Legado poético
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de junho de 1997
Antônio Mariano Júnior Londrina 
O poeta abre a porta e o sorriso quase que simultaneamente. É difícil saber, à primeira vista, qual das aberturas - se a vertical ou a horizontal - é maior. Ele estende a mão direita, apresenta-se, dá palavras de boas-vindas, e pede para entrar em sua casa. É uma casa grande de cômodos largos. A conversa começa na sala de estar mas as palavras se dispersam. Não rende. É num pequeno escritório, com estantes cheias de livros e paredes com poemas em estilo Tanka e Senryu, que a linha de raciocínio do poeta parece encontrar arestas. É lá que, sempre com tiradas
bem-humoradas e o com o mesmo sorriso da porta, que o poeta japonês Yoshinobu Seko fala de sua mais nova produção - Poemas do Lavrador.
É seu primeiro livro de poemas escritos em português. Ou melhor, vertidos para o português já que originalmente foram escritos em japonês e lançados em 83 quando Seko comemorou 70 anos de idade. O fato de só agora querer traduzir uma de suas obras para a língua portuguesa tem um motivo especial: o poeta andava pressentindo - erroneamente - algo funesto ao seu redor e quis deixar uma de suas obras em português.Não fiz isso antes porque pensei que estava sempre novo. Agora que estou caindo pretendo deixar alguma coisa minha para esta nova geração que não entende o japonês- diz o poeta num misto de informação e bom humor.
Poemas do Lavrador foi lançado em abril, no dia 1º, data em que comemorou 84 anos. A tradução foi feita por uma moça em São Paulo, indicada por um amigo, que ele não sabe o nome. Ao todo, 150 poemas distribuídos em 159 páginas. Trata-se de uma produção independente. E, pasmem, não está sendo vendido; está sendo ofertado. Em outra palavras, é gratuito. A tiragem é de 300 exemplares. Custos não revelados.
Poesia liberalSão poemas singelos que falam, em sua maioria, de coisas e fatos e gentes vistos sob a ótica de um lavrador. De um poeta-lavrador, dois ofícios que Yoshinobu Seko aprendeu tão logo chegou ao Brasil, em 1926. Tinha 13 anos. Não se pode julgar o livro pela simplicidade do título e nem atribuir ao autor possíveis reminescências de pieguice. Nada disso. Há severidade e candura nas observações que Yoshinobu Seko transpôs para o papel.
O próprio poeta explica que não se ateve, pelo menos neste livro, a formatos e rigores métricos. É poesia liberal- diz. Nem ele sabe explicar o que entende por liberal. É liberal e pronto. Eu acho que o livro não é muito ruim. Quem recebeu, agradece mesmo que não goste de poesia. Quem conhece poesia veio me fazer perguntas e eu fico feliz porque leu o que escrevi - afirma com seu bom humor.
Por trás da humildade deste senhor, há reverências maiores. Ele tem prêmios. Vários reconhecimentos de peso. Entre eles, duas premiações no concurso de poesia Tanka e Senryu, em 71 e 74, concedidas pela Casa Imperial do Japão. O centenário concurso, promovido anualmente, chega a reunir perto de 25 mil poetas de todo o mundo. Poucos são selecionados.
A poesia - e ele se mostra impressionantemente natural quando afirma ser poeta - é sua única preocupação há anos. Quando não está ensinando técnicas estilísticas de gêneros japoneses - tanka e poesia - para um grupo de senhoras da colônia, está escrevendo poesia. Quando não escreve poesias, escreve sobre poesias - ele mantém uma coluna publicada quatro vezes por semana no jornal Diário Nippak, de São Paulo.
Em sua casa, abre as portas e o sorriso - o ritual - duas vezes por semana, para amigos, poetas e outros interessados em poesia Senryu. A sabedoria, disciplina, técnica e sensibilidade rondam o grupo que tem idade entre 60 e 80 anos. O poeta é, sobretudo, um mestre.
Poesia do coraçãoJá escreveu muitas poesias no estilo Tanka (cujos versos obedecem rigorosamente à métrica 5-7-5-7-7). Mas é ao Senryu que ele parece dedicar maior atenção. O estilo obedece à formatação métrica do Hai Kai (7-5-7) mas, segundo o poeta, a diferença básica é que enquanto um fala sobre os sentimentos humanos (Senryu) o outro destila as impressões da natureza. Poesia é coração e nada mais. Há poetas que usam muitas palavras bonitas, eu admiro. Mas eu uso o coração; tudo tem que sair do coração- define sua poesia.
Yoshinobu desfaz o sorriso e franze a testa quando indagado sobre sua primeira poesia. Conta uma longa história em que é preciso ficar atento para que seu português com carregado sotaque japonês não pregue peça no interlocutar. Depois da longa história, que fala sobre os primeiros anos de vida no Brasil, a data: 1931. Tinha 18 anos. A inspiração: o destino que lhe foi reservado; um destino que se mostrava árduo, melancólico, saudosista. Escrevi para sossegar meu coração- confessa.
E não parou mais de sossegar o coração. Tristeza e alegria e suas vias tortuosas foram observadas por Seko. No caso dele a poesia não se cristalizou apenas na inspiração. Foram anos de estudos de técnicas milenares, de observações, experimentos até que pudesse se autodenominar poeta. O mais incrível nesta história: Yoshinobu Seiko fez apenas o curso primário no Japão.
Confessa: não gostava de estudar. Quando a família decidiu vir ao Brasil - aquela história de fazer fortuna em outro lugar que não o Japão - ele se animou. Não pela aventura. Era travesso, um menino travesso que não gostava de estudar. Então, para não estudar poderia ir para qualquer lugar, até no fim do mundo- brinca. E eu acabei chegando no paraíso do mundo. Aqui tem chão bom, gente boa, quase não falta nada- complementa.
Tentou estudar em terras brasileiras. Tentou. A vida na agricultura lhe tomava tempo e também o mínimo de entusiasmo que lhe restava para o estudo. Aprendeu sozinho, lendo aqui, lendo ali. É autodidata, em outras palavras. Papai fazia a gente ler. Se fosse para comprar livros ele arrumava dinheiro, tirava de outro lugar e não fazia cara feia- informa. Daí, o gosto pela leitura.
No Brasil, aprendeu o português rapidamente. Rapidamente, é bom que se diga, segundo ele. Brincava com a molecada e para entender tinha que aprender- diz. Chegou, olhem só a ironia, a dar aulas de português quando jovem às sucessivas levas de imigrantes japoneses que vinham trabalhar em lavouras brasileiras. E mesmo com toda a sabedoria e perspicácia Yoshinobu insiste em dizer, volta e meia, que é analfabeto. Logo ele, uma das grandes referências da tradicional poesia japonesa no Brasil e com reconhecimento no exterior, principalmente no Japão. Pode?
Pode! Yoshinobu permite-se autocrítica, mesmo não sendo verdadeira. Algumas de suas afirmações são graciosamente repreendidas pela filha talvez por saber que ele é um sábio. Ele é sábio e generoso nas palavras. Apesar da dificuldade em se expressar livremente com o português, o poeta parece escolher bem as palavras para responder as perguntas.
Há um lirismo bruto em algumas de suas respostas.Se eu não fosse poeta eu levaria a vida só pensando em ganhar dinheiro- confessa. A poesia sabe quem deve ser alcançado.


