Até pouco mais de um mês ter em mãos a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e um carro disponível representava para muitos jovens a chance de frequentar bares e casas noturnas sem grandes preocupações em relação à volta para casa, mesmo depois de uma ou várias doses de bebida alcoólica. A lei brasileira já não permitia ao motorista dirigir sob o efeito de álcool, mas a sensação de impunidade era quase um convite a infringir a lei. A diferença agora é que o nível de tolerância diminuiu, a fiscalização se intensificou e o medo de ser pego em flagrante, receber uma multa, perder a carteira e até ser preso cresceu.
Publicados no Diário Oficial da União no dia 20 de junho, a Lei 11.705 e o Decreto 6.488 alteraram a redação de sete artigos do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Segundo a Lei, o condutor que for flagrado dirigindo sob a influência de álcool ou de qualquer substância psicoativa terá a CNH suspensa por doze meses, multa de R$ 957,70, além da retenção do veículo até a apresentação de condutor habilitado e o recolhimento do documento de habilitação.
''Num primeiro momento soou meio apocalíptico porque sair sem beber não tem a menor graça'', afirma Guilherme de Souza, de 22 anos. ''Não tenho como fazer rodízio de carona, para todos os meus amigos minha casa fica fora de mão. Se saio de táxi gasto uma grana e se saio de carro não posso beber'', afirma o estudante, que agora programa com mais antecedência os encontros com os amigos quando sabe que vai beber. ''Antes de sair já tenho que pensar como vai ser a volta. Sair se tornou uma coisa mais complicada, exige planejamento. Não dá para ser em cima da hora'', completa Guilherme.
Para não perder a clientela bares e casas noturnas da Capital estão buscando soluções que variam de convênios com companhias de táxis para desconto nas tarifas, parcerias com estacionamentos para a cobrança de uma só taxa até o dia seguinte ou transporte gratuito com vans custeado pelo estabelecimento que oferece o serviço. Há também bares que têm um funcionário à disposição para levar o cliente até a casa dele em seu próprio carro. Para Guilherme, o serviço do ''amigo motorista'' foi uma boa opção. ''Achei superbacana, pude me divertir normalmente e fiquei na porta de casa'', conta o jovem.
A adaptação ao novo contexto, entretanto, deve-se mais ao receio das penalidades do que por conscientização dos perigos de dirigir embriagado. ''Quem bebe não deve dirigir, mas eu mesmo fazia. Na prática não funciona. O pessoal está deixando de beber por causa do medo da multa e da prisão. A medida que a fiscalização vai diminuindo vão voltar a beber porque sempre acham que estão bem para dirigir'', acredita Guilherme.
A estudante Ariana de Campos, de 21 anos, também não acredita na plena adaptação dos motoristas mais jovens à nova condição. ''Continuam bebendo, tenho amigos que bebem bastante na balada. Acredito que apenas diminuíram. Também evitam pegar as vias mais rápidas. Vão por caminhos alternativos onde sabem que não tem blitz'', revela Ariana, que não é favorável a esse tipo de comportamento. ''Acho que é irresponsabilidade. Sabem que não pode, que é perigoso mas procuram desviar e podem acabar se prejudicando ainda mais colocando em risco a própria vida e a vida dos outros'', defende a estudante, que participa de um rodízio com os amigos. Assim, quem vai dirigir e deixar todos em casa não pode beber naquela noite.
O rodízio também tem funcionado com a turma de Tania Freitas, de 22 anos. E ninguém fica de fora. Mesmo quem mora em bairros mais afastados pode participar. ''Quem mora mais longe faz uma vaquinha e paga a gasolina'', explica Tania, que acha os serviços oferecidos por alguns bares e casas noturnas uma boa opção desde que o custo não seja muito alto para o cliente. ''Se cobrarem uma taxa pequena, você vai pagar menos que um táxi e não se incomoda. É bom desde que não seja tão caro'', avalia.
Para Sandro Carlos Ader Rontschky, de 27 anos, embora a mudança de hábito tenha gerado insatisfação, o rigor da nova lei deve trazer bons resultados. ''Apesar de nunca ter tido problema (acidente de trânsito), acho que foi bom porque vai evitar muita coisa. Os benefícios a médio e longo prazo vão ser bem grandes'', defende.

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