Existem coisas difíceis de serem ditas. Não necessariamente carregadas de complexidades, mas que exigem alguma dose de coragem e o momento adequado para serem pronunciadas. Por serem difíceis, guardam dentro de si pequenas preciosidades de entendimento carente de linguagem.
Em seu novo romance, ''O Filho Eterno'', o escritor Cristovão Tezza assume a missão de conferir linguagem ao entendimento da relação entre pai e filho. O livro é o relato de um homem demolindo as máscaras da ilusão, explodindo os castelos da imaginação, procurando percorrer a distância que separa pai e filho fazendo uso da sinceridade totalmente desnuda.
Lançado pela Editora Record, ''O Filho Eterno'' narra a trajetória de um pai que precisa transformar em pó todas as expectativas com relação ao primeiro filho que acaba de nascer. Seus ideais diante da perspectiva de um filho perfeito caem por terra quando sai da maternidade com um bebê com Síndrome de Down nos braços.
As expectativas existem para serem destronadas, jogadas no chão, pisoteadas com fúria. Existem para serem derrubadas, eliminadas com o ímpeto glacial. Existem para serem convertidas em pó, transformadas na poeira que cobre a realidade. ''O Filho Eterno'' segue nesta direção, apresenta uma narrativa que procura espanar a poeira para revelar a realidade como ela é. Fugindo da maioria dos subterfúgios sedutores, deixando de lado as ilusões cotidianas.
Tudo começa no início da década de 80, uma época em que crianças com alterações no cromossomo 21 eram chamadas de mongolóides. No início, o pai sonha com a súbita morte da criança, algo que apagaria todos os impasses da anormalidade e restauraria a sensação de normalidade da vida. Com o tempo, e o auxílio da esposa, começa a preparar o filho para um mundo que sempre o desprezará. Apesar dos esforços, a sensação do pai é de que não existe um filho em sua vida, existe um problema a ser resolvido.
Em ''O Filho Eterno'' o narrador e o personagem ''pai'', mesmo apresentados como distintos, tornam-se um só no decorrer da narrativa. Esta eliminação de limites entre as duas vozes dá origem a uma terceira, aquela que se revela justamente como voz do autor. Tezza não está interessado em deixar claro os limites entre ficção e realidade, entre imaginação e autobiografia. Está interessado em converter em literatura tanto a intimidade mais básica como a privacidade dos pensamentos.
Nascido em Lages (Santa Catarina), em 1952, e radicado em Curitiba há mais de quatro décadas, Cristovão Tezza é um dos autores representativos da chamada literatura brasileira contemporânea. Autor de 14 obras, construiu uma carreira literária sem pirotecnias. Ao longo dos anos foi aprimorando sua escrita em estruturas extremamente calculadas. Ao mesmo tempo em que lança ''O Filho Eterno'', a Editora Record coloca nas livrarias novas edições dos primeiros romances publicados por Tezza: ''Trapo'' (1988), ''Aventuras Provisórias'' (1989) e ''O Fantasma da Infância'' (1994).
''O Filho Eterno'' é o relato da convivência de 25 anos entre pai e filho. Um pai literato e um filho que nunca dominará a escrita nem a leitura. O ponto de vista masculino da relação entre os dois mundos distintos. De um lado, o mundo onde há ordenamento de passado, presente e futuro. De outro, o mundo onde existe apenas a noção de presente. De um lado, um universo fundamentado pela aspereza da razão. De outro, um universo pautado pela maciez da ingenuidade. Dois mundos abrigados sob o mesmo teto. E, curiosamente, dividindo o mesmo sofá, assistindo a mesma televisão, imersos na mesma emoção de um jogo de futebol.

Fragmento de ''O Filho Eterno'', de Cristovão Tezza
''A mãe ouve com atenção redobrada cada palavra; o pai devaneia - tenta encontrar, nas frestas daquela fala séria e severa, do alto da autoridade, alguma coisa que lhe pareça realmente útil, mas não vê nada. A médica não conseguiu perceber na criança absolutamente nada particular, nenhuma qualidade especial que mereça nota. A médica não sorri. Ela é uma porta-voz impessoal da ciência, e tem a obrigação de dizer as coisas exatamente como elas são, e as coisas não são boas, porque não são normais e fogem de todas as medicações-padrão em todos os aspectos: uma trissomia do cromossomo 21, que se manifesta, agressiva, em cada célula do bebê. É isso. Levem o seu pacote, ela parece dizer, quando enfim sorri o seu sorriso profissional. Dizer as coisas como elas são: não reclame, ele se vê pensando. Você que ouvir uma mentira, e isso a médica não tem para dar. Você quer um gesto secreto de piedade, disfarçado pela mão da ciência, e isso também está em falta. Há séculos as funções da vida já se separaram todas, cada uma em sua especialidade. O que ela tem a dizer, além de descrever cientificamente a síndrome, é o que você pode fazer pela criança, mas não espere muito disso; no máximo você vai tornar as coisas suportáveis.''

Serviço:
- ''O Filho Eterno'', de Cristovão Tezza. Editora Record, 224 páginas, R$ 34,00.

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