Osman Lins, um dos grandes escritores do País, é quase desconhecido entre os que têm menos de 45 anos. Morreu cedo, aos 54 anos, no auge da carreira de autor combativo e original, em julho de 1978, mas deixou obra respeitável. Tem crescido a legião – estrangeira e brasileira – de admiradores e estudiosos da obra osmaniana.
‘‘É um escritor excepcional’’, disse o argentino Ricardo Piglia a José Castello. ‘‘Tenho muita vontade de realizar um trabalho profundo a respeito de sua obra’’, acrescentou. Julio Cortázar disse: ‘‘Se eu tivesse escrito ‘‘Avalovara’’, não teria por que escrever em 20 anos.’’
Quem fizer uma pesquisa na Internet (altavista.com) vai encontrar dez páginas sobre Osman Lins. ‘‘The Review of Contemporary Fiction’’, publicada nos Estados Unidos em 1995, traz quase 70 páginas sobre o escritor – é o único brasileiro a figurar na publicação desde o primeiro volume, de 1981, até a edição de 2000.
Seus quatro principais livros de ficção – ‘‘O Fiel e a Pedra’’, ‘‘A Rainha dos Cárceres da Grécia’’, ‘‘Avalovara’’ e ‘‘Nove, Novena’’ – foram traduzidos para o francês por Maryvonne Lapouge, tradutora de Guimarães Rosa. Sua obra está publicada ainda na Alemanha, Espanha, Argentina, Suécia, em Portugal e outros países.
Osman Lins dizia só pensar em ficção, tinha como lema explorar. A máxima do narrador de ‘‘Avalovara’’ – ‘‘toda a minha vida se concentra no ato de buscar...’’, síntese da arte do romance –, pode ser creditada ao autor, sem risco de engano. O escritor fazia um ‘‘trabalho mais articulado sobre os problemas da estrutura romanesca e da construção de personagens’’, como disse numa entrevista em Paris, em 1975.
Noutra entrevista, enfatizou: ‘‘As formas tradicionais de romance não me servem mais.’’ Mas ele não se considerava autor de vanguarda – sua formação se deu na leitura dos grandes romances tradicionais.
Na busca de guerreiro solitário, iniciada na adolescência em Vitória do Santo Antão (PE), onde nasceu em julho de 1924, escreveu em sua primeira fase contos e romances quase tradicionais e fortes, como ‘‘O Fiel e a Pedra’’ (1961). Ainda jovem e já vivendo em São Paulo, produziu ensaios combativos e apaixonados, como ‘‘Guerra sem Testemunha’’, aos 45 anos, e chegou a trabalhos definitivos, como as narrativas de ‘‘Nove, Novena’’, aos 42, os romances ‘‘Avalovara’’, aos 49 e, aos 52, ‘‘A Rainha dos Cárceres da Grécia’’ – é a chamada segunda fase do autor.
‘‘A Rainha...’’ saiu em 1976, quando Osman Lins publicou sua tese de doutoramento em Letras, ‘‘Lima Barreto e o Espaço Romanesco’’ – apenas três anos após ‘‘Avalovara’’, seu romance mais denso, conhecido e admirado. O escritor já se havia aposentado como bancário e se afastado do ensino universitário. O melhor de sua energia, de seu tempo, era para a literatura. Morreu em julho de 1978. Ficou inacabado o seu quinto romance, ‘‘A Cabeça Levada em Triunfo’’. ‘‘Queiram ou não queiram, deixarei a minha marca’’, previa. Acertou.
Parte de sua obra está esgotada, mas vários livros têm sido reeditados. A Companhia das Letras relançou ‘‘Avalovara’’ (R$ 30,00) e ‘‘Nove, Novena’’ (R$ 24,00). Estão esgotados, entre outros, ‘‘Guerra sem Testemunhas’’ (1969), relançado pela Ática em 1974, e ‘‘Evangelho na Taba’’, volume de artigos e entrevistas reunidos por sua viúva, Julieta de Godoy Ladeira (1926-1997), saído em 1979 pela Summus, que reeditou ‘‘Marinheiro de Primeira Viagem’’ (R$ 16 70), ‘‘O Fiel e a Pedra’’ (quinta edição) e publicou ‘‘Casos Especiais de Osman Lins’’, os dois últimos esgotados.
A Editora Moderna relançou ‘‘Os Gestos’’ (R$ 12,50) e o caso especial ‘‘A Ilha no Espaço’’ (R$ 9,50). Pela Scipione, saiu e se esgotou a peça ‘‘Lisbela e o Prisioneiro’’. Da Loyola, há uma bela edição da narrativa ‘‘Retábulo de Santa Joana Carolina’’ (R$ 12,80).
Além dos outros livros esgotados, é possível encontrar em bons sebos ‘‘La Paz Existe?’’, livro em co-autoria com Julieta sobre uma conturbada viagem do casal ao Peru e à Bolívia, o romance de estréia ‘‘O Visitante’’ (1955), que chegou à terceira edição pela Summus, e ‘‘A Rainha dos Cárceres da Grécia’’ (1976), à espera da quarta edição, a sair pela Companhia das Letras.

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