LEITURA - A agonia do deslumbramento
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de maio de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Em 1937, Budd Schulberg era um jovem aprendiz de roteirista vagando pelos bastidores de Hollywood. Atuava com auxiliar de escritores experientes à serviço da indústria cinematográfica. Certo dia, inesperadamente, recebeu a tarefa de trabalhar ao lado de seu maior ídolo, o escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald (1896 -1940).
Fitzgerald não estava em Hollywood para ceder seu talento literário ao cinema americano. Longe disso. Estava apenas tentando levantar uma grana para pagar uma montanha de dívidas, aluguel atrasado e, principalmente, o atendimento médico de sua mulher, Zelda Fitzgerald, internada num hospício.
Havia sido contratado para escrever o roteiro de uma comédia frívola chamada ''Winter Carnival''. Devido a problemas de alcoolismo e diabetes, mesmo com o auxílio fiel de Budd Schulberg, Fitzgerald não conseguiu terminar o trabalho. Vivendo um período acusado de ''decadente'', não se encaixou na fábrica de bobagens hollywoodianas.
Budd Schulberg percebeu que tinha nas mãos uma boa história e transformou sua conturbada experiência ao lado de Fitzgerald, carregada de situações patéticas, num romance intitulado ''Os Desencantados''. A obra passou a ser considerada um dos melhores exemplos de como a indústria do cinema desencantou escritores de renome que passaram por Hollywood com o intuito de produzir arte.
''Os Desencantados'' acaba de receber sua primeira edição brasileira pelas mãos da Editora Cosac Naify. No romance, Schulberg assume a figura do personagem Shep Stearns, Fitzgerald encarna no personagem Manley Hilliday, e Zelda na de Jere. A história ficcional é toda baseada nos episódios ocorridos na vida real.
Shep é um jovem escritor que consegue a chance de trabalhar num roteiro para Milgrim, o poderoso chefão de Hollywood. É escalado para escrever o roteiro, ao lado do famoso romancista Manley, de um musical romântico, típico água-com- açúcar, protagonizado por universitários belos e saudáveis.
Enquanto Shep está deslumbrado com seu primeiro trabalho no cinema, ainda mais ao lado de seu ídolo famoso, Manley aceitou a empreitada apenas porque está precisando desesperadamente de dinheiro. Embora seja considerado um escritor decadente, seu nome ainda é lembrado com admiração.
Muito mais que um roteiro produzido em poucos dias, Milgrim deseja vender sua imagem ao lado de Manley. Para isso, exige do escritor uma série de aparições públicas. Para suportar a situação, começa a encher a cara em todos os momentos, provocando situações cômicas e patéticas. Muito mais do que auxiliá-lo no roteiro, Shep precisa cuidar de Manley, tanto de sua saúde como evitar maiores atrapalhadas.
Por mais que se esforce, Manley não consegue se dedicar ao roteiro. Não encontra nenhum sentido no trabalho, apesar do dinheiro em jogo. Assim, ''Os Desencantados'' é a história de um escritor tentando escrever aquilo que não deseja apenas para ganhar uns trocados. Um conflito que o leva ao fundo do poço, ao fundo do copo e às mais ridículas e humilhantes situações. E claro, uma história sobre as imbecilidades da indústria cinematográfica.
Paralelamente ao drama vivido por Manley, em ''Os Desencantados'' Budd Schulberg narra lembranças do passado. Apresenta a história de Fitzgerald e Zelda através de situações vividas pelos personagens Manley e Jere. Por mais ficcional que se apresente, o romance desenha a verdadeira história do casal que representou a ''alma extravagante'' da década de 20. Uma história de ascensão e queda, exuberância e decadência.
Apesar de autor de vários romances, Bubb Schulberg ficou mais conhecido como roteirista de filmes como ''Sindicato de Ladrões'', ''Um Rosto na Multidão'' e ''O Que Faz Sammy Correr?''. Filho de um dos diretores da Paramount, cresceu perambulando pelos corredores de Hollywood. Aos 90 anos de idade, ainda permanece na ativa. Seu mais recente trabalho foi o roteiro de ''Save us Joe Louis'', dirigido por Spike Lee.
Serviço:
- Livro ''Os Desencantados'', de Budd Schulberg, Editora Cosac Naify, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Alípio Correia de Franca Neto e Rodrigo Lacerda, 432 páginas, R$ 59,90.


