A imagem típica do detetive durão, frio e calculista vai para o espaço em ''Brooklyn Sem Pai Nem Mãe'', romance policial do escritor norte-americano Jonathan Lethem. O personagem principal, o detetive Lionel Essrog, é um investigador completamente desvirtuado dos padrões literários.
Lionel possui um distúrbio neurológico conhecido como Síndrome de Tourette. Os sintomas básicos são tiques compulsivos e incontroláveis. Coisas como falar coisas desconexas no meio de frases articuladas e a mania de tocar coisas e pessoas sem objetivo específico em momentos imprevisíveis.
Órfão de pai e mãe, Lionel foi criado num orfanato do Brooblyn sofrendo todo tipo de hostilidade e desamparo. Tudo potencializado por sua síndrome incurável. Conhece algum tipo de segurança quando começa a trabalhar, com outros garotos do orfanato, numa empresa de mudança. O dono da empresa, Frank, torna-se a única pessoa a entender Lionel e diagnosticar sua síndrome. Como consequência, torna-se o grande ídolo do rapaz.
Com o passar dos anos, Lionel trabalha, ao lado de outros garotos órfãos, em empresas comandadas por Frank. Todas de fachada que escondem negócios escusos da máfia do Brooklyn, bairro da cidade de Nova York.
Tudo caminha normalmente até o dia em que Frank é assassinado. Duplamente órfão, Lionel resolve, com sua coleção de tiques, descobrir o assassino. E o que ele acaba descobrindo se revela um esquema criminoso nos subterrâneos de Brooklyn.
O narrador de ''Brooklyn Sem Pai Nem Mãe'' é o próprio Leonel. Seu relato, repleto de nonsense, segue a estrutura de seu comportamento pautado pela Síndrome de Tourette. Palavras jogadas ao nada, junção de palavras e frases desconexas são utilizadas pelo autor para construir o universo do personagem. O resultado é exato em sua capacidade inserir o leitor na estrutura mental e emocional do narrador. Alguém que não está interessado em segmentar o bem e o mal, mas tranquilizar a imensa solidão de seu mundo.
O romance, publicado pela Companhia das Letras, deixa evidente que a trama policial é um instrumento para apresentar a história de Leonel. Um personagem que luta para se encaixar num mundo que não o aceita como habitante, seja como órfão ou como louco. Uma figura que procura entender a si mesmo e o mundo a partir de uma ótica própria, uma ótica fadada à solidão.
Nascido em 1964, Jonathan Lethem Allen é uma das mais interessantes vozes da literatura norte-americana contemporânea. Seu mais cultuado romance, ao lado de ''Brooklyn Sem Pai Nem Mãe'', é ''A Fortaleza da Solidão'', publicado pela Companhia das Letras em 2007. Narra a história de uma amizade praticamente impossível entre Dylan, um garoto branco, e Mingus, um garoto negro no Brookryn da década de 70. Dois rapazes vivendo pelas ruas longe de suas mães e próximos de seus pais indiferentes.
Nos dois romances, Jonathan Lethem elege a solidão, em suas mais variadas formas, como a síntese do mundo atual. Um tipo de solidão que se revela a cada aurora, a cada novo desafio. E deixa claro que as novas gerações não herdaram apenas os sonhos das gerações anteriores, mas também os mais terríveis pesadelos.
Serviço:
- Brooklyn Sem Pai Nem Mãe
Autor - Jonathan Lethem
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Hélio Guimarães
Quanto - R$ 59,50 (384 págs.)
- A Fortaleza da Solidão
Autor - Jonathan Lethem
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Sonia Moreira
Quanto - R$ 73,50 (616 págs.)

''Estou bem amarrado. Sou um canhão solto. As duas coisas: sou um canhão solto e estou bem amarrado. Minha vida inteira está compreendida entre essas duas palavras - amarrado, solto -, mas não há espaço entre elas. Deveriam formar uma única palavra: amarrado-solto. Sou um airbag preso dentro do painel, dobrado camada por camada pronto para explodir, expandir-se, preencher todo o espaço livre. Mas ao contrário de um airbag volto a ser dobrado no momento em que acabo explodindo, novamente tensionado a ponto de explodir... como um pedaço de filme montado em loop. Tudo que faço é comprimir e soltar, repentinamente, sem nunca salvar ou satisfazer ninguém, muito menos a mim mesmo. Mesmo assim o filme avança inutilmente, o airbag obsessivo explode repetidas vezes enquanto a vida segue seu curso, à margem desses absurdos gastos de energia.''
(Fragmento de ''Brooklyn Sem Pai Nem Mãe'' de Jonathan Lethem)

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