Leitos de vida, leitos de morte
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de março de 1997
Telma Elorza 
DivulgaçãoEscultura de Luciano BolettiDefinitivamente, Primeiro de Maio é agora um grande centro de produção cultural. Graças a um de seus filhos ilustres, o artista plástico Luciano Boletti. Nem bem deixou Brasília, onde participiou da abertura de sua exposição na Itaugaleria, Boletti parte para São Paulo, onde abre hoje exposição de esculturas, na Unidade Abra/Brookin. A mostra fica no espaço até a primeira quinzena de abril.
A exposição na Abra (Academia Brasileira de Arte) pegou Boletti mais ou menos de surpresa. Selecionado para expor no local, desde o ano passado, o artista estava retornando de Brasília quando os organizadores o avisaram que precisava mandar as obras com urgência. Esta exposição estava marcada para acontecer em novembro, depois dezembro e por fim foi adiada indefinidamente. Quando voltei, recebi o recado que a exposição iria abrir agora. O pessoal é doido. Mal tive tempo de embalar as peças - comenta.
Luciano Boletti vai expor quatro esculturas em ferro, parafina e radiografias, datadas do ano passado, mas inéditas. São peças que havia preparado para esta mostra - explica. Todas são grandes e seguem a linha de pesquisa que o artista está estudando desde 1995: o registro do corpo. Um novo elemento, porém, se faz presente - a cama como suporte. Todas têm a ver com camas, as camas do hospital, as camas do berçário - diz.
Registro No seu trabalho, a parafina, as linhas e as radiografias são simulacros do corpo, carregados de energia em potencial. São registros das pessoas que passaram por ali, o registro corporal que fica - conta. O ferro das estruturas também representam o corpo a partir do momento em que Boletti não faz nenhum tratamento para impedir que a ferrugem avance. O ferro é como o corpo humano, que vai envelhecendo e se deteriorando com a idade - mostra.
O artista sempre insere em seu trabalho memórias pessoais, numa tentativa de desvendar os mistérios que se encerram na natureza humana, o próprio ser que luta para crescer e se soltar das amarras que prendem na condição de dor e sofrimento. Na transparência e na incidência da luz, cria-se um novo corpo, que se pode moldar na intenção do espaço. Uma luta com muito de melancólico e solitário.
Este ano, Boletti ainda fará duas outras exposições, em Belo Horizonte e São Paulo. Com certeza, vai mostrar mais surpresas na sua busca vigorosa pela transcedência, com a mesma dinâmica vigorosa, experimental e particular.
q Luciano Boletti - exposição de esculturas. De hoje até meados de abril, na Unidade Abra/Brookiln (Av. Portugal, 191), São Paulo.


