São Paulo, 14 (AE) - O presidente da Fundação Bienal de São Paulo, arquiteto Carlos Bratke, confirmou que os paulistas Nelson Leirner e Iran do Espírito Santo são os artistas que vão representar o Brasil na próxima Bienal de Veneza, que será inaugurada nos Giardini di Castelo (parque veneziano que abriga os pavilhões da mostra) , em 9 de junho.
"A escolha foi feita pelo crítico de arte Ivo Mesquita, curador de nossa representação em Veneza este ano", esclareceu Bratke. Ivo Mesquita, que está sendo fortemente cogitado também para o cargo de curador da 25.ª Bienal de São Paulo, prevista para 2001, está em viagem ao exterior e não foi localizado.
A Fundação Bienal, em acordo celebrado com o Ministério de Relações Exteriores, é o responsável pelo envio da representação brasileira a Veneza. Também deverá promover, com verbas alcançadas pelo Itamaraty, as reformas no prédio do pavilhão. Como os Giardini ficam semi-abandonados no período entre as bienais, há muita depredação.
Duas gerações - O pavilhão brasileiro possui duas salas. A maior será ocupada por Nelson Leirner e a menor, na entrada, por Iran do Espírito Santo. Ainda conforme Bratke, "a escolha desses dois artistas teve o objetivo de destacar nomes de relevo em duas gerações".
Nelson Leirner, de 66 anos, foi um dos mais atuantes nomes da vanguarda brasileira da década de 60 e, desde então e sem perder a veia iconoclasta e irônica, um sólido valor da arte contemporânea no País. Em entrevista por telefone, do Rio de Janeiro - onde se radicou há três anos - Leirner informou que ainda vai conversar com o curador Ivo Mesquita antes de definir as obras que irá levar para Veneza.
De qualquer modo, Leirner revelou que pretende propor a série inédita Construtivismo Rural, uma paródia bem-humorada sobre a onipresença da tradição concreta e neoconcreta na percepção no exterior da arte brasileira contemporânea. "São readymades e objetos transformados (como tapetes de couro de vaca) que estou selecionando e reunindo para colocar sobre um tapete de grama verde", conta ele.
Se essas obras não forem para Veneza, diz Leirner, serão vistas este ano na individual que será aberta no dia 27 de setembro na Galeria Anna Maria Niemeyer, no Rio. "Quero muito mostrar essas coisas que foram inspiradas na pose dos que se consideram guardiães da essência da arte contemporânea brasileira", cutuca o artista.
Nada contra "os onipresentes e constantemente incensados Hélio Oiticica e Lygia Clark", frisa Leirner. " Eles foram grandes artistas; o que me incomoda é o fato de certa crítica reducionista e arrogante considerá-los como únicos parâmetros de nossa produção visual, que é extremamente rica e complexa."
Nelson Leirner acaba de organizar e inaugurar, no Paço Imperial do Rio, uma original exposição coletiva que coloca, ao lado de novos talentos (seus alunos na Escola Parque Laje), espaços vazios dedicados a mestres da arte internacional, como Joseph Beuys, Marcel Duchamp e Jackson Pollock.
No ano passado, Leirner foi o protagonista de uma ruidosa polêmica: a apreensão, pelo Juizado de Menores do Rio, de 36 trabalhos que expunha no 16.º Salão Nacional de Artes Plásticas, promovido pela Funarte no Museu de Arte Moderna do Rio. O artista alega que buscava denunciar com suas obras a pedofilia embutida nas imagens de bebês realizadas pela fotógrafa neozelandesa Anne Geddes. Acabou tendo seus trabalhos apreendidos pelo juiz da 1.ª Vara de ×nfância e Adolescência, Siro Darlan, que possui pôsteres de fotos de Geddes em seu gabinete de trabalho.
Duchamp - Algumas obras indiciais da importância de Nelson Leirner serão vistas em São Paulo na coletiva Por Que Duchamp, curadoria que pretende rastrear a influência dos processos criativos e idéias do artista francês Marcel Duchamp sobre um conjunto de dez nomes de projeção na arte contemporânea brasileira. Essa mostra será inaugurada no dia 7, no Paço das Artes.
O outro nome brasileiro selecionado para ocupar o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, Iran do Espírito Santo, tem 34 anos e foi aluno de Nelson Leirner na Fundação Armando álvares Penteado (Faap) . Iran vem projetando seu nome no circuito internacional desde metade dos anos 80, constando em seu currículo a participação na 19.ª Bienal de São Paulo (1987). Acaba de exibir um conjunto de trabalhos, como artista convidado da seção especial Project Rooms da Arco, feira de arte de Madri (Espanha) realizada em fevereiro.
Em entrevista por telefone, Iran demonstrou estar feliz por expor ao lado de Leirner na mais tradicional e prestigiosa mostra de arte contemporânea do mundo. "Foi excelente escolha, porque Nelson é de uma geração de artistas importante para a formação de muita gente nas últimas três décadas e ainda não tinha reconhecimento internacional à altura não só dessa contribuição, mas especialmente pela obra original que produz."
Após período de um ano em Londres e depois de ter sido artista residente da Plug In Gallery, em Winnipeg (Canadá), Iran vem realizando diversas mostras no exterior. A primeira individual do artista de Mococa (interior de São Paulo) foi em Winnipeg. A convite da galeria Plug In, ocupou um prédio desativado há 30 anos na cidade canadense. A instalação - uma enorme caixa branca provida de muitos buracos redondos, como um queijo suíço - permitia que o visitante, dentro dela, visse apenas fragmentos selecionados da sala externa, um belo exemplo de arquitetura neoclássica.
Desde então, Iran dedica parte significativa de sua obra a interagir com os espaços que ocupa. Também será essa a operação ativada para criar as obras para Veneza. "Recebi a planta do local há apenas poucos dias, mas penso realizar algo que seja um comentário sobre aquele local e sua arquitetura", conta o artista.
Iran, que também foi selecionado pelo curador Paolo Colombo para integrar a próxima Bienal de Istambul, em setembro, pensa aproveitar algumas das idéias dos trabalhos que exibiu na Arco (Madri) . "Gosto de isolar um elemento banal do seu contexto e transformá-lo em assunto", conta Iran. Foi assim que realizou a série Restless (Sem Descanso), trabalhos que reúnem vidros planos transparentes de vários formatos, simplesmente encostados na parede. Ele exibiu essas obras em individual na Galeria Camargo Vilaça, em março de 1998, e voltou a mostrá-las na Arco no mês passado.
A sala menor (frontal) do pavilhão do Brasil nos Giardini, que caberá a Iran ocupar, tem duas paredes envidraçadas. A série Restless é forte candidata a dialogar com esse elemento arquitetônico, admite Iran.
O olhar atento de Iran para a riqueza plástica e metafórica do que parece apenas coisa utilitária e sem transcendência produziu outra peça que poderá, após avaliação da curadoria, ser incluída em Veneza. A obra, exibida na Arco, é um trabalho inédito no Brasil e que remete a uma enorme cartela de slides (cada slide medindo 40 por 40 centímetros). A imagem está ausente: os slides são retângulos pretos.
Em agosto, o artista realiza obra inédita para o Museu de Arte Moderna, dentro do projeto do crítico de arte e curador do museu, Tadeu Chiarelli, que transformou um corredor de passagem do museu em local de experimentação.

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