Era um segredo guardado entre correntes e cadeados. Era um segredo que permaneceu obscuro durante décadas e décadas. Um segredo que ficou intocável até o escritor espanhol Enrique Vila-Matas descobrir algumas pistas sobre o assunto e penetrar num labirinto repleto de informações dúbias.
Vila-Matas descobriu a existência, entre 1924 e 1927, de uma sociedade secreta intitulada Shandy. Ela reunia escritores, pintores intelectuais e músicos que circulavam pela Europa e tinham como objetivo produzir uma arte diminuta, uma nova arte que fossa capaz de caber numa pequena valise. Também chamada de 'literatura portátil', reunia nomes como Walter Benjamin, Marcel Duchamp, Tristan Tzara, Francis Picabia, Paul Klee, Man Ray, Scott Fitzgerald, Blaise Cendrars, Max Ernts, Henri Michaux, Aleister Crowley e muitos outros.
O nome 'shandy' foi inspirado no personagem Tristam Shandy criado pelo romancista Laurence Sterne. Uma figura cuja máxima era: ''A seriedade é uma misteriosa atitude do corpo para ocultar os defeitos da mente''. Adeptos do bom humor e da ironia, os shandys acreditavam que a literatura deveria ser uma manifestação da insolência e das ousadias mais improváveis, conter algum tipo de diversão e loucura em sua essência. Uma literatura que deveria caber numa pequena mala de mão e ser transportada para todo e qualquer lugar.
Os encontros secretos ocorriam nos lugares mais inesperados e inimagináveis, tudo para manter o segredo a sociedade. Um dos últimos encontros, por exemplo, antes do clube secreto se extinguir, foi realizado dentro de um submarino que permaneceu submerso na costa do Mar Mediterrâneo sem sair do lugar durante uma semana.
Sempre mudando de opinião a cada meia hora, os membros do Shandy não deixaram para a posteridade nenhuma obra 'portátil' concluída. Tudo consistia em anotações e fragmentos de ideias que se perderam nas constantes andanças e inconstâncias do grupo. Grande parte do segredo morreu como surgiu, secreto entre os próprios membros da sociedade.
Enrique Vila-Matas narra a história dessa sociedade secreta em ''História Abreviada da Literatura Portátil'', livro que acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify. Na verdade tudo não passa de uma farsa. A tal Shandy nunca existiu, trata-se de uma invenção do escritor catalão para discutir o jogo literário.
Publicado originalmente em 1985, ''História Abreviada da Literatura Portátil'', é uma espécie de projeto síntese de toda a literatura que Vila-Matas desenvolveria nas décadas seguintes. Trabalhando com uma literatura que mistura os gêneros ensaio e ficção, o escritor criou uma escrita original e única que transformou a própria literatura em personagem principal.
Todos os livros que Vila-Matas escreveu após ''História Abreviada da Literatura Portátil'', - os surpreendentes romances ''Bartleby e Companhia'', ''Paris Não Tem Fim'', ''Doutor Pasavento'', o ''Mal de Montano'' e ''A Viagem Vertical'' - seguem caminho claro de definido: converter a própria literatura em personagem de ficção.
A única saída encontrada pelo escritor, para traçar uma história da imaginação literária, é justamente mais imaginação sobre imaginação. Se Fernando Pessoa apontou que ''o poeta é um fingidor'', se Marcel Duchamp afirmou que ''a arte é uma farsa'', Vila-Matas deixa claro que ''a história da literatura é ficção''.
Acima de tudo, ''História Abreviada da Literatura Portátil'' é uma narrativa bem humorada e de carregada de ironias sobre um dos períodos mais loucos da história da literatura mundial. Um período onde todas as novas portas se abriam e nenhuma delas eram se parecia com outras portas.
Serviço:
História Abreviada da Literatura Portátil
Autor - Enrique Vila-Matas
Editora - Cosac Naify
Tradução - Júlio Pimentel Pinto
Páginas - 144
Quanto - R$ 39,00
Fragmento:
O instinto de colecionador dos shandys sempre lhes foi muito útil. Aprender era uma forma de colecionar, como nas citações e fragmentos de leituras reunidos em cadernetas levadas para toda parte e que frequentemente costumavam ler em suas reuniões de conspiradores de café. Pensar também era, para eles, uma forma de colecionar, pelo menos em seus estágios iniciais. Anotavam conscienciosamente idéias extravagantes: desenvolviam miniensaios em cartas a amigos; reescreviam planos para projetos futuros; rascunhavam seus sonhos; carregavam listas numeradas de todos os livros portáteis que liam.
Mas como os alegres, volúveis e loucos shandys se transformaram em heróis da vontade? Penso que é pelo fato de que o trabalho pode se transformar numa droga, numa compulsão. ''O pensamento, este poderoso narcótico'', escreveu Walter Benjamin.
(Fragmento de ''História Abreviada da Literatura Portátil'', de Enrique Vila-Matas)

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