Numa época em que o câncer torna-se uma doença extremamente comum, a imagem da doença sofre grandes mudanças. O horror da morte não estará mais nos olhos dos doentes. A beleza do câncer será uma busca individual e social. Fotografar e filmar as consequências da doença no próprio corpo será uma forma de orgulho, uma afirmação de autoestima. O corpo doente terá muito mais beleza do que o corpo saudável. O câncer será uma obra estética detentora de uma beleza invejável.
Essa ideia pra lá de bizarra poderia estar em qualquer filme do cineasta canadense David Cronenberg. Os elementos marcantes de seus filmes estão imersos em atmosferas sombrias, acontecimentos bizarros, sexualidade aterrorizante, territórios misteriosos, fatos mórbidos e um punhado de estranhezas humanas.
O câncer como beleza não está em nenhum de seus filmes, mas está presente em seu primeiro livro, o romance "Consumidos". Lançado no Brasil pela editora Alfaguara, a obra é um samba do branquelo doido que encontra eco, de maneira contemporânea, nas histórias do escritor norte-americano William Burroughs (1914 – 1997).
"Consumidos" narra a trajetória de Naomi e Nathan, um jovem casal de namorados fissurado pelas novas tecnologias (celulares, computadores, máquinas fotográficas, filmadoras, etc.). Sempre desejando as novas versões do mercado, vivem para o fetiche tecnológico. E para a tecnologia ostentação.
Os dois atuam como fotojornalistas freelancers. Naomi persegue assuntos sensacionalistas variados. Nathan caça sensações da medicina. Ela está envolvida no caso de um filósofo acusado de assassinar a esposa, cortar a mulher em pedacinhos e comer grande parte do corpo. Ele está envolvido com uma matéria sobre um médico adepto de cirurgias clandestinas em pacientes com câncer.
Ao logo da narrativa os dois assuntos paralelos que Naomi e Nathan trabalham se cruzam e aparecem revelações mirabolantes. O filósofo teria cometido uma eutanásia canibal, não assassinato. O médico teria realizado uma cirurgia sexual, não uma cura. Assim o casal de fotojornalistas entra num jogo em que a sensualidade flerta com o horror e o horror flerta com a sexualidade.
No meio desse jogo surgem figuras numa rede onde a realidade não corresponde à verdade. Há uma garota que corta pedaços do próprio corpo e se alimenta deles (o ápice da automutilação e do autocanibalismo). Há uma mulher que sente que há uma revoada de insetos dentro do seio direito e opta por extirpá-lo. Há um grupo de artistas que fabrica a realidade a parir das ferramentas da internet. Há uma conspiração terrorista contra o consumismo que envolve empresários norte-coreanos. Há figuras que sentem desejo sexual por pacientes de câncer pós-cirurgia. Há de tudo e mais algumas coisas capazes de alterar a flora estomacal dos leitores mais sensíveis.
Nascido em Toronto, em 1943, David Cronenberg é autor de 22 filmes, entre eles "A Mosca" (1986), "Crash" (1996), "Spider" (2002), "Um Método Perigoso" (2011) e "Cosmópolis" (2012). Em seu primeiro romance, deixa evidente que seus argumentos são melhores do que sua narrativa literária. "Consumidos" está cheio de pontas soltas que seguem para lugar nenhum. A história abre uma série de possibilidades que são esquecidas ou simplesmente deixadas para trás pelo narrador. O próprio final do romance aponta um descompromisso pela resolução da trama.
Tudo indica que o ponto central de toda morbidez e bizarrice exposto pelo cineasta em "Consumidos" reside na capacidade do mundo atual, com as novas tecnologias, em criar realidades. Ou mas especificamente, em controlar a realidade.
Em síntese, as pessoas estariam criando suas novas próprias realidades através das ferramentas das novas tecnologias. E tudo indica que o grande trauma da época não estaria em apenas morrer, mas perder o controle da realidade que cada um criou para si mesmo.

Serviço:
"Consumidos"
Autor – David Cronenberg
Editora – Alfaguara
Tradução – Cássio de Arantes Leite
Páginas – 304
Quanto – R$ 39,90

Fragmento: "Eles eram brilhantes, tão interessantes. Não existia o menor ciúme, nenhuma raiva entre os dois. Eram unha e carne. Ela estava doente, sabia? Era terminal. Dava para perceber nos olhos dela. Provavelmente um tumor no cérebro. Estava sempre muito concentrada, o tempo todo. Sempre escrevendo, escrevendo. Acho que foi uma eutanásia. Ela pediu e ele a matou. E depois, é claro, ele a comeu." Com essas palavras, a mulher respirou fundo, fazendo uma pausa, limpou os olhos com o pano de prato puído que havia segurado durante toda a entrevista, e então sorriu. O efeito foi alarmante para Naomi, que imediatamente começou analisá-lo na janela de e-mail que deixara aberto no canto da tela. "Ele não podia simplesmente tê-la deixada lá em cima", continuou. Seu sorriso era beatífico; tinha uma revelação a fazer. "Ele quis levar junto com ele o máximo dela que conseguisse. Então a comeu, e depois fugiu com ela dentro dele." ("Consumidos" de David Cronenberg)
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