LEITURA - A arte embriagada
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de agosto de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A boêmia possui uma aura que atravessa tempo e espaço. Seus passos noturnos são capazes de transformar tanto montanha em pó, são capazes de transformar pó em montanha. Em determinados períodos históricos ela foi capaz de dar origem a experiências estéticas que traçaram os rumos da arte.
O início do século 20 foi um dos períodos em que a boêmia fez muito mais que história. Deu origem ao expressionismo, ao cubismo, ao dadaísmo e ao surrealismo, movimentos que romperam com os padrões estéticos e radicalizam o próprio conceito de arte.
Nessa época a cidade de Paris tornou-se uma espécie de ''capital cultural do mundo''. Artistas do mundo todo se transferiram para lá ocupando ruas onde havia casa, comida e bebida barata. Tinham a cabeça fervilhando de idéias, desejam criar a arte de um novo século. Figuras como Picasso, Mondigliani, Apollinaire, Breton, Matisse, Man Ray, Alfred Jarry, Max Jacob, Braque, Hemingway, Tzara, Soutine, Gertrude Stein, Duchamp e Aragon caminham pelas mesmas ruas, ''penduram a conta'' nos mesmos bares.
''Boêmios'', obra do escritor francês Dan Franck que acaba de ser lançada pela Editora Planeta, faz um detalhado retrato de Paris dessa época e dos artistas que por lá passaram. O livro não é um ensaio teórico e crítico, mas uma grande reportagem narrando o cotidiano de escritores e pintores vivendo loucuras de todos os tipos, batalhando pela sobrevivência com unhas e dentes, esvaziando as garrafas dos bares, brigando por suas idéias e criando com determinação e ousadia.
Franck delimita seu relato entre os anos de 1900 a 1930. Assim, consegue abarcar os vários grupos de pintores e escritores que viveram em Paris ao longo das três décadas. Demonstra que ao lado da troca de informações entre os boêmios, havia dezenas conflitos que, na maioria das vezes, eram resolvidos na porrada.
O grau de liberdade em que viviam estava vinculado às particularidade de cada personalidade. A penúria que a maioria dele viviam acentuava o exercício dessa liberdade. Matisse, por exemplo, precisava pintar frutas em baixas temperaturas, utilizando luvas. No calor as frutas apodreciam antes de terminar o quadro - e se isso acontecesse, não teria dinheiro para comprar novas frutas.
Apolliraine e Picasso, em 1911, decidem roubar estatuetas de arte negra do Museu Louvre. Após uma noite regada a vinho, realizam a façanha. Em pouco dias a polícia está nos seus calcanhares. Mesmo com a devolução das peças, os policiais prendem os dois. O drama é que em seu depoimento, Picasso afirma, com a maior cara-de-pau, que não conhece Apollinaire - na realidade seu grande amigo. A culpa cai toda nas costas do escritor, que permaneceu preso por vários meses.
''Boêmios'' é recheado de histórias e casos que revelam como a arte, em determinados períodos históricos, não são regidas por normas e teorias, mas pela liberdade e pela ousadia.
- Serviço: ''Boêmios'' de Dan Franck, Editora Planeta, tradução de Hortência Santos Lencastre, 560 páginas, R$ 65,00.


