Para falar de novos acontecimentos é preciso criar novas maneiras de utilização das palavras. Essa era a idéia que começou a circular no início da década de 60 entre alguns jornalistas norte-americanos. Para eles, a forma tradicional da reportagem não conseguia representar as mudanças culturais que estavam ocorrendo mundo afora.
O caminho escolhido foi deixar a objetividade de lado e aplicar os mais variados recursos literários nos textos jornalísticos. O caminho mais radical estava em romper os limites entre realidade jornalística e ficção literária.
Com o passar dos anos a idéia cresceu e se espalhou por vários jornais e revistas. A nova tendência recebeu o nome de ''new journalism'' (novo jornalismo) e conheceu seu auge no final da década de 60 e começo da década de 70. O termo foi criado apenas em 1973, por Tom Wolfe, quando a tendência começou a entrar em declínio.
''A Turma Que Não Escrevia Direito'', livro do jornalista norte-americano Marc Weingarten lançado pela editora Record, narra toda a história dessa tendência que década após década continua seduzindo leitores. Mais do que a história, revela como o new journalism se desenvolveu, os bastidores de todo o processo criativo.
Considerado uma revolução do texto jornalístico, o new journalism não nasceu do nada. Marc Weingarten traça um painel histórico de tudo aquilo que veio antes da tendência e de certa maneira a conferiu forma. Novas formas de reportagens, por exemplo, já estavam presentes nos textos de Jack London e George Orwell no começo do século 20. Na sequência surgiram John Hersey, Lilliam Ross e Truman Capote, entre outros.
O estudo de Marc Weingarten recai praticamente no período que compreende os últimos anos da década de 60 e os primeiros da década de 70. Isso porque seria esta a época em que foram produzidas as reportagens intensas e radicais. Entre os principais criadores de novas formas de produção de textos estão Tom Wolfe, Gay Talese, Joan Didion, Michael Herr, Norman Mailer, John Sacks e Hunter Thompson, o mais alucinado da turma.
Ao retratar como algumas das lendárias reportagens foram produzidas, ''A Turma Que Não Escrevia Direito'' também revela os bastidores da imprensa da época. O papel fundamental dos editores caminha lado a lado com batalhas de vaidades pelo sucesso das publicações que circulavam com tiragens entre 100 e 200 mil exemplares. Vale lembrar que a grande maioria das reportagens era transformada em livro logo após sua publicação nos periódicos.
Tudo indica que o florescimento do new journalism aconteceu numa época em que a reportagem tradicional não conseguia oferecer informações suficientes para o leitor entender os fatos. Na verdade, o novo mundo que se apresentava aos olhos de todos exigia uma nova linguagem para seu entendimento. Uma espécie de momento iluminado onde jornalismo e literatura se uniram para olhar tanto o mundo pegar fogo quanto os bombeiros correndo a esmo atordoados.
O fato é que todas essas reportagens, convertidas em livros, são lidas até hoje. Tornaram-se referências, obras clássicas que, pela capacidade de reportarem fatos, acontecimentos e condutas longe da doutrina do objetivismo, converteram-se no melhor retrato da realidade de uma época. Afinal, há mais subjetividade na realidade do que letras no alfabeto.

Serviço:
A Turma Que Não Escrevia Direito
Autor - Marc Weingarten
Editora - Record
Tradução - Bruno Casotti
Páginas - 392
Quanto - R$ 54,90


Tom Wolfe e muitos de seus contemporâneos reconheceram um fato evidente nos anos 60: as ferramentas tradicionais do jornalismo eram inadequadas para descrever as tremendas mudanças culturais e sociais daquela era.
A regra número um do que ficou conhecido como New Journalism era que as antigas regras não se aplicavam. Todos os líderes do movimento haviam sido educados pelos métodos tradicionais de apurar fatos, mas todos perceberam que o jornalismo podia fazer mais do que simplesmente relatar objetivamente os acontecimentos. Mas importante: eles perceberam que podiam fazer mais. Convencidos de que o potencial do jornalismo ainda não havia sido completamente explorado, começaram a pensar como os romancistas.
(Fragmento de ''A Turma Que Não Escrevia Direito'' de Marc Weingarten)

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