Um sujeito de ressaca não tem nada a perder. Tudo aquilo que possuía foi devidamente consumido no dia anterior. E quando o sujeito está de ressaca após consumir toda a lucidez do mundo, a realidade torna-se um jogo. Um jogo onde não há nada a ser ganho, nada a ser perdido.
Hart, personagem principal do romance ''Sexta-Feira Negra'', entra nesse tipo de jogo de cabeça. Trata-se de um homem abalado pela ressaca de ter feito a coisa certa, radicalizar a própria realidade, atravessar o presente como um jogador apostando tudo, inclusive a própria vida.
Hart é um dos vários personagens marcantes criados pelo escritor norte-americano David Goodis (1917 - 1967). Figuras que não se encaixam nos lugares que a sociedade costuma considerar corretos. Figuras que foram a tal ponto surradas pela realidade que a dor que carregam na alma significa apenas que o coração ainda não deu o último suspiro.
Em ''Sexta-Feira Negra'', Hart surge vagando por ruas desconhecidas, sem dinheiro e tremendo de frio. Tudo indica que está tentado fugir de uma tremenda enrascada, mas tudo que consegue fazer é entrar numa confusão ainda maior. Ao encontrar um homem baleado na sarjeta, se apropria de sua carteira recheada de notas com grandes quantidades de zeros.
Perseguido por aqueles que encheram o cara de balas, Hart se vê no interior de um esconderijo de bandidos frios e violentos. Na verdade um bando de assaltantes que, se necessário, matam com o mesmo desprendimento com que tomam café. Para sobreviver no local, Hart precisa desempenhar o papel de criminoso profissional, um papel que executa num jogo onde as apostas são altas. E quem perde se despede de tudo com o paletó abotoado.
Para conseguir a confiança do chefe do bando, afirma que está numa enrascada por ter assassinado o irmão. Tirou a vida do irmão por dinheiro, não por ódio. Como não tem nada a perder, a não ser um enorme vazio dentro do peito, Hart arrisca aposta percorrendo um perigoso labirinto. Abalado pela ressaca, faz do jogo a sumária ausência de sentido de futuro. Abole todas as redes de segurança para correr na corda bamba com os olhos admirando a aurora da desesperança.
David Goodis passou maus bocados para desenvolver sua literatura. Quando morreu, com 50 anos de idade, seus livros mofavam nas estantes das livrarias. Passou a ser conhecido apenas quando suas histórias começaram a ser transformadas em filmes. Dos 19 romances que escreveu, dez ganharam versões cinematográficas. Hoje é considerado um dos grandes representantes da ''literatura noir'' ao lado de Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James Cain.
Sua obra começou a ser publicada ao Brasil durante a década de 80 com ''A Lua na Sarjeta'' (Brasiliense, 1984), ''Atire no Pianista'' (Brasiliense, 1985), ''Sexta-Feira Negra'' (L&PM, 1989). Em seguida desapareceu das livrarias. Até recentemente seus livros eram encontrados apenas em sebos. Recentemente seus romances voltaram às livrarias, em edições pockets, relançados pela Editora L&PM. Além de ''Sexta-Feira Negra'', foram reeditados ''A Lua na Sarjeta'', ''Atire no Pianista'' e ''A Garota de Cassidy''.
Em ''Sexta-Feira Negra'', Hart precisa criar uma nova enrascada para tentar esquecer a verdadeira enrascada que vive dentro de sua cabeça. O jogo é apenas uma possibilidade de gerar novos sentidos para conseguir dormir e acordar sem o gosto da ressaca na boca. David Goodis desenha o personagem procurando sair de uma rede justamente aumentando os fios que a compõem. Um sujeito que, em vez de cortar os fios, multiplica-os.
Nesse processo, vislumbra que todos à sua volta igualmente não conseguem cortar os fios da rede, apenas fiar mais e mais fios. David Goodis sugere, com discrição, que, em determinadas situações, as pessoas preferem tecer malhas intrincadas para evitar o risco de viverem livres. A rede pode até significar prisão, mas oferece uma boa dose segurança. E ninguém guarda uma bala na cabeça de alguém apenas por dinheiro, medo, ou ódio. Paradoxalmente, algumas pessoas fazem isso por amor.

Serviço:
- ''Sexta-Feira Negra'', de David Goodis. Editora L&PM, tradução de Eduardo Bueno, coleção Pocket, 198 páginas, R$ 17,00.

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