transforma quando o pai, amante de sua mãe, resolve divorciar-se da esposa e assumir a família paralela. Após mudar-se para Tóquio com a nova família, Maria começa a passar as férias na cidade natal na companhia das primas.
Embora Maria atue como condutora da narrativa, o papel de personagem principal recai sobre a figura da bela Tsugumi. Dona de uma saúde frágil e coroada de doenças crônicas desde o nascimento, ao longo da existência a moça sempre viveu em constante risco de vida. A morte sempre presente. Mesmo com uma saúde debilitada, completamente vulnerável, dependente da ajuda de familiares e amigos, Tsugumi manifesta uma personalidade cruel, ardilosa, mimada, ríspida, egoísta, desagradável, déspota e desbocada.
Tsugumi é aquele tipo de figura que contradiz o senso comum que prega que toda pessoa doente, dependente e frágil deve ser boa, agradecida e inundada de paciência. Algo como um devotado boi de presépio necessitaria da generosidade alheia. Mas, justamente por existir extremamente próxima da morte, sua conduta passa a ser da total ausência de conveniências e concessões. Por estar inundada de dor e próxima da morte, a verdade da vida assume proporções desconcertantes em seu comportamento.
Cabe a Maria entender o ímpeto rebelde de Tsugumi. E, juntamente, entender seu próprio destino. Como contraponto elege a atmosfera litorânea como remédio. O mar, e os elementos que ele espalha entre humanos, se revela elemento determinante na narrativa. Ventos, maresia, aromas, umidade, estações, temperaturas e texturas delineiam sensações e sentimentos. A presença do mar torna-se algo orgânico às emoções. Algo como se a vida estivesse povoada pela brisa que o mar respira.
De caráter singelo, "Tsugumi" possui uma atmosfera predominantemente juvenil. O universo adulto ocupa lugar secundário. As bobagens pueris próprias da juventude cedem lugar, no decorrer da narrativa, aos momentos de transição. O momento em que a adolescência fica para trás. O momento em que o jardim secreto é abandonado. O momento em que a possibilidade da morte passa a ser levada em consideração.
Serviço:
"Tsugumi"
Autor Banana Yoshimoto
Editora Estação Liberdade
Tradução Lica Hashimoto
Páginas 184
Quanto R$ 38


